Confesso, e quem me conhece sabe, que dois grandes amores da minha vida são viagens e cerveja. Sabe aquela mola que impulsiona seus planos, sonhos e desejos? Então, há alguns anos a minha é feita, em grande parte, por curiosidade cervejeira e wanderlust (palavra de origem alemã que pode ser traduzida como desejo intrínseco e profundo de viajar). Pensar nas férias e naquele sorridente cronograma de feriados do ano implica a análise das datas dos eventos cervejeiros que acontecem no país, organizar orçamento, controlar a ansiedade e reservar o máximo de dias possíveis para um mochilão – para qualquer destino que tenha, além de atrações históricas, cerveja. Muita cerveja.

Costumo dizer que a cerveja está no DNA da família. Entre as memórias de infância, brilham aquelas que remetem à coleção de latas de cervejas importadas do meu avô materno, além da sua charmosa caneca de cerâmica com tampa, naquele estilo que os sabidos alemães usavam nos Biergartens. A primeira vez que tive o prazer de sentir o aroma do malte durante o cozimento, de beber cerveja direto da fonte ou “direto da teta” (como dizem), foi há alguns anos, em um brewpub instalado em Pinheiros. De lá para cá, coisa de quatro anos, me deslumbrei com o universo de uma das bebidas mais antigas do mundo, fiz alguns cursos e, naturalmente, o momento da escolha dos destinos das férias passou a privilegiar lugares onde a cena cervejeira tenha tradição, esteja em ebulição, ou algo perto disso.

Cervejaria Brasserie Cantillon, em Bruxelas, na Bélgica

Dos tours que tive o privilégio de fazer em algumas cervejarias históricas como Pilsner Urquell (Pilsen, República Tcheca), Brasserie Cantillon (Bruxelas, Bélgica), Heineken (Amsterdã, Holanda) e De Halve Maan (Bruges, Bélgica), me lembro dos aromas, caminhos e pessoas que lá trabalhavam. Impossível esquecer o cheiro peculiar que impregna o ar da Cantillon e do clima fraterno que pairava entre os funcionários daquela cervejaria familiar, em operação desde 1900. As baixas temperaturas, a umidade dos túneis subterrâneos da cervejaria que deu origem a um dos estilos mais populares do mundo, nascido na cidade de Pilsen, me vem à cabeça quando tomo uma cerveja do estilo ou simplesmente revejo as fotos daquela visita. Há algumas semanas tomei um chope da De Halve Maan e logo no primeiro gole fui inundada por um saudosismo da bela vista da cidade de Bruges, que pude contemplar do topo do telhado desta fábrica, também familiar, em atividade desde 1856.

Mas você sabia que nem precisa atravessar o oceano para ter a saborosa experiência de beber cerveja fresca de verdade, direto da fonte? Nos últimos anos, a revolução das artesanais ganhou corpo e fomentou o surgimento do turismo voltado para regiões onde as fábricas estão instaladas. Diversas cervejarias oferecem tours guiados e algumas contam com bar de apoio e aquelas adoráveis lojas de produtos e souvenirs cervejeiros. Aposto que perto de você tem alguma cervejaria que aceita visitas agendadas, com direito à explicação e quiçá degustação. A cerveja é um produto sensível. Variações de temperatura e movimentação excessiva, por vezes, fazem com que a bebida não chegue a sua melhor condição, o que contabiliza mais um motivo para você visitar cervejarias!

Cidade de Bruges, na Bélgica, vista da Cervejaria De Halve Maan

No interior de São Paulo, há o polo cervejeiro em Ribeirão Preto, onde a tradicional Colorado, fundada em 1996, hoje marca do portfólio da Ambev, ganhou a companhia de uma série de cervejarias, entre elas a Invicta e Weird Barrel, que são boas escolhas para os curiosos que quiserem se refrescar com cerveja local. Para um bate e volta, aquela fugidinha para os paulistanos fãs de cerveja, há cidades mais próximas como:

ABC Paulista, Santo André, Cervejaria Premium Paulista, detentora da marca Madalena, a fábrica, instalada próxima à cidade de São Paulo, também recebe o público para visitação com direito a degustação, além de ter ao lado o Pub Madalena, com diversos estilos de cerveja da marca, música ao vivo e comidinhas.

Votorantim, sede da reconhecida e premiada Cervejaria Bamberg, produz desde 2005 apenas estilos de cerveja da escola alemã e de acordo com a Lei da Pureza. É possível fazer um tour guiado, com agendamento, e se deliciar na loja da marca, que vende suas cervejas e outros produtos.

Piracicaba conta com a Cervejaria Dama: fundada em 2010, é possível fazer tour guiado pelo mestre cervejeiro ou sommelier da marca, com direito a degustação (é necessário agendar).

Campos do Jordão, Baden Baden: fundada em 1999, tem visitas com direito a degustação, explicação do processo de produção e é tida como um ponto turístico da cidade.

O mercado cervejeiro no país, mesmo diante do cenário político e econômico complicado, mostra considerável crescimento. Em 2015, o Brasil encerrou o ano com 372 cervejarias artesanais distribuídas pelo país, com crescimento de 17% em relação a 2014. Além disso, nos últimos anos a taxa de crescimento vem acima de 50 novas cervejarias artesanais por ano, o que representa, em média, uma nova cervejaria por semana. Apesar de sua grande área territorial, 91% das microcervejarias do Brasil estão localizadas apenas nas regiões sul e sudeste, concentradas em seis dos 27 estados do país. Ou seja, elegi apenas algumas das cervejarias que estão no estado de São Paulo e que tive a chance de visitar, para mencionar nesta coluna.

Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul, por exemplo, contam com belas opções de roteiros cervejeiros e que já estão na fila para as próximas edições. Fica a dica para quem, assim como eu, gosta de aproveitar eventos cervejeiros fora da cidade e se jogar na rota da cerveja. No dia 22 de julho, por exemplo, acontece o DUM Day VII, festival que reúne cerca de 80 rótulos de cervejas, além de receitas da própria cervejaria DUM, no Museu Oscar Niemayer, em Curitiba – terra que conta com cervejarias como a renomada Bodebrown, a inventiva Morada Etílica.

E aí, qual vai ser seu itinerário cervejeiro para o próximo final de semana?

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