A arte de acelerar

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O empresário Rogério Lopes de Souza posa à mesa de trabalho , em que tem um retrato do pai, Paulo Roberto Blauth de Souza

A velocidade que o jovem empresário Rogério Lopes de Souza imprimia às motocicletas, agora dedica aos negócios, com todo o incentivo do pai, fundador da importadora curitibana Obra Prima

Por Luiz Carlos Zanoni
Foto: Dico Kremer

Juntar pai e filho na gestão de um empreendimento nem sempre é boa ideia. Sobram exemplos de empresas assim constituídas que se desgovernaram pela ingerência de questões mal resolvidas no âmbito familiar. Rogério Lopes de Souza comenta, aliviado, que a Importadora Obra Prima situa-se em um campo oposto: o dos negócios cujo sucesso se deve exatamente a parcerias desse gênero. Seu pai, Paulo Roberto Blauth de Souza, abriu-lhe espaços na empresa desde que a fundou, em 2004, e o fez porque conhecia o pique do rapaz. Nunca se arrependeu. Sediada em Curitiba, a Obra Prima construiu em menos de dez anos uma sólida reputação. O catálogo, focado sobretudo no segmento de vinhos, incorpora produtores de vários continentes. Em 2012 foram cerca de dois milhões de garrafas vendidas no Brasil, 22% a mais do que no ano anterior. “Eu e meu pai nos completamos, ele com sua larga experiência e o vasto círculo de relacionamentos em diferentes setores; eu com a energia para o dia a dia e as ideias novas”, diz Rogério.

O currículo de Paulo Roberto na área empresarial é encorpado. Participou de projetos da multinacional Cargill, foi pecuarista no Mato Grosso do Sul, dono de rede de postos de combustíveis e criou empresas que ainda mantém, como a de logística de transportes e a fábrica de sucos Serra da Uva, em Bento Gonçalves. Rogério começou a trabalhar com o pai aos 18 anos. Desde então as provações e desafios partilhados só refinaram a sintonia entre ambos. Rogério se alegra por nunca ter abdicado dos sonhos e aventuras próprias da idade, mesmo ingressando tão jovem no mundo dos negócios. “Deu para conciliar bem as coisas”, avalia. “Gosto de viagens e nunca deixei de realizá-las. Lembro-me de uma muito especial, feita com um grupo de amigos. Cobrimos de moto a lendária Rota 66, nos Estados Unidos.”

Intuitivo, Rogério decidiu cursar Comércio Exterior num momento em que seu pai sequer cogitava da importadora. Acertou na mosca. Quando a Obra Prima surgiu, ele já estava preparado para as funções que o aguardavam. Hoje exerce a gerência geral, cuidando em especial da área financeira. A importadora começou como uma espécie de segundo negócio, na esteira da empresa de transportes que opera bastante na Argentina e Chile. Logo, porém, tomou a dianteira, tamanho o crescimento.

Os atuais depósitos, próximos ao centro de Curitiba, tornaram-se pequenos. Um novo e amplo centro de distribuição está sendo construído em Mandirituba, município da região metropolitana. A empresa ganhou grande capilaridade, presente de Belém do Pará a Porto Alegre, com escritórios e representantes. No vinho, item principal do portfólio, o foco é garantir ao consumidor uma relação favorável entre preço e qualidade, preocupação agora reforçada pela alta decorrente da nova sistemática tributária. A Obra Prima traz, com exclusividade, rótulos de dezenas de bodegas tradicionais, como Errazuriz e Casa Del Bosque (Chile), Los Haroldos e Família Cassone (Argentina), Poças (Portugal), Château Les Millaux e Cellier des Dauphins (França), ou Marco Real (Espanha).

Segundo Rogério, a fase positiva de nossa economia tornou o mercado brasileiro bastante cobiçado, sobretudo pelos europeus, que vivem uma longa crise. São centenas de novos produtores em busca de parcerias ou os que já operam querendo ampliar posições. “É preciso ir com cuidado”, diz Rogério. “Nada de inflacionar, sobrepor no catálogo produtos concorrentes entre si, o que só gera problemas. O correto é que as linhas se complementem sem conflitos. Meu pai estabeleceu uma rigorosa filtragem. Parte das vinícolas com as quais iniciamos foram descartadas. Na seleção dos rótulos conta não o paladar de uns poucos entendidos, mas a opinião e o gosto do público consumidor.”

Ele tem muito da inquietude paterna, sempre atento às novas oportunidades. Preocupa-se em agregar linhas que potencializem a estrutura. A Obra Prima já atua na área alimentícia, notadamente com azeites premium, de alto padrão, provenientes do Chile, Portugal e Itália. E está se voltando às cervejas artesanais, segmento que passa pelo mesmo processo vivido pelo vinho há 15 anos. “O consumidor começa a discernir entre os muitos estilos da bebida e a explorar suas harmonizações à mesa, com a comida. As microcervejarias pipocam por toda parte, há um grande futuro aí.” Aos 35 anos, casado com Rafaella e pai de Giovana, que festejou seu primeiro aniversário, Rogério admira no pai o carisma e a facilidade em fazer amigos, dom importante numa área onde a relação pessoal significa muito. Paulo Roberto está sempre viajando, ora para rever fornecedores, ora para avaliar a qualidade das safras ou testar novos produtos. Viagens continuam sendo uma das coisas que o filho mais aprecia, só que agora não mais pela Rota 66, mas seguindo os caminhos do pai.

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