100% Carioca – Sérgio Porto

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Há 90 anos nascia Sérgio Porto. Mas é melhor chamá-lo de Stanislaw Ponte Preta

Por Walterson Sardenberg

O primeiro chiste ele perpetrou aos cinco ou seis anos. Ao ver uma mulher de seios imensos amamentando, decretou: “Aquela lá tem leite condensado”.

Cabe uma pausa. Antes de pensar em criança prodígio, melhor trocar a palavra chiste por tirada, o perpetrou pelo bolou e o decretou por lascou. Sérgio Porto escrevia o português cheio de ginga das ruas do Rio de Janeiro, um idioma em mangas de camisa, sem empolação, embora com o particularíssimo rigor de um estilo cômico e conciso.

O jornalista e escritor fez parte das duas gerações de cronistas que deram um chega pra lá nos preciosismos e assumiram o coloquial de quem pede ao garçom boa-praça a saideira de todos os dias. Era o mais carioca deles, aliás. Até mesmo por uma questão geográfica. Nasceu e viveu a vida inteira em Copacabana. Os demais chegaram ao Rio vindos de outros estados, inclusive etílicos — os mineiros Paulo Mendes Campos (consumidor exagerado das ditas bebidas espirituosas) e Fernando Sabino, os capixabas Rubem Braga e Carlinhos Oliveira (outro exagerado), os pernambucanos Nelson Rodrigues (abstêmio) e Antônio Maria. Ah, antes que a gente esqueça: Sérgio tinha horror à criança prodígio.

Gostava mesmo era dos romances de Eça de Queirós (riu muito, na adolescência, com O Primo Basílio e O Crime do Padre Amaro); dos discos dos pianistas de jazz Art Tatum e Fats Waller; das peladas de praia (foi um razoável goleiro); de sambistas criativos; das esticadas com os amigos no Zeppelin, no Villariño e na Fiorentina; e, antes de tudo isso e mais um pouco, das mulheres. A partir de 1952, publicaria ano a ano a sua lista das certinhas. Os mais chegados diziam: apaixonava-se até por vestido exposto em vitrine de boutique.

Ponham-se no rol das predileções, ainda, os ovos fritos. Eram uma mania. Costumava fritá-los para as namoradas. Nos critérios culinários de Sérgio — nada ortodoxos, por sinal — qualquer prato melhorava com dois ovos em cima. Tornou-se um especialista no assunto. “Ele me ensinou a fritar ovos”, lembra sua prima, a jornalista Maria Lúcia Rangel. “Primeiro, deixava a manteiga derreter. Depois, fritava no fogo médio, com a frigideira tampada. A clara fica crocante e a gema, mole.”

Sérgio Porto morreu há 45 anos. Com apenas 45 anos. Os ovos estrelados, as linguicinhas do Zeppelin e outros pratos gordurosos tiveram alguma culpa nessa morte precoce. Sérgio era cardíaco. Padecia de pressão alta. Acreditava que as dez gotas matinais de Digitaline resolvessem a parada. Sofreu o primeiro infarto ainda aos 36 anos, em 1959. Sua mãe, Dulce, com quem sempre morou — mesmo depois de casado com Dirce —, pedia à empregada que maneirasse no sal. Não adiantava. “Sérgio pegava o saleiro na surdina”, lembra Maria Lúcia, acrescentando que o primo, nesses almoços caseiros, era “maluco por pastel de carne moída, bife acebolado e picadinho”. Foi um cabeça-dura — embora cabeça fresca.

Sérgio era assim, contraditório, como os melhores. Criativo 24 horas, largou a faculdade de Arquitetura no terceiro ano e acomodou-se por mais de década em um cargo burocrático do Banco do Brasil — colega de batente do xará Sérgio Jaguaribe, mais conhecido como Jaguar, o ilustrador da maioria de seus livros. Funcionário elogiado, nem por isso ausentava-se das aventuras da famigerada Turma dos Cafajestes, comandada por Carlinhos Niemeyer. Alto, forte e boa-pinta, tinha a saúde frágil como uma tulipa de chope. Boêmio assumido, trabalhava demais, escrevendo para jornais populares e televisão na intrépida Remington semiportátil. Dela, só levantava os olhos “para pingar colírio”. Pai amoroso, mesmo depois de separado da mãe de Gisela, Ângela e Solange, jamais deixou de ser um frequentador diário da noite. De madrugada, voltava ao lar — “descanso do bar”, nas palavras do poeta Abel Silva —, trazendo sanduíches de pernil com abacaxi do Cervantes, casa ainda hoje servindo aos cavalheiros andantes e às donzelas errantes da Rua Prado Júnior.

