As empadinhas de Mário de Andrade

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O autor de Macunaíma, falecido há 70 anos, não enfrentava o fogão, mas gostava de comer bem e tinha em casa uma cozinheira de mão cheia a quem dava instruções precisas

Por J.A. Dias Lopes*

O escritor brasileiro Mario de Andrade, autor do romance Macunaíma, uma das obras-primas da literatura brasileira, morreu no dia 25 de fevereiro de 1945. Portanto, nesta quarta-feira se completam os setenta anos do seu falecimento. Nascido em São Paulo em 1893 e falecido na mesma cidade, ele foi romancista, contista, poeta, ensaísta, folclorista, crítico de arte, musicólogo, agitador cultural e “maestro” de cozinha. Essa faceta, aliás, é a que nos interessa aqui. Mário de Andrade tinha pela culinária o mesmo interesse conhecido pelas fontes autênticas da cultura e da realidade brasileiras.

Não era de enfrentar o forno e o fogão na prática. Em compensação, teorizava com propriedade sobre comida. Em casa, dava instruções precisas a Sebastiana Campos, Bastiana ou Tana, como ela era mais conhecida, a cozinheira de mão cheia que trabalhou para ele na Rua Lopes Chaves, 546, no bairro da Barra Funda, em São Paulo, onde viveu com a mãe Maria Luísa, ou Mariquinha, e a tia Ana Francisca, ou Nhanhã.

Mostrou a sabedoria gastronômica literariamente. No conto O Peru de Natal, do livro Contos Novos, relata o preparo dessa ave com detalhes de mestre-cuca. Descreve as duas farofas que a enriquecem, “a gorda com miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga”. Usa a primeira farofa para rechear o papo, acrescida de ameixa-preta, nozes e um cálice de jerez.

A seguir, fala da comilança com requintes de gourmet. “A carne mansa, de um tecido muito tênue, boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa-preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz”. O Peru de Natal é um conto de inspiração autobiográfica.

O personagem vive com a mãe viúva, uma tia e a irmã, em uma família patriarcal, que mantém tradições e respeita as aparências, ou seja, em condições semelhantes à do escritor. Além disso, Mário de Andrade era bom de mesa. Declarou sem rodeios ao jornalista Joel Silveira, na reportagem publicada na Revista Acadêmica (Rio de Janeiro, 1939): “Gosto de comer e beber bem”.

A casa da Rua Lopes Chaves parecia viver em festa. Na peça anexa ao quarto, onde se encontrava uma rica biblioteca, Mário de Andrade recebia os amigos. Apareciam em grupos, eram escritores, pintores, escultores etc. Discutiam literatura e artes em geral, participavam de saraus animados pelo piano que o anfitrião tocava. Comiam doces brasileiros, como os de batata-rosada (e não roxa ou branca, conforme a exigência do anfitrião) e de abóbora; bebiam licores caseiros ou cachaça pura – Mário de Andrade preferia a pernambucana Manjopina, primeira industrializada no Brasil, cuja produção começou em 1756 no engenho Manjope, no município de Igarassú, Região Metropolitana do Recife.

Quando havia almoço ou jantar, os convidados passavam na cozinha logo ao chegar e cumprimentavam Tana. A cozinheira trabalhou quase meio século com a família do escritor, até morrer na década de 1970. Mário de Andrade adorava as empadinhas de camarão que Tana preparava segundo uma antiga receita de família. Um dia Tana aprendeu a fazer uma massa diferente. O escritor provou e não gostou, pois a achou “dura”. Foi à cozinha levando uma empadinha na mão e disparou: “Se eu jogar esta aqui na parede ela não arrebenta”.

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A cozinheira Tana e os sobrinhos do escritor, Carlos e Thereza

Thereza e Carlos Augusto Andrade Camargo, sobrinhos e herdeiros de Mário de Andrade (o escritor morreu solteiro e não teve filhos), garantem em São Paulo, onde vivem, que ninguém preparava um bife na manteiga como ela. Também eram divinas as suas tortas de palmito e frango. A cozinheira ainda fazia uma extraordinária paçoca de carne, usando lagarto. Um dos convidados disse ser “de lamber os beiços”. Desfiava a carne, fritava e batia com farinha de mandioca no velho pilão da casa. Os herdeiros de Mário de Andrade conservam um caderninho de capa dura com 34 páginas onde estão essas e outras receitas. Só as sobremesas são 131.

Foi escrito por duas mulheres – as letras são femininas. Acredita-se que as autoras foram Dona Mariquinha e Dona Nhanhã. Aliás, a mãe e a tia do escritor eram tarimbadas doceiras e trabalhavam inclusive para fora. Vendiam sequilhos, amanteigados, biscoitinhos de polvilho, bons-bocados, broas de coco, sonhos de massa cozida, pastéis de nata e outras delícias. Mário de Andrade adorava doces e começou a apreciá-los na infância, influenciado por elas. No criado-mudo ao lado da sua cama sempre havia um vidro de sequilhos, que exigia delicados, leves e quebradiços. Ele os saboreava em êxtase.

 
*J. A Dias Lopes é jornalista, diretor de redação da Revista GOSTO e escritor gastronômico, autor dos livros “A Canja do Imperador”, “A Rainha que Virou Pizza” e “O País das Bananas”