Desculpe o transtorno

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Em tempos de protestos, o colunista se alvoroça e depois faz o mea culpa

Por Antonio Carlos Nascimento
Ilustração: Jaca

Sempre leio o caderno Paladar, do jornal O Estado de S. Paulo. Mas naquele 28 de março algo ocorreu e excepcionalmente não procurei pelas colunas interessantíssimas de J. A. Dias Lopes, Luiz Horta e Luiz Américo. Este último, junto a Arnaldo Lorençato, recebe minha atenção todas as semanas na instrução para o up to date da gastronomia paulistana. Seus comentários são muito bons.

Algumas semanas depois, meu querido amigo Paulo Pires, fanático torcedor (e dirigente dos bons tempos) da Portuguesa Santista, reclamou da crítica de Luiz Américo feita ao restaurante paulistano Santo Colomba, de meu irmão de alma, o chef José Alencar. Pires não gostou da maneira como o crítico se referiu à casa. Tomei suas dores. Mesmo sem ter lido a tal crítica.

Em clima de revolta popular e manifestações, eu, conhecido “esquerda festiva” na mocidade, faltei a todas convocações pela cidade afora. Mas o bom filho não foge à luta. Decidi me apropriar do espaço que me é dado nesta revista para contestar também. Ao menos tive essa intenção.

Há pouco, em Nova York, fui conhecer o Torrisi, aconselhado por Braulio Pasmanik, esmerado gourmet e colunista de GOSTO. Não foi fácil a reserva, mas lá estávamos no pequeno restaurante de 18 ou 20 lugares, com menu curto anotado com giz em uma lousa. Foi o melhor jantar da minha viagem ou, ao menos, o mais interessante. Toda a sequência de pratos me remetia ao restaurante em que estive nas montanhas de Avegno, no entorno de Gênova, há alguns anos. Intrigava-me, porém, que havia algo de mais familiar. Acabei descobrindo. A cozinha me lembrava a do mineiro Alencar no Santo Colomba. Aquela falsa simplicidade escondia esmero e precisão. Tinha poesia.

Brinco às vezes, dizendo que, se Alencar receber tijolos, areia e cimento, e lhe permitirem temperos e fogão, ele preparará algo muito bom. Com isso, explico que andava engasgado com o texto “falando mal do Santo Colomba”. Até que fui ao site de O Estado de S. Paulo e pude, enfim, ler a tal crítica, que como sempre estava precisa, sem rodeios e muitíssimo elogiosa à cozinha do chef. Pontuou com elegância alguns defeitos e vãos da casa. Reparos que, se utilizados como conselhos, farão o ótimo chef de cozinha ser reverenciado como merece.

De meu equívoco restou a lição que, se contestar é preciso, deve-se, antes de tudo, conhecer de fato e a fundo o motivo dessa contestação. Questione sempre.

Como havia combinado com a redação desta revista, eu deveria escrever sobre os prós e contras do café para esta coluna. A ilustração já até estava pronta. Tomemos então este café com Alencar, Sérgio Arno, Luciano Boseggia, Erick Jacquin, Rodrigo Oliveira, Valderi Gomes e tantos outros que ajudam a fazer da gastronomia paulistana uma referência internacional. Para que a redação de GOSTO me perdoe, empunharei um cartaz que vi na televisão, quando eu deveria estar lá: “Desculpe o transtorno, estamos mudando o país”.