Com um pé na França

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Quinze anos depois de voltar de Paris, onde morou por cinco temporadas, o ex-craque do São Paulo Raí continua ardoroso fã da comida e dos vinhos franceses

Por Walterson Sardenberg Sº
Fotos: Antônio Rodrigues

Raí Souza Vieira de Oliveira entrou em campo para contrariar vários preconceitos contra jogadores de futebol. A começar pela velha história de que — à exceção de Domingos e Ademir da Guia, pai e filho — parente de grande craque não se dá bem no mesmo ofício. Irmão do refinado e genial meia Sócrates — que morreu há um ano e meio — e, atuando na mesma posição, Raí conquistou até mesmo mais títulos do que o mano mais velho. Foi campeão mundial pelo São Paulo e pela Seleção Brasileira.

Filho de um fiscal da Receita Federal, também afrontou a surrada ideia de que jogador brasileiro no exterior quer voltar logo ao país por não se adaptar a outras culturas. Contratado pelo Paris-Saint-Germain em 1993, atuou cinco temporadas na França, onde conquistou cinco títulos e tornou-se ídolo da torcida. Converteu-se em um fã entusiasmado da culinária francesa, dos vinhos de Bordeaux e da Borgonha. Gostou tanto que mantém um apartamento em Paris. Vira e mexe está jantando no restaurante de Joël Robuchon, da capital francesa.

Raí também foi de encontro à velha pecha de que jogador de futebol não tem maiores interesses além da bola. À maneira do irmão, Sócrates, sempre se interessou por política, por exemplo. Nos anos de França, ficou impressionado com as conquistas sociais. “A filha da minha empregada tinha a mesma escola e o mesmo médico da minha filha”, conta, amargurado com os cortes que a Europa, como um todo, vem fazendo em relação a tais benefícios. “Eu sentia que essas conquistas só seriam mantidas com muita vontade política”, avalia, com esperanças de que, passada a crise econômica, a chamada política do bem-estar social possa ser retomada.

Há 14 anos, Raí abriu com o ex-jogador Leonardo — hoje, dirigente do Paris-Saint-Germain — a ONG Gol de Letra, um projeto social que, hoje, atende 1.200 crianças e adolescentes entre sete a 14 anos em São Paulo e no Rio de Janeiro, tomando para si uma iniciativa que caberia ao Estado. São quatro horas diárias de aulas suplementares e apoio ao esporte. “Temos curso de gastronomia também”, conta. Nada menos que seis mil crianças já passaram pela Gol de Letra. “Costumo acompanhar a trajetória dos adolescentes, depois que deixaram de ter aulas. Em geral, estão bem. Profissionalizados.”

Ao contrário de craques de várias gerações, Raí, aos 47 anos, não anda de carrão. Aliás, não tem nem mais carro. Vendeu. Quando há tempo de sobra, costuma ir do apartamento onde mora, em São Paulo, ao escritório, no bairro da Vila Madalena, de bicicleta. Foi nesse escritório, em rua tranquila, que bateu um papo descontraído com a GOSTO. Vai ver, só para contrariar a fama de tímido.

Veio de bicicleta?
Vim no carro do meu sobrinho, emprestado. Mas, nos últimos tempos, ando a pé, de bicicleta, de metrô e de táxi. Tem me feito bem. No metrô, tenho contato com mais pessoas. É ótimo. Andaria mais de bicicleta se São Paulo tivesse uma estrutura de ciclovias. Falta uma política mais arrojada de transporte urbano.

A sua família é grande e de classe média. O que se comia na sua casa em Ribeirão Preto?
Havia uma influência muito grande do Norte e do Nordeste. São gastronomias muito ricas. Minha mãe é paraense. Meu pai, cearense. O prato preferido do meu irmão, Sócrates, era pato ao tucupi. Comíamos com frequência baião de dois, com muita manteiga de garrafa. Meus pais tinham vários amigos do Recife. Quando se juntavam, a comida era galinha à cabidela. Até hoje o meu paladar é influenciado por essa gastronomia do Norte/Nordeste.

