Dengo e alto-astral – Adriana Didier

0
1088

Assim é a cozinha inventiva e repleta de energia que a chef pernambucana Adriana Didier desenvolve em paraísos como a Aldeia Beijupirá, em Alagoas
Por Alice Granato

om sotaque deliciosamente nordestino e um sorriso aberto no rosto, a chef pernambucana Adriana Didier, define-se como “inventadeira”. Isso realmente ela é – e das boas! Muito criativa, quando entra na cozinha ela nos leva a embarcar em uma deliciosa viagem pelos sabores de sua terra. Seu primeiro restaurante, o Beijupirá, em Porto de Galinhas, está completando 21 anos, e Adriana vem expandindo seu território para outros paraísos, como Olinda, Carneiros, Fernando de Noronha e Alagoas, onde GOSTO foi visitá-la. Ali está a Pousada Aldeia Beijupirá, em Porto de Pedras, litoral norte de Alagoas, que construiu com o marido, o empresário português Joaquim Santos. Abraçada por coqueirais e de frente para um mar azul translúcido, a Aldeia preserva o clima de praia virgem.

Adriana desperta logo cedo e no café da manhã já começam a aparecer surpresas que ali são chamadas de “dengos”. Todos os dias surgem à mesa gostosuras como o bolo de amendoim, o bolinho de estudante, a tapioca com coco ralado (versão imbatível!). A chef acompanha a movimentação dos hóspedes e sua energia contagiante é um dos principais ingredientes para a receita dar certo. “Valorizo muito o fator humano”, diz. “Vejo a cozinha com emoção. Estamos servindo, dividindo carinhos e alegrias.” Seu discurso parece ecoar por todos os lados, pois o serviço da pousada segue os mesmos princípios e é particularmente atencioso.

A relação de Adriana com a cozinha tem muito a ver com a sua formação autodidata, sua paixão pelas artes plásticas e com a conexão com o sabor. Habilidosa, boa desenhista e entusiasta da cultura local, a chef consegue trazer para a cozinha uma boa dose dessa “mixira” (que em tupi significa mistura) de tudo o que faz. Os peixes, como o beijupirá, que batizou seus empreendimentos, as frutas, as farinhas, tudo vira ouro nas mãos dessa “inventadeira”.

De frente para o marzão das Alagoas, pode-se apreciar as iguarias locais criadas por Adriana, como o torresminho de agulha, confeccionado com pedaços de agulhinha crocante ou o camarão empanado com coco ao molho de capim santo, servido bem crocante. Outra invenção com ar regional é a qualheta (alusão à provoleta) feita com queijo de cabra. O ensopadinho de sururu servido fumegante e acompanhado com farinha é algo que não sai da memória de quem já provou: de-li-ci-o-so, como se diz ali, exaltando cada sílaba.

A sequência de receitas que ela desenvolveu com o beijupirá honra o nome dos restaurantes e hotéis da chef. No menu, há cinco versões diferentes com o peixe: o beijucastanha, o beijucanela, o beijupitanga, o beijumanga (que publicamos aqui) e as beijuquecas. Os pratos são generosos e o peixe chega à mesa em uma posta bem servida e suculenta. Lagosta e camarão também aparecem fartamente no cardápio e, como não poderia faltar, surgem ainda algumas receitas com sotaque do sertão. Entre elas, o maracatu de charque, com carne seca desfiada na manteiga com cebola, farofa, feijão verde e arroz.

Tudo isso servido num clima despojado e cheio de charme. As mesas são enfeitadas com hibiscos, assim como os jarros d’água. Os talheres chegam envoltos em peixinhos de tecido, bordados artesanalmente pela mãe de Adriana, dona Lígia. Se durante o dia o charme do café da manhã são os miquinhos que vêm à mesa atrás de nacos de frutas, à noite o restaurante ganha ar romântico com luz de velas.

Em breve o lugar terá uma tasquinha, espaço onde o marido Joaquim vai mostrar suas habilidades culinárias e trazer para o Nordeste brasileiro a tradição da cozinha portuguesa. Para finalizar, uma sobremesa que traduz bem o clima da Aldeia é a Aussuba (que em tupi quer dizer amar): crepe recheada de sorvete de coco, mel de engenho e coberta por uma farofa crocante de caju, perfumada com cachaça. “Cozinha pra mim é conhecimento, cultura e afeto”, acrescenta Adriana.

SEM COMENTÁRIOS