Café com poesia – Mario Quintana

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O poeta era louco por um cafezinho. Também adorava doces, frutas, e tinha um senso de humor muito próprio

Por Walterson Sardenberg Sº

O tempo, como queria Mario Quintana, pode ser apenas um ponto de vista dos relógios. Ainda assim, deve-se admitir: a passagem dos 20 anos da morte do poeta, em maio, rendeu menos homenagens do que o merecido. Afinal, Mario foi tão bom no seu ofício que Carlos Drummond de Andrade confessou, sem rodeios: adoraria ter escrito vários dos seus poemas. E emendou: “Em literatura, a inveja é o mais nobre dos sentimentos”.

Mario, sem acento no nome e sem assento nas academias, decerto não se queixaria da ausência de lembranças. “A poesia é uma espécie de arte de falar sozinho”, dizia. Era reservado, pouco afeito a pompas. Dava de ombros para as glórias dos círculos literários. Preferia as andanças pelas ruas de Porto Alegre e o cotidiano modesto dos quartos de hotel. Neles morou sozinho a maior parte dos seus 88 anos. Não se lamuriava da idade: “Velho é quem tem um ano a mais do que a gente”.

Jamais se casou. “Prefiro ser a esperança de muitas mulheres do que a desilusão de uma só”, brincava, sempre pronto a uma tirada de humor, também presença constante em sua poesia, onde, não raro, o lirismo dá as mãos às blagues. É assim até em “Poeminha do Contra”, seus texto mais conhecido: “Todos que aí estão/ Atravancando o meu caminho, / Eles passarão./ Eu passarinho!”.

Se dispensava os salamaleques, fazia questão de café. Muito café. Eram quatro garrafas térmicas ao dia. As xícaras o ajudavam no hábito de varar as noites em claro, lendo ou burilando os escritos. Sua sobrinha-neta Elena Quintana — a quem considerava seu anjo da guarda nos últimos anos de vida — lembra-se que, mesmo hospitalizado, e sem poder falar, o poeta quis tomar café. Rabiscou o pedido em uma prancheta. Elena respondeu que, deitado, Mario não teria como tomá-lo. O poeta rabiscou de novo: “Com canudo. Arruma um canudo”.

Muito antes disso, Mario escrevera: “O café é tão grave, tão exclusivista, tão definitivo, que não admite acompanhamento sólido. Mas eu o driblo, saboreando, junto com ele, o cheiro das torradas na manteiga que alguém pediu na mesa próxima.” Um paradoxo: Mario só tomava café sem açúcar; logo ele que era doido por doces. Amava, sobretudo, quindins. Mas também gostava de mousse de chocolate e pudim de queijo. Deleitava-se até com banana split, embora, nesse caso, se visse obrigado a entrar em lanchonetes, que abominava. “Naqueles balcões, a gente come de perfil”, protestava.

Nos aniversários, apreciava ganhar de presente bombons recheados com licor de cereja. Jamais flores, “porque não dava para comer”. Só faltou dizer “ora, bolas”, expressão de que usava e abusava.
Aos 16 anos, ao mudar-se de Alegrete, onde nasceu, para Porto Alegre, logo se iniciou na vida boêmia. Ganhava a vida como jornalista e tradutor. Nas horas vagas, bebia muito, embora soubesse a medida-limite: “É quando a mulher do botequeiro começa a ficar parecida com a Ingrid Bergman”. Dizia ter tomado um único porre, mas que durou 25 anos. Naqueles idos, certa manhã, um amigo o flagrou bebendo uns goles na Rua da Praia e indagou, protetor: “Mario! Já bebendo?”. A resposta: “Já, não. Ainda”.

Uma internação, no fim nos anos 1950, livrou-o da bebida. Nunca mais se aproximou do álcool, ainda que este permanecesse assunto de seus textos. Por exemplo: “Quanto mais leve tanto mais sutil/ O prazer que das coisas nos provém./ Escusado é beber todo um barril/ Para saber que gosto o vinho tem”. Ou então: “Quem bebe por desgosto é um cretino: só se deve beber por gosto.” Embora sempre magro, Mario foi bom garfo. Era fã de macarrão na manteiga, arroz à grega, chuleta, filé com fritas, pasteizinhos de camarão e feijoada. Certa vez, quando alguém lhe disse que a vida eterna não existia, fez uma analogia culinária: “Não posso acreditar nisso. Se acreditasse, seria admitir que a vida é como a gente esperando para comer uma gostosa feijoada, preparada lentamente, com toucinho, charque, linguiça… E quando chegasse o meio-dia, na hora de comer, o cozinheiro atirasse a feijoada pela janela…”.

Não pense que só gostava dos pratos populares. Nada disso. Apreciava lagosta. Muito. Tanto, que escreveu: “A lagosta tem a cor, o frescor, o sabor das antigas moringas de barro”. No dia a dia, no entanto, era chegado em canja de galinha e banana à milanesa. Seu ovo frito tinha de ser crocante nas bordas, com bolhinhas nas claras e a gema mole. Chamava de “vestido de noiva”. Um prato que comia sempre, para horror de Elena Quintana, era uma criação própria. Pedia arroz quentinho à cozinha de hotel. Ato contínuo, misturava com sardinha em lata e molho inglês. Estalava os beiços de prazer.

Foi justamente essa receita simples que o chef Marcos Livi tomou por desafio fazer para ilustrar esta reportagem, além do pudim de queijo. Derramado fã do poeta, ele deu o nome de Quintana a seu segundo restaurante em São Paulo — o outro se chama Verissimo, em honra a outro gaúcho, o cronista Luis Fernando. “Mario é o poeta das coisas simples, mas que observa com uma visão surpreendente e requintada”, diz o chef. “É o que, guardadas as devidas proporções, procuro fazer com a culinária sulista no restaurante.”

É preciso lembrar que Mario também amava as frutas. Como amava as sintéticas poesias em prosa — algumas das melhores estão no Caderno H, que começou a escrever como coluna na revista Província de São Pedro, da Livraria Globo, em 1943 e despontam, hoje, como precursoras dos textos econômicos do Twitter. Mario recordava, em especial, aquelas frutas roubadas na infância, que julgava mais saborosas. Em “A tentação e o anagrama”, resumiu: “Quem vê um fruto/ pensa logo em furto”. O abacaxi preferia em compota. A banana, bem madura. O pêssego tinha de ser branco e graúdo. Via neles uma intrínseca sensualidade: “…e essa tentação de roçar na face a pele perfumada do pêssego, como se ele fosse uma pêssega…”.

Uvas também estavam entre as suas favoritas. Claras ou escuras. Uma vez, alguém o viu comendo uvas brancas e disse: “Bom dia, seu Mario. Gosto muito de sua poesia. Mas essas uvas não estão verdes?”. Resposta rápida: “Não, meu filho. A minha cara é assim mesmo.” Ora, bolas!

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