Sua primeira mulher, Cristina, teve um restaurante. A segunda, a chef Danielle Dahoui, vários. É uma coincidência?
No primeiro caso foi uma coincidência. No segundo, uma consequência. No primeiro casamento, éramos muito jovens. Eu tinha 18 anos. Ela, 17 e não sabia cozinhar. Acabou pegando gosto pela coisa. Passou a pesquisar, a se interessar. Quando fomos morar na França, já cozinhava muito bem. Fez um curso de gastronomia para aprimorar-se. Não há como morar ao lado de Paris e não se interessar por comida (risos). Depois, de volta ao Brasil, resolveu montar um restaurante. Aliás, já não tem mais. No caso da Danielle Dahoui, minha segunda mulher, meu interesse por gastronomia, por ir a restaurantes novos, levou-me a conhecê-la.

Como foi?
Um casal de amigos franceses me levou ao Ruella Bistrô, no Itaim-Bibi. Gostei muito e, nesta primeira ida, acabei conhecendo rapidamente a Danielle. Voltei várias vezes. A casa é muito agradável e a comida, ótima. Costumava brincar com a Danielle dizendo que me apaixonei primeiro pelo restaurante. Só depois por ela (risos). Os restaurantes da Danielle são muito personalizados. Têm a cara dela, que cuida de tudo, a começar pela decoração. Ela se preocupa com todos os detalhes. Com a iluminação, a música…

Mesmo depois de separado da Danielle, continua indo aos restaurantes dela?
Sim, e bastante. Ela abriu uma casa agora em Pinheiros. Estou sempre por lá. Somos amigos e ainda muito próximos. Temos uma filha, a Noáh. Às vezes dou até uns pitacos no cardápio.

Suas sugestões foram aceitas?
Sim. Pelo menos uma. Em uma das minhas idas à França, conheci o café gourmet. É um cafezinho que vem com três minissobremesas. Achei a ideia interessante. Contei para a Danielle e ela resolveu lançar aqui. Virou o maior sucesso. Pegou mesmo.

Ao parar de jogar, disse em uma entrevista que gostaria de continuar indo pelo menos três vezes ao ano para a França. Está cumprindo a promessa?
Na verdade, ultrapassei esse número. Vou, em média, cinco ou seis vezes por ano. Fico, quase sempre, dez dias. Tenho uma identificação muito grande com a França, com a cultura francesa de maneira geral. Viajo também por motivos profissionais. Fui consultor do Paris-Saint Germain por um ano. Comentei a Copa do Mundo para televisões e jornais franceses. Há, ainda, uma associação de amigos franceses, voluntários, que contribuem para a Fundação Gol de Letra. Eles organizam eventos, procuram parcerias, angariam fundos. Fazem um intercâmbio com o trabalho social que desenvolvo no Brasil. Sempre atuei para marcas francesas. Sou embaixador para a Copa do Mundo e Olimpíadas da rede de hotéis Accord. Farei o mesmo para a Lacoste.

Ainda é muito assediado ao andar pelas ruas de Paris?
Bastante, sabia? Isso até me surpreende. Afinal, saí da França em 1998, lá se vão 15 anos. No Brasil, sou mais popular, mas na França há uma relação de admiração e respeito pelo meu passado no futebol. As pessoas me param na rua e dizem “Monsier Rái, obrigado por tudo que você fez”. Os europeus cultivam os ídolos do passado. Acho isso bonito. Até jovens que nem me viram jogar vêm me cumprimentar. Já entrei na França três vezes sem precisar mostrar o passaporte. Isso nunca ocorreu no Brasil (risos).

As mulheres também o abordam nas ruas de Paris?
Não. São mais os torcedores homens. No Brasil, as mulheres se manifestam muito mais (risos). Na França, são mais recatadas.

Como foi ter sido o primeiro homem a ter saído na capa da revista Elle francesa?
Logo que cheguei à França exploraram bastante essa coisa do estereótipo do latino bem-apessoado. Também fui o primeiro homem na capa do Le Figaro Madame. Claro que gostei.

Que restaurantes frequentava e frequenta na França?
Eu morava fora de Paris. A uns 30 ou 40 minutos de carro. Quer dizer, Paris não era o meu dia a dia. Quer saber de uma coisa? Depois que voltei ao Brasil é que passei a frequentar mais os restaurantes de Paris. Tenho um apartamento lá, perto do Trocadero. Além disso, minha filha Raíssa estuda em Paris. Gosto de descobrir restaurantes menores, uns bistrozinhos. Adoro peixe. Gosto muito de confit de canard. Costumo ir ao restaurante do Joël Robuchon. Vira e mexe voltou lá, apesar do preço, que dói no bolso.