O maior antagonismo de Sérgio talvez estivesse entre as crônicas assinadas com seu próprio nome e aquelas escritas por seu demolidor alter-ego, Stanislaw Ponte Preta. No primeiro caso, o lirismo é um dos ingredientes básicos da receita do rapaz que iniciou-se como poeta. Basta ler os livros As Cariocas e A Casa Demolida para atestar. Quando vestia a pele de Stanislaw, no entanto, não sobrava nem gema sobre clara, quanto mais pedra sobre pedra. Lalau, o codinome do heterônimo, simplesmente espinafrava. Se Freud explica ou não, isso é tarefa dos biógrafos de Sérgio. Mas Stanislaw explicava Freud: “Seu primeiro nome era Segismundo. Aliás, não só seu primeiro nome como também seu primeiro complexo”.

Stanislaw tinha a quem puxar. Era sobrinho da solerte Tia Zulmira, ex-condessa prussiana, ex-vedete do Folies Bergère e ex-cozinheira da Coluna Prestes, autora de máximas históricas. Duas delas: “uma feijoada só é realmente completa se tem uma ambulância de plantão” e “as três coisas mais perigosas que conheço são limpar arma de fogo, mulher do vizinho e croquete de botequim”. Apesar das recomendações da parente macróbia, Sérgio adorava empadinha de boteco. Arriscava-se até nas de camarão. Apreciava também a cachaça Claudionor, que importava de Minas Gerais. Bebia bem, aliás — uísque, em especial —, mas descartou dar o nome de Stanislaw a um conhaque. Entre outros motivos, justificava a recusa com o temor de imaginar um possível consumidor contumaz ouvindo da digníssima: “Chegou atrasado, não é cachorrão? E ainda com bafo de Stanislaw Ponte Preta!”.

A jornalista Gisela Porto tinha menos de 15 anos quando o pai morreu, no terceiro enfarto. Lembra-se que Sérgio levava as filhas todas as semanas para jantar fora. “Íamos muito ao Nino’s”, diz. “Ou então ao restaurante da Maria Teresa Weiss, que fazia uma ambrosia que ele amava. Quando estava com mais dinheiro, gastava no Le Bec Fin. Era uma das melhores casas dos anos 1960.” Gisela, porém, reconhece que sua irmã do meio, Ângela Porto, um ano mais nova, tem uma memória muito mais afiada. De fato, Ângela, historiadora de ofício, parece se recordar de cada jantar da família. Lembra-se do Il Pappagallo, uma cantina italiana, na Rua Prado Júnior: “Ele sempre pedia a lasanha verde”. Ainda tem frescas na memória as idas ao Chalé Suisse (“ficava na Rua Xavier da Silveira, no Posto 5, e papai era fã do bife tartar e do steak Diana”). Os restaurantes de inspiração francesa eram então a moda, como o Bistrô, na Rua Fernando Mendes ou o Le Petit Chien, da chef Myrtes Paranhos, também no roteiro da família. Sérgio frequentava, ainda, o Rond Point, famoso pela sopa de cebola, na porta do qual Antônio Maria, outro cronista divertidíssimo — e outro cardíaco —, teve um infarto fulminante.

Nos fins de semana, gostava de subir a serra para aproveitar o friozinho de Petrópolis. Ângela relembra: “No meio do caminho, parávamos no Le Moulin Rouge, que não era uma casa noturna, como o nome faz crer, mas um restaurante francês, onde ele pedia pato com laranja. Aliás, canard à l’orange. Na época, cardápio fino era em francês”. Mesmo nos finais de semana na serra, Sérgio batucava na Remington. Havia ainda mais assunto: em nome do golpe militar de 1964, então autobatizado de Revolução (e de “A Redentora”, pelo debochado Stanislaw), uma turba de aduladores do poder cometeu uma interminável série de bobagens e barbaridades.

Sérgio recolhia as histórias. Deu a elas o nome geral de Festival de Besteiras que Assola o País. Ou Febeapá — gozação com a predileção dos novos mandatários pelas siglas. Até 1968, mesmo que aos trancos e barrancos, a Redentora, vá lá, ainda permitia algumas críticas. Sérgio morreu três meses e meio antes do AI-5. Começavam os tempos em que, mais do que qualquer coisa, perpetrava-se e decretava-se. Tempos sem graça nenhuma.

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