Comidas de santo

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Por J. A. Dias Lopes
Foto Reinaldo Mandacaru

Graças aos santos católicos festejados no mês — Antônio, João Batista, Pedro e Paulo —, come-se muito em junho no Brasil. Nos pátios de escolas e áreas de lazer dos condomínios das grandes cidades, barracas de comestíveis, jogos e outras diversões dos arraiais atraem o povo nacional. No interior, principalmente do Sudeste e do Nordeste, as comemorações vão para as ruas, especialmente no dia 24, dedicado a João Batista, o santo homenageado com uma fogueira. Embora tenha sido em vida um pregador moralista e ascético, que se alimentava frugalmente no deserto, ele é recordado pirotecnicamente, e a data serve de pretexto para comilanças, bebidas, danças, cantos, foguetes e adivinhações.

Conta, a tradição, ter sido, com uma enorme fogueira, que a mãe de João Batista anunciou seu filho à prima Maria, mãe de Jesus — daí as chamas da sua festa. Aliás, é o único santo comemorado no dia do seu nascimento, pois os demais o são na data da morte. A Bíblia o associa apenas uma vez às labaredas. No Evangelho de São Lucas (3:17), este avisa que Jesus trará ao mundo o Espírito Santo, para salvar a humanidade, e, o fogo, para juízo e condenação. Fora isso, não há nenhuma relação de João com o fogo.

O cardápio em volta da fogueira varia conforme a região, microrregião ou cidade brasileira onde a celebração se mostra mais forte. Em Guaratinguetá, Lorena e Roseira, no Vale do Paraíba, em São Paulo; Mossoró e Assu, no Rio Grande do Norte; em Campina Grande, na Paraíba; e Caruaru, em Pernambuco, as Festas Juninas, como são chamadas há séculos, são famosas.

No Vale do Paraíba, por exemplo, bebe-se quentão de pinga, canelinha e gengibrada; os doces são de laranja azeda, abóbora em pedaços, batata doce, cidra, abóbora, mamão ralado ou em fita, cocada branca ou queimada, doce de leite, arroz-doce, pé-de-moleque e canjica. Há outros tantos à base de milho, que vão, da pamonha e do curau, aos bolos de fubá ou milho verde — um dos quais tem o nome de São João. E dê-lhe paçoca de amendoim e rapadura! Há, ainda, o tradicionalíssimo furrundum ou furrundu, doce típico da culinária caipira do Vale do Paraíba, feito de cidra ou de mamão verde ralados com rapadura derretida ou açúcar mascavo, servido com queijo caseiro, cujo consumo, no passado, alcançava seu ápice no dia 29 de junho, festa de Pedro e Paulo.

Já Antônio, celebrado no dia 13, tem o nome ligado ao pão. Nessa data — e em todas as terças-feiras do ano — os fiéis vão a uma igreja dedicada a ele. Ali, assistem à bênção dos pães.

Tenham trazido o pão ou o recebido no templo, o importante é levá-lo para casa. A tradição popular se deve a um milagre do santo. Alguns pobres bateram famintos na porta do convento onde estava Antônio. Imploravam por pão. O cozinheiro disse que não poderia atender ao pedido. Faltaria pão para a refeição dos frades. Antônio ouviu o diálogo e disse ao cozinheiro: “Dê pão aos pobres que Deus proverá”. Os pedintes mataram a fome e foram embora. Quando os frades entraram no refeitório, havia uma cesta repleta de pães.
Até meados do século passado, no dia 13 de junho, milhares de brasileiros faziam pão para oferecer aos pobres. A magia desse alimento recua ao início do cristianismo. Símbolo da vida, participa da Eucaristia — sacramento em que se transforma simbolicamente, durante a missa, no corpo de Jesus.

Representa a unidade dos cristãos e a grandeza de sua fé. As Festas Juninas, que, por sinal, herdamos de Portugal, podem ter perdido boa parte de seu sentido religioso, tornando-se lúdico-gastronômicas. Mas continuam repletas de significados ancestrais e, principalmente, de comida popular.

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