Ajuste perfeito

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O chef Claud Tohya Yamashita posaà esquerda do artista plástico Takashi Fukushima

O artista plástico Takashi Fukushima e o chef Claud Tohya Yamashita são velhos amigos. Isso tornou ainda mais bem sucedido o encontro de suas artes em São Paulo

Por Walterson Sardenberg Sº
Foto: Antônio Rodrigues

A descoberta da vocação é um momento decisivo. Fundamental. Mas pode se dar das formas mais variadas. Mozart já compunha aos cinco anos. Arnold Shwarzenegger deu a sorte de encontrar três vocações ao longo da vida: fisiculturismo, fisiculturismo no cinema e fisiculturismo na política. Takashi Fukushima, 63 anos, é artista plástico em tempo integral, embora divida seus dias entre o ateliê e a atividade de professor de Desenho na Faculdade de Belas Artes e de Comunicação Visual na Faculdade de Arquitetura e Turismo da USP, em São Paulo. Seu caminho profissional começou a ser traçado ainda na infância. Filho do premiado pintor e gravador Tikashi Fukushima — que faleceu em 2001, aos 79 anos —, convive com as telas desde que seu projeto de vida ainda era um esboço. Grandes pintores faziam parte de cotidiano do garoto. A arte tornou-se um prolongamento quase natural desse dia a dia. “Aldemir Martins me carregava no colo”, lembra. “Nas férias, brincava na praia de Itanhaém com os filhos de Manabu Mabe, enquanto meu pai e o deles pintavam na casa em frente.”

Claud Tohya Yamashita, 43 anos, chef executivo do Hotel Meliá-Jardim Europa, em São Paulo, nissei e paulistano tal como Takashi, demorou um pouco mais para descobrir a vocação, elaborar a receita e levá-la ao forno. Seu pai, um agente de turismo, e sua mãe sempre adoraram cozinhar, mas o único chef de renome que Tohya — como prefere ser chamado — conheceu na infância foi Jun Sakamoto. Se bem que àquela altura Sakamoto nem imaginava fazer da gastronomia uma profissão. Longe disso. Vivia longe das panelas. Era apenas um meninote de 13 anos andando de bicicleta para cima e para baixo, enquanto o amigo criava manobras no skate. Tohya só descobriu o que queria fazer da vida por acaso. “Depois de terminar o ensino médio, resolvi viajar mundo afora”, conta. “Em Queensland, na Nova Zelândia, trabalhei em um restaurante japonês. De início, lavava pratos. Mesmo assim, acabei descobrindo minha vocação.”

Se Takashi e Tohya diferem no momento de desvendar o próprio dom, os dois se igualam na determinação da corrida em busca do sonho. No caso do artista plástico, isso se deu até no sentido literal da expressão. “Costumo ter um bloco de papel na mesa de cabeceira para tentar desenhar o que sonhei aquela noite”, conta o pintor, gravador, desenhista e doutor em Arquitetura e Design pela USP.

Ainda muito jovem, Takashi teve aulas com Luiz Paulo Baravelli — que, exerceu o papel que Wesley Duke Lee desempenharia para o próprio Baravelli. Já em 1973, aos 23 anos, expôs na Bienal de São Paulo. Três anos mais tarde, foi premiado no Salão Paulista de Artes Plásticas, honraria que se repetiria em 1987. Entre exposições no Brasil e exterior, outra distinção recebida foi o prêmio de excelência na Primeira Bienal Brasileira de Design (1990). Também conquistou o Molière pela cenografia da peça teatral Pássaro do Poente, montada em 1987 pelo grupo Ponkã. Sua visão da arte é muito particular: “A arte parece inútil, pois o artista não resolve nada, mas existe para fazer o homem pensar. Isso é essencial. Costumo dizer que não contesto, e sim constato. Procuro revelar uma outra percepção do real”. Em busca de novas referências para sua arte, Takashi residiu no Japão, onde estudou na Universidade Nacional de Artes e Música de Tóquio. Também morou em Montreal, no Canadá. “Não deu para ficar por lá muito tempo por causa do frio.”, recorda, rindo. Com efeito, o Canadá só não pode ser comparado a uma geladeira porque ninguém joga hóquei dentro de uma.

Tohya, por seu turno, iniciou a carreira de fato na França. Nada mau. De cara, deu a sorte de conseguir uma vaga na cozinha de um restaurante duas estrelas no Michelin, o Le Bateau Ivre, instalado em Bourget-du-lac, à beira do maior lago do país. Foram tempos de muita aprendizagem. “Usávamos diversos ingredientes do próprio lago”, diz. De Bourget-du-lac, bandeou-se para Tóquio, onde morou durante sete anos, trabalhando no La Mer, um dos melhores restaurantes de culinária francesa na Ásia. “O chef era perfeccionista e isso me fez crescer como profissional”, avalia.

Dos sete anos em Tóquio, passou os últimos quatro acumulando funções. Um dia por semana encarava a cozinha do Schichimenso, no bairro de Ginza. Um aviso: trata-se de uma das casas mais renomadas de gastronomia japonesa no planeta. “O problema é que deixei de ter qualquer dia de folga”, lembra o chef. De qualquer maneira, valeu o esforço. “As cozinhas francesa e japonesa têm técnicas muito diferentes”, analisa. “Ao trabalhar com as duas, tornei-me mais eclético. Isso me livrou, também, dos preconceitos culinários. Estou sempre testando novos ingredientes e combinações.” De volta a São Paulo, Tohya viu-se contratado pelo Hotel Maksoud. Tornou-se chef da Brasserie Victoria, ali instalada. Há 12 anos está no Meliá, onde se deu o encontro com Takashi, promovido por GOSTO. O artista plástico e o chef já se conheciam — e já se admiravam, de longa data. Ficaram entusiasmados com a parceria em uma reportagem, que propunha a releitura na gastronomia de três quadros. Takashi é extrovertido. Tohya, o oposto. Mas a conversa engrenou sem solavancos. Tohya escolheu reinterpretar na cozinha quadros do pintor criados com a técnica de tinta acrílica sobre tela.

Os dois primeiros, Sol e Meteoro, datam de 2008 e fazem parte de uma série sobre o cosmos que resultou em uma exposição com a curadoria de Jacob Klintowitz. “Toda a minha obra tem por base a natureza”, diz o artista. “O universo, sempre em movimento, e os planetas também podem ser vistos como tal.” Por fim, Tohya optou por O Mar, quadro da série “Luz e Sombra”, a produção mais recente do pintor. Takashi explica: “É um trabalho fincado na ideia das dualidades. Não existe sombra sem a luz. Fui motivado por um ensaio do escritor Junichiró Tanizaki, que, entre outras análises, estuda como a luz elétrica mudou a observação da arte tradicional japonesa. Por exemplo: as minúcias da técnica milenar do charão, aquela laqueado na cerâmica, só podem ser notadas com menos luz”.

Tohya, que gosta de desenhar, montou os pratos diante dos olhos extasiados de Takashi, que confessa sua falta de aptidão para a cozinha. “As cores foram a minha primeira orientação”, diz o chef, ressaltando ter buscado na culinária aprendida no Japão ingredientes para os molhos, como o ouriço-do-mar e o kenen — conhecido no Brasil como ágar-ágar, uma gelatina de algas. Parte fundamental da técnica do preparo, porém, veio da culinária francesa. Duas referências que se unem com perfeição. Assim como ocorreu neste encontro com as linguagens da pintura e da gastronomia.

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