Doce saudade

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Quem provou os figos Ramy que a CICA produziu até o final da década de 80 nunca mais esqueceu

Por J. A. Dias Lopes
Foto: Antônio Rodrigues

Muitos brasileiros ficaram inconformados quando a CICA — Companhia Industrial de Conservas alimentícias, com sede em Jundiaí, são Paulo — interrompeu a produção dos Figos Ramy em 1986. O doce tinha virado paixão nacional. Na sua elaboração, transformava-se em passas carnudas, embebidas numa calda tão grossa que parecia mel, a primeira fruta citada na Bíblia, quando Adão e Eva perceberam estar nus e cobriram suas vergonhas com as folhas da figueira (ou seriam as da bananeira, como sustentou, em 2007, o americano Dan Koeppel, no livro Banana: The Fate of the Fruit that Changed the World?). O fato de as pessoas apreciarem os Figos Ramy, porém, não se devia à nenhuma motivação religiosa. O doce era divino, mas pela sua natureza. Vinha em latas redondas, com o peso de 600 gramas.

A CICA acondicionava na embalagem as passas lado a lado, apertadas e úmidas. Eram escuras, porém brilhantes e tenras. A produção se restringia aos meses de janeiro, fevereiro e março, que correspondem à safra do figo. Chegaram a ser produzidas 300 mil latas por ano. as pessoas comiam as passas puras, usando garfo e colher (para não desperdiçar a calda), ou com a mão, segurando os figos pelo cabinho. Harmonizavam-nas com creme de leite, requeijão cremoso, suspiro ou sorvete de creme. Na década de 1960, o pintor carioca Di Cavalcanti, quando vinha a são Paulo e se hospedava no hotel Ca’d’Oro da rua basílio da gama, servia-os com fatias de laranja aos amigos e interessados nos seus quadros. “Quebram a doçura dos Figos Ramy e assim se consegue comer mais”, explicava.

Os Figos Ramy começaram a ser produzidos em 1945 e deixaram o mercado um ano antes de a empresa, que hoje pertence à unilever, ser vendida ao grupo Ferruzzi. “Era muito caro produzi-los”, explica Salvador Messina, último vice-presidente da antiga CICA. “Havia bastante descarte”. Ele conta que os figos, do tipo roxo, procediam inicialmente de Jundiaí e depois também de Valinhos, perto dali. Deviam estar maduros, porém firmes, ou seja, inchados. Muito delicados, machucavam-se facilmente, complicando o transporte e a preservação. “O custo era alto, o preço de uma lata ficava elevado e não valeu a pena continuar”, conclui Messina.

A CICA registrou o nome comercial do doce com “y”. Tirou-o de uma antiga vila, hoje bairro populoso de Jundiaí, terra natal da empresa. Agora é grafado com “i”. Vila Rami se localiza entre os bairros de Vila Progresso e Vianelo. Foi batizada assim porque ali se cultivava a planta herbácea homônima, de grande interesse comercial no passado. O rami se destina à forragem, pois seu teor de proteínas é 20% superior ao existente na alfafa; serve como matéria-prima na produção de papel moeda, graças à resistência apresentada; e ao uso na indústria têxtil. Com as suas fibras se faz um tecido confundido com o linho, apesar de mais áspero. Nativo da Ásia Oriental, foi introduzido em São Paulo no ano de 1939. Existia no Vila Rami uma fazenda onde a planta tinha sido cultivada. Reunia uma cerâmica e muitas figueiras. Pertencia à família Cardia. Um dos seus empregados, Carlo, colhia os figos, secava-os no forno da cerâmica, embalava-os em papel celofane e vendia na cidade. Um dos fundadores da CICA, o siciliano Antonino Messina, pai de Salvador Messina, encantou-se com o doce e decidiu industrializá-lo. Mas, para produzi-lo em maior quantidade, precisou superar dificuldades técnicas. Para isso, contratou Carlo e um confeiteiro italiano chamado Magnani. O trio desenvolveu um método no qual as frutas cozinhavam até alcançar 50 brix (escala numérica para medir a quantidade de açúcar) e terminavam na estufa.

Atualmente, encontramos nos supermercados do país um punhado de marcas industriais de figos rami. Algumas são boas. Em outras, a fruta se parece mais compota do que passa. Há também os figos rami domésticos. Muitas pessoas os preparam em casa, na panela convencional ou de pressão, com excelentes resultados. É o caso da leitora Carmem Manzano, de São Paulo, cuja receita ilustra este texto. As frutas são afundadas em açúcar cristal, café solúvel e cachaça com os cabinhos para o alto. Em cima vão folhas de louro. Ficam cerca de duas horas cozinhando no fogo baixo, em uma panela grande. É fazer para crer. Não é igual, porém lembra bastante o doce da CICA.

Clique aqui para ver a receita dos Figos Ramy.

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