Disque M para comer

0
522
O diretor de cinema Alfred Hitchcock terminando uma refeição

O glutão Alfred Hitchcock é personagem principal de uma cinebiografia em que é interpretado por Anthony Hopkins

Por Walterson Sardenberg Sº

Era famoso, milionário, espirituoso e genial. Mesmo assim, levou uma vida discreta. Nada de suspense ou de grandes reviravoltas — ao contrário de quase todos os seus 53 longas-metragens. Alfred Hitchcock tinha 27 anos e pesava 110 quilos quando se casou, virgem, com a montadora de cinema Alma Reville, mãe de sua única filha, Patricia. Viveram juntos ao longo de 53 anos, até a morte do cineasta, em 1980. Foi um cotidiano monogâmico e tão metódico quanto um escritório de contabilidade. À primeira vista, eis aí uma vida insossa. Sem sal para ser levada ao forno. Sem emoção para servir de base a um filme bem condimentado. Mas, será isso mesmo? Em março de 2013 estreou Hitchcock, rodado pelo britânico Sacha Gervasi. O longa-metragem investiga os bastidores das filmagens do clássico Psicose (Phsyco), em 1959. Vivido pelo ator galês Anthony Hopkins, o pacato Hitchcock se revela na tela um homem arrogante e libidinoso, resoluto em escolher na privacidade do escritório, virando os olhinhos, as protagonistas de seus filmes. Além disso, desponta como um oportunista escondido à sombra da mulher, que lhe reescreve os roteiros. Para completar essa intriga internacional, o rotundo diretor é mostrado como um glutão desmesurado, incapaz de conter-se diante da bebida e da comida.

Arrogante? Talvez o adjetivo mais correto seja perfeccionista. Mulherengo? Hitchcock era obsessivo, mas platônico; um voyeur que usava a câmera como se fosse um buraco de fechadura. Quanto à colaboração de Alma, embora importante, não deve ser superestimada. Seu marido foi um artista meticuloso como raríssimos. Um cineasta que sabia demais: Hitchcock só entrava no set depois de pensar e repensar cada pormenor. No entanto, se a gula fosse um crime, não escaparia da acusação e da sentença. Foi um réu confesso.

“Comida é o único substituto para o sexo”, explicava, com laivos freudianos. Quando falava de cinema, costumava fazer alusões à culinária. Uma de suas máximas: “O homem não necessita apenas de um assassinato. Também precisa de uma sólida refeição”. Outra: “Certos filmes são pedaços da vida. Os meus são pedaços de bolo”. Ou, ainda: “Ir ao cinema é como ir ao restaurante: é necessário que se satisfaça tão bem ao corpo quanto ao espírito”. E, bem mais irônico: “A televisão é como uma torradeira elétrica. Você aperta o botão e salta sempre a mesma coisa”.

Nesse último caso, uma ingratidão de queixo duplo. A série de TV Alfred Hitchcock Presents, iniciada em 1955, em que, a rigor, apenas aprovava roteiros e lia os textos sardônicos, escritos por James B. Allardice, no início e fim de cada episódio, não só lhe rendeu fortunas. Também o ajudou a tornar-se o único diretor de cinema da época tão famoso quanto um astro de Hollywood. Sua robusta silhueta em terno preto ficou tão conhecida quanto os decotes de Marilyn Monroe. Embora tenha chegado a somar 136 quilos concentrados em 1,65 m, Hitchcock foi, à sua maneira, um modelo fotográfico, clicado de todos os ângulos — e sem o risco da anorexia.

O cineasta nasceu em Londres, em uma sexta-feira, 13 de agosto. A data aziaga poderia ser mais uma tirada de seu monumental acervo de autopromoção. Não era. Ainda meninote, temia o escuro e as sombras espectrais. Todas as vezes que a mãe e o pai — um atacadista de quitandas — o deixavam sozinho em casa, aplacava o medo correndo para a geladeira e devorando a provisão de carne assada. “Só isso me acalmava”, confessou. Mais tarde, enquanto se tornava um mestre na arte de administrar o próprio medo — e o dos espectadores —, aumentaria o repertório gastronômico. Comia de tudo e mais um pouco (e mais um muito), à exceção de peixes, frutos do mar e ovos. Dizia: “O sangue é alegre, vermelho. Mas a gema do ovo é amarela, revoltante”. Em Ladrão de Casaca (1955), a atriz Jessie Royce Landis, mãe de Grace Kelly na trama, apaga um cigarro em um ovo estrelado. Pura vingança.

