Bom apetite, Santidade!

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Um banquete preparado pelo grande chef Laurent Suaudeau, em São Paulo, com os pratos favoritos de cinco pontífices católicos

Por J. A. Dias Lopes
Pintura: Jan Van Coninxloo

Quase todas as religiões atribuem à gula a falta de autocontrole. São Bento de Nurcia (480-547), fundador da Ordem dos Beneditinos, pensava assim. São Tomás de Aquino (1225-1274) tinha a mesma convicção. O teólogo e filósofo que elaborou o mais importante sistema de ideias da Igreja Católica classificou o apego excessivo à comida como pecado capital, ao lado da vaidade (depois substituída pela soberba), avareza, luxúria, ira, inveja e acídia (hoje, preguiça). Isso não impediu que, desprezando a lição de São Tomás de Aquino, alguns papas da Idade Média dessem mau exemplo aos fiéis.

O francês Martinho IV (1281-1285) é bastante lembrado pelo pecado da gula. Sua reputação foi espalhada pelo canto “XXIV do Purgatório”, uma das três partes da Divina Comédia, o genial poema épico e teológico de Dante Alighieri (1265-1321): “Teve (ele) a Santa Igreja nos braços:/foi do Torso, e purga por jejum/ as enguias de Bolsena e a vernaccia”. Dante não pecou pela injustiça. Carroções repletos de enguias chegavam seguidamente a Orvieto, na região da Úmbria, onde Martinho IV passou boa parte do pontificado de quatro anos, incapaz de se instalar em Roma, cuja população apoiara um candidato vencido no conclave tumultuado que o elegeu. Outra cidade na qual morou foi Montefiascone, no Lácio, justamente na vizinhança do piscoso Bolsena, um dos maiores lagos da Itália, com 113,5 quilômetros quadrados. No século 19, o escritor italiano Niccolò Tommaseo, estudioso da Divina Comédia, lembrou que o peixe favorito do papa inspirou a inscrição afixada no seu túmulo: “Alegram-se as enguias porque aqui jaz aquele que (…) tirava a pele delas”.

À parte os pontífices que cometeram o pecado da gula, convém lembrar o fato de todos serem humanos e, como tal, terem o direito natural do prazer à mesa. Como nós, podem dar-se inclusive ao luxo de um prato favorito. Além disso, na condição de chefes mundiais da Igreja Católica e governantes do estado do Vaticano, precisam receber pessoas à mesa. Por isso, dispõem de boa cozinha e de adega sortida. Muitos tiveram até chefs famosos. O mais célebre desses profissionais foi Bartolomeo Scappi, cozinheiro de Paulo III e Pio V, falecido logo depois de publicar o livro Opera dell’arte del cucinare, em 1570.

O banquete que apresentamos nesta reportagem reúne as preferências de cinco pontífices: João Paulo II (sopa de beterraba), Bento XI (ovo beneditino), Pio XII (fettuccine alla papalina), Gregório XVI (vitello alla romana) e Bento XVI (torta de maçã). Nenhum deles foi glutão. Dois ascenderam à glória dos altares. Bento XI foi declarado beato em 1736. Sua festa litúrgica cai no dia 7 de julho. João Paulo II mereceu a mesma bem-aventurança em 2011. É festejado a 22 de outubro. João Paulo II, que comandou a Igreja de 1978 a 2005, introduziu no Vaticano receitas da sua Polônia natal, preparadas pelas três freiras cozinheiras que o acompanharam até Roma. Mas acabou capitulando à culinária italiana, até mesmo porque, com a idade avançada, os pratos fortes da dieta da pátria não se adaptaram mais ao seu cardápio.

Bento XI (1303-1304), conhecido pelo caráter conciliador, adorava ovos. A lenda diz que foi assassinado com uma comida envenenada, que pode ter sido uma omelete. A hipótese foi levantada em função da rapidez do seu falecimento, nove dias após adoecer, e do clima político hostil da época. Pio XII (1939-1958) preferia comer sozinho e equilibradamente. Jamais ofereceu um grande banquete durante seu pontificado, mas revelava um ponto fraco: fettuccine alla papalina, cuja receita nasceu a pedido dele, no seu tempo de cardeal, entre os anos 1937 e 39, no restaurante La Cisterna, no bairro do Trastevere, um dos mais antigos de Roma.

Gregório XVI (1831-1846), um conservador que criticava a introdução do trem, para ele desnecessária, a ponto de proibir a construção de ferrovias e só viajar de carruagem, foi apaixonado pela pesca, gostava de peixe, verdura e carne de vitelo. Nascido na Alemanha, Bento XVI (2005-2013) era fã de sorvetes e dos doces que levam café, como por exemplo o turamisú, que conheceu na Itália, e do apfestrudfel, assim como de todas a sobremesas à base de maçã. No tempo de cardeal, em Roma, quando ia jantar no Ristorante Da Roberto al Passetto di Borgo, no bairro do Prati, mostrava predileção pelo spaghetti alla carbonara — e dê-lhe fanta Laranja ou suco dessa fruta! Jamais bebia vinho, alegando precisar acordar cedo.

A ideia do nosso banquete foi do chef Laurent Suaudeau, um dos melhores presentes que a gastronomia francesa já deu ao Brasil. Pesquisando em livros, ele selecionou as receitas favoritas dos cinco papas. Batizou o elenco de “menu Vaticano” e o preparou na ordem de uma refeição moderna, na escola das Artes Culinárias Laurent, da Rua Groenlândia, bairro do Jardim Europa, em São Paulo, para um grupo privilegiado de comensais. O atual papa Francisco ficou de fora, pois não é exatamente um bom de garfo. Ao contrário. O nome que escolheu para ascender ao trono de São Pedro, inspirado em Francisco de Assis, atesta sua simplicidade. A filosofia de vida do santo da humildade e da pobreza era refrear os prazeres mundanos.

Se bem que o papa Francisco sabe se virar na cozinha. “Aprendeu com a mãe”, contou um amigo dele à jornalista argentina evangelina himitian, autora da biografia A Vida de Francisco (editora Objetiva, São Paulo, 20013), o livro oficial da 38º Jornada Mundial da Juventude, que acontecerá no Rio de Janeiro de 23 a 28 de julho próximo. Na década de 1980, quando reitor do Colégio Máximo e da faculdade de Teologia de São Miguel, em Buenos Aires, o papa Francisco assumia o fogão no dia da folga do cozinheiro e certa vez preparou a comida para 30 ou 40 pessoas.

Pediu que lhe comprassem quatro frangos assados, quatro tabletes de manteiga e quatro latas de creme de leite. Enquanto os ingredientes não chegavam, mandou descascar e cozinhar batatas na água. “Esta é uma receita da minha mãe”, explicou. Untou cada frango com uma metade da manteiga, usou a outra para rechear. Colocou os frangos no forno por dez minutos, cobriu com o creme de leite, esperou um pouco, tirou dali e serviu com as batatas cozidas. O que o frugal São Tomás de Aquino acharia da receita do papa Francisco?