Amargo vilão

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Desenho de uma mulher loira com um hambúrguer em uma mãe e uma frigideira com salsichas em outra

Quem consome açúcar com exagero contrai uma dívida que os exercícios físicos só amortizam

Por Antonio Carlos Nascimento
Ilustração: Jaca

Otto von Bismarck, o homem que unificou a Alemanha, deixou frases célebres. A mais famosa delas prima pelo sarcasmo: “Os cidadãos não dormiriam tranquilos se soubessem como são feitas as salsichas e as leis”. Nunca vi com maus olhos um hot dog eventual e já comentei isso por aqui. O que vem chamando muita atenção, pelo menos no Brasil, é o aumento contundente no consumo de gêneros processados. No carrinho da salsicha há hambúrguer, lasagna, pizza, sanduíches, nuggets e por aí vai.

Uma passada no corredor do supermercado e lá estão alguns pacotes de macarrão que ficam prontos em três minutos. No corredor ao lado, agarramos algumas latas de gostosos molhos onde o tomate é o artista principal, mas acompanhado de toda sorte de aromas e aquisições gustativas. Enlatados de pescado (um de meus fracos) se apresentam em molhos e patês prontos. Basta abri-los para usá-los em massas ou pães. Existem ketchups e mostardas para todos os paladares. Alguns metros adiante estão refrigerantes e sucos em várias medidas e variadas procedências. Com tanta evolução, basta um refrigerador e seu freezer, associados a um micro-ondas e nossa sobrevivência está deliciosamente resolvida. Ou quase isso.

O uso eventual de tais recursos nos ajuda a saciar a fome, com a enorme vantagem de nos poupar o tempo à beira do fogão. Mas, diferentemente da carne, peixe ou frango que compramos a semana passada e congelamos para usar agora, todos estes alimentos sofrem extenso processamento para se apresentarem às nossas papilas, perdendo e recebendo enorme quantidade de substâncias.

Passaríamos dias falando sobre os aditivos na conservação de alimentos, mas gostaria de anotar dois, que aparentemente se relacionam a danos graves, quando o uso é assíduo. O nitrito, utilizado na conservação de carnes, processadas (estas apresentam outros tantos conservantes) ou não, sob a observação de um grande número de estudos, tem relação direta com tumores pancreáticos e de intestino. Penso que caiba muito cuidado com os exageros.

Outro aditivo que parece estar estragando o mundo e enriquecendo indústrias farmacêuticas: o açúcar. São muitos raros os produtos de grande durabilidade, guardados em prateleira ou freezer, que não possuam alguma quantidade de açúcar em sua constituição. Existe uma crescente pressão da comunidade científica junto à indústria alimentícia, no sentido rever esta adição, que tem como principal objetivo melhorar o sabor dos produtos. Os estudos revelam uma coincidente elevação na incidência de várias doenças, entre elas o diabetes, com a introdução deste recurso pela indústria.

Os sucos industrializados, que se vestem de bons moços, estão na linha de fogo. Segundo seus críticos, são destituídos das fibras de suas frutas e, pior ainda, revelam-se tão doces quanto os refrigerantes. Para os diets restam os questionamentos quanto aos adoçantes. Deixarei este assunto para outra coluna, por exigir que enverede por detalhes.

Há quem acredite que, praticando exercícios, estamos livres dos problemas causados pelo nitrito e outros vilões. Sobretudo, o açúcar. Não é bem assim. Claro que exercícios são saudáveis. Mas, aparentemente, apenas amortizam uma dívida impagável com a permanência do exagero “doce” de nosso café da manhã ao jantar.

Bom senso e discernimento, estes sim, são ingredientes que só fazem bem. Bismarck também dizia: “Com leis ruins e funcionários bons ainda é possível governar. Mas com funcionários ruins, as melhores leis não servem para nada”. Nesta questão, somos os funcionários de nós mesmos.

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