Hitchcock alimentou os espectadores com a hábil manipulação de medos, fobias, obsessões e paixões em sua forma mais genuína. A si próprio, preferia servir-se com filés de um palmo de comprimento por quatro dedos de espessura. Traçava três por refeição. Em muitos jantares, uma galinha assada inteira era só a entrada. Individual. O prato principal consistia em um pernil, também integral — se os vegetarianos permitem o uso da palavra.

Em Alfred Hitchcock e seus Filmes (Ediouro, 1982), o crítico Bodo Frundt lembra que a única parte de fato luxuosa da casa do diretor no bairro de Bel-Air, em Los Angeles, era a cozinha. Nela, foi instalado um freezer repleto de cômodos, onde o cineasta estocava comida como se o planeta estivesse à beira da Terceira Guerra Mundial. Carne de carneiro mandava vir de Londres, em caixas portentosas. O foie gras importava do Maxim´s, de Paris, em quantidades suficientes para uma festa do Oscar — troféu que, por sinal, jamais recebeu. Este exagero, vez por outra, obrigava-o a dietas. Enveredou no assunto com graça em Um Barco e Nove Destinos (1943). O enredo, autoexplicativo no título em português, tratava de um bote à deriva com nove personagens, o que impedia Hitchcock de mostrar o corpinho em uma cena rápida, como fazia em todos os filmes. Resolveu o problema com uma tomada de um jornal largado a bordo, onde posa como garoto propaganda para as fotos de “antes” e “depois” de um fictício produto para emagrecimento, o Reduco.

Quando estava de dieta, ficava com o humor de uma canção de Vicente Celestino. Isso não o impediu de incluir cenas com conotações culinárias em cada filme. A mais macabra talvez seja a do jantar servido sobre um baú onde jaz o corpo de um pobre rico rapaz, em Festim Diabólico (1948), cabendo a Frenesi (1972) algumas das mais engraçadas. Neste thriller, o chefe de polícia sofre duplamente com a inépcia de seus comandados em encontrar um serial killer, e com a da própria mulher, inglesa, em preparar exóticos pratos franceses. A sequência mais violenta, por sua vez, talvez seja aquela de Cortina Rasgada (1966) em que o bandido encarnado por Wolfgang Kieling é atacado com um caldeirão de sopa e uma faca de cozinha, antes de levado ao forno, onde recebe o golpe derradeiro.

Em Ladrão de Casaca, Grace Kelly leva Cary Grant para um piquenique na Côte d’Azur e, diante de uma galinha assada, pergunta, insinuante: “Prefere peito ou coxa?”. O mesmo Cary Grant encontra o tão procurado urânio da trama de Interlúdio (1946) em uma garrafa de champagne de uma adega refinada. Hitchcock, pessoalmente, preferia brandy. Em Agente Secreto (1936), o esconderijo dos espiões é uma fábrica de chocolates. Já em O Marido Era o Culpado (1936), Oscar Homolka delicia-se com uma ratatouille quando é assassinado a faca por Sylvia Sidney.

Sir Alfred Hitchcock amava tanto o cinema quanto os restaurantes. O Oak Room, do Hotel Plaza de Nova York, é cenário de uma cena marcante de Intriga Internacional (1959), assim como acontece com o Chez Pierre, de Paris, em Topázio (1969). Mas a sequência que representa melhor a dualidade do diretor, ao mesmo tempo um homem de um racionalismo atroz e de uma compulsão incontrolável até a última garfada, jamais foi filmada. Mas sonhada. Nesse sonho, Hitchcock aguardava um táxi amarelo em Los Angeles, quando se dá conta de que todos os automóveis são de 1916. Diante da constatação, descobre que é inútil esperar um carro assim, pois ainda não existiam naquele ano. Então saiu a pé em busca do restaurante e dos steaks monumentais.

COMPARTILHAR
Artigo anteriorComida de cinema
Próximo artigoRatatouille

SEM COMENTÁRIOS