Retrato de perfil do ex-jogador de futebol Raí Souza Vieira de Oliveira, em preto e brancoRetorna dessas viagens sempre com vinhos na mala?
Claro. Eu quase não tomava vinhos antes de ir para a França. Não tinha o costume. Mas o hábito do vinho está tão impregnado por lá que, imagine você, em dias de jogos importantes o então presidente do Paris-Saint-Germain, um homem muito rico, passava pelo vestiário e prometia: “Olha, se vocês ganharem hoje, vou presentear cada um com uma garrafa de Château Petrus”. Quer dizer, eu saí do conhecimento zero em vinhos diretamente para os melhores tintos, dos quais não deveria nem ter chegado perto naquela época (risos). Lembro que dei um Petrus para um vizinho, que o guarda até hoje para alguma ocasião especialíssima.

Eram tantos vinhos que dava até para presentear?
Ganhei muitos, sim. Não só Petrus. Também Chateau Cheval-Blanc, Chateau Margot…

Guardou algum?
Não. Acho que vou ter de tomar o Petrus com aquele vizinho (risos).

Hoje se considera um entendedor de vinhos?
Olha, tenho alguma rodagem. Frequentei até feiras de vinhos na França, levado por companheiros de clube. Um deles é o Daniel Bravo. Bebo com mais frequência os Bordeaux. Aprecio muito o Château Margot. Mas prefiro os Borgonha. São menos previsíveis. Nas feiras, fui aprendendo a conhecer a relação custo-benefício e comprei alguns segundos vinhos de grandes chateaux. Mas ainda preciso de uma consultoria (risos).

É verdade que os clubes franceses oferecem vinho para os jogadores nas refeições da concentração?
Depende dos treinadores, mas existe o costume, sim. Cheguei a beber vinho no almoço do dia de uma partida. Ainda bem que os jogos são, em sua maioria, à noite. No Paris-Saint-Germain, o próprio responsável pelo departamento médico era um grande apreciador de vinhos. Ele dizia: “Para conhecer vinhos só há uma maneira, Raí: beber sempre”. Imagine você que quem falava isso era o médico do clube (risos).

E a comida no clube, na França? Muito diferente da do São Paulo?
Não dá para dizer que é uma grande cozinha, mas a comida é boa e muito saudável. Aprendi a comer muito mais salada, hábito que ainda mantenho. No clube, faziam um ótimo molho de mostarda. Também incluí entre os meus hábitos. O cozinheiro do Paris-Saint-Germain preparava muito sole, que é o nosso linguado. Vinha servido geralmente à dorê nas vésperas de jogo, acompanhado por massa. Eu não sabia tirar a espinha. Quem me ensinou foi o brasileiro Valdo, meu colega de clube e que estava na França havia mais tempo. Era uma comida bem mais leve do que a servida nos clubes brasileiros. E perdi o costume de comer arroz e feijão. Hoje é uma vez por semana e olhe lá, embora ainda goste muito.

A que restaurantes vai em São Paulo?
Vou muito aos franceses. O Le Vin, na Alameda Tietê, é um deles. Gosto de penne com presunto e melão do Spot. Além do Ruella, também frequento o Chef Vivi, a Adega Santiago e o Mocotó. O chef do Mocotó, o Rodrigo Oliveira, é um cara muito legal, a comida é ótima e o ambiente, muito agradável. E não é caro. Tem um sommelier especializado em cachaças, que dá dicas preciosas. Tenho ido também ao Maní. Cada vez me parece ainda melhor.

É verdade que quem lhe recomendou o Maní foi o Alain Ducasse?
Na realidade, eu já havia ido uma vez. Mas realmente o Ducasse me indicou o Maní quando participamos juntos como palestrantes de um evento patrocinado pela MEDEF, uma espécie de FIESP, e cujo tema era “Audácia”. Sentamos juntos nos bastidores e trocamos algumas ideias. Ele me falou: “O próximo restaurante a fazer sucesso internacional fica em São Paulo. É o Maní, da Helena Rizzo e do marido dela, catalão”. Isso foi há uns sete anos.

Por que, saindo da França, foi morar um ano em Londres?
Queria melhorar o meu inglês. Mas, principalmente, tinha muita curiosidade. O fato de Londres e Paris ficarem tão perto e serem tão radicalmente diferentes, até com a histórica rixa entre as duas cidades, sempre me atraiu. Decidi ir morar do outro lado da Mancha. Londres está apenas a 2h20 de Paris.

