A Syrah no Chile

0
3339

Testamos 40 tintos feitos com a casta, a quarta mais plantada no país andino. Dá vinhos carnudos e frutados nos vales quentes. Nas regiões frias, eles são perfumados e especiados

Por Guilherme Rodrigues
Fotos da degustação Reinaldo Mandacaru
Após o seu grande sucesso na Austrália, a casta Syrah se espalhou com rapidez pelas vinícolas do Novo Mundo nas duas décadas finais do século 20, produzindo tintos de grande aclamação. Fora da França, é geral denominada Shiraz, embora no Chile a grafia original seja mais empregada. De cor rubi-escura, muitas vezes retinta, os vinhos são encorpados, cheios, frutados, perfumados e com certa elegância e profundidade. A origem bem conhecida é francesa, da região do norte do rio Rhône, logo ao sul de Lyon, onde se produzem os fabulosos Hermitage e Côte Rôtie tintos, dentre os maiores vinhos do planeta.

A ascendência da casta sempre foi envolta em mistérios lendários. Um deles atribuía aos cruzados, que trouxeram a cepa da Pérsia, entrando na Europa pelo rio Rhône e plantando-a na região granítica do Hermitage. Em outros casos, a origem seria Síria, Grécia, Sicília ou Albânia. Testes de DNA feitos pela Universidade de Davis, na Califórnia, em 1998, atribuem a paternidade da Syrah às castas Mondeuse Blanche (mãe) e Dureza (pai). A primeira é oriunda da região da Savóia; a segunda, mais ao sul, da Ardeche. Difundiu-se com rapidez no Chile no fim do século passado. Hoje, com cerca de 6,1 mil hectares de vinhas, é a quarta casta tinta mais plantada no país, atrás de Cabernet Sauvignon, Merlot e Carmenère. Encontra-se em todas as regiões chilenas. Em alguns casos, a Syrah não vem sozinha. Isto é, o vinho não é elaborado 100% com a casta, mas recebe um ligeiro corte de outras cepas. A legislação permite que seja considerado varietal desde que pelo menos 75% do corte sejam da variedade declarada.

Nos climas mais quentes, como no Vale do Colchagua, dão vinhos carnudos, frutados e encorpados. Já em climas mais frescos, como San Antonio e Casablanca, os vinhos são mais perfumados, delgados e especiados. A prova bem demonstra a grande difusão da casta pelo país todo.

Testamos 40 diferentes rótulos de Syrah chilenos disponíveis no mercado. Apenas dois estavam com defeito de garrafa, pelo que não os indicamos. No geral, distinguem-se duas categorias. A dos vinhos melhores, carnudos, mais untuosos e cheios, encorpados e bem temperados. E a dos demais, em que ares mais austeros andam de mãos dadas a uma base frutada e por vezes ainda com um excesso de madeira. Embora com força para uns cinco ou pouco mais anos em boa forma na garrafa, não são tintos para guarda mais prolongada. A temperatura ideal de serviço situa-se na casa dos 17ºC. Bem escolhidos, são belos tintos, companhia agradável de comidas, carnes em geral, legumes, arroz e risotos.

001_G005A degustação foi às cegas, no restaurante North Vila Nova, em São Paulo (R. Jacques Félix, 365, Vila Nova Conceição, tel.: (11) 3044-4885). Dela participaram, além deste redator, os experientes degustadores da Revista GOSTO: Alexandre Rodrigues, José Luiz Pagliari e José Maria Santana. Esteve presente o diretor de redação da Revista GOSTO, jornalista J.A. Dias Lopes. O serviço foi conduzido pelo competente sommelier Simões Fernandes. O assador José Silva Tintinto, após os trabalhos, serviu grelhados suculentos da famosa grelha do North Vila Nova. Detectamos diversos exemplares com bom custo-benefício, que o leitor descobrirá ao verificar as notas de degustação e os preços, a seguir.