Passou um ano comendo pior?
Sim (risos)! Muito pior! Bem, a gente brinca e generaliza, mas há bons restaurantes na Inglaterra. Pena que, em geral, com comida de outros países…

É verdade que chegou a discutir com o seu sócio na Fundação Gol de Letra, o ex-jogador Leonardo, hoje dirigente do Paris Saint-Germain, por causa de comida?
É verdade. Chegamos até a ter uma discussão mais quente. O motivo é que o Leonardo não abre mão de comida italiana, que considera a melhor do mundo, mesmo morando em Paris. Jogamos juntos, na França, em 1996 e 1997. Depois, ele foi para a Itália. Passou um longo tempo lá e, por isso mesmo, conhece a fundo a gastronomia do país. Também gosto da cozinha italiana, claro, como não? Mas prefiro a francesa. Só em um aspecto o Leonardo dá o braço a torcer. Admite que o vinho francês é muito melhor (risos).

Sabe cozinhar?
Não dá para afirmar que sei. Só cozinho esporadicamente e sempre seguindo receitas à risca. Outro dia fiz camarões ao champanhe para a minha mãe. Ela gostou. Mas mãe é mãe. Há muito tempo quero aprender a cozinhar de verdade. Está sempre entre as minhas resoluções de Ano Novo. Cheguei até a iniciar um curso de gastronomia em Londres. Acabei largando porque me tornei, na época, consultor do Paris-Saint-Germain e tive de viajar. Na verdade, sou muito mal-acostumado. Meu pai era nordestino e machista. Acredite: não deixava os homens entrarem na cozinha (risos). Depois, casei cedo, minha mulher aprendeu a cozinhar muito bem e dizia que eu, na cozinha, só atrapalhava. Acabei me acomodando. Mas ainda vou mudar isso.

Gosta de comida de boteco?
Adoro os petiscos. Bolinho de carne seca, qualquer coisa que tiver queijo… O Astor tem coisas muito gostosas. Vou bastante à Mercearia São Pedro comer aqueles pastéis que saem quentinhos no fim de tarde. Acho que o sucesso desse bar é merecido. Virou um fenômeno paulistano. Também adoro o bolinho de arroz do Canto Madalena.

Ex-jogadores costumam contar que sonham que estão fazendo um gol. Isso ocorre mesmo?
Sim, mas, no meu caso, é cada vez mais raro. Não sou saudosista.

O Marco Antônio Boiadeiro, seu companheiro de meio de campo nos juvenis do Botafogo, está voltando a jogar profissionalmente no Tanabi, aos 46 anos. Que tal?
Mentira! Jura mesmo (risos)? O Boiadeiro é uma figura! Além de um cara muito legal e um jogador talentoso, sempre foi fisicamente muito forte.

Por que o Brasil já não exporta tantos jogadores para os times europeus de ponta?
Porque está produzindo menos jogadores de talento. Estamos em uma entressafra. Temos grandes jogadores, mas não em quantidade. Já não há três ou quatro craques para cada posição. Mas ainda bem que existem um ou dois muito bons.

Neymar precisa ir para à Europa?
Estaria melhor preparado se estivesse na Europa. Se jogasse no Barcelona, por exemplo, teria de atuar bem com muita regularidade. Caso contrário, iria para o banco de reservas. Os grandes times da Europa impedem a acomodação. Além disso, a disciplina tática e o grau de competividade são muito maiores.

A preparação da Seleção Brasileira está atrasada em relação à Copa?
Muito atrasada. O Brasil se acostumou em juntar bons jogadores e já chegar como favorito. Já não é assim. A Espanha e a Alemanha têm times que começaram a ser construídos há seis ou oito anos. Não existe mais espaço para amadorismo.

Quem viu as manifestações nos estádios homenageando Sócrates, quando ele morreu, ficou emocionado. Imagine a família…
Foi ao mesmo tempo muito emocionante e também um conforto. Por mais que imaginássemos, não tínhamos a dimensão do quanto ele era querido. Recebo dezenas de propostas para documentários e livros sobre o Sócrates. A família ainda não está preparada para isso. Com o tempo, vamos nos envolver em alguns desses projetos. Uma biografia ou um documentário não pode ser feito no calor da emoção. É preciso deixar que o tempo passe para que sejamos mais fiéis aos fatos.