Dupla escocesa em NY

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O ator Ray Milland com um Rusty Nail na mão direita, em cena de um filme do cineasta Billy Wilder

Este coquetel, de whisky com Drambuie, é um veludo, embora se chame Prego Enferrujado

Por Walterson Sardenberg Sº

“Há á duas semanas que não falo com minha mulher”, confessou. O amigo revoltouse: “Que crueldade!”. Ele retomou: “Absolutamente, eu só não quis interrompê-la”. Este diálogo, criado pelo cineasta Billy Wilder, jamais entrou em algum dos 27 filmes que dirigiu nos Estados Unidos. Não coube. O próprio Billy escrevia seus roteiros, sempre em parceria. Para isso, recorria às pastas em que ia guardando suas piadas.

Marlene Dietrich, velha amiga, o considerava o homem mais engraçado que conheceu. Provavelmente, a atriz não foi vítima de uma das devastadoras tiradas do cineasta de origem austríaca. Billy não poupou sequer os conterrâneos: “Eles conseguiram a proeza de tornar Beethoven um austríaco, e Hitler um alemão”. Sobre um agente de Hollywood, chamado Sfifty Lazar, detonou: “É tão pequeno que tentou enforcar-se em um bonsai”.

Famoso não só pelas tiradas, mas, sobretudo, pelas comédias — por exemplo: Quanto Mais Quente, Melhor (1959) e Se Meu Apartamento Falasse (1960), —, Billy rodou longa-metragens de todos os gêneros. Menos westerns. Tinha medo de cavalos. Um de seus filmes mais sensíveis foi dirigido em 1945: o drama Farrapo Humano (The Lost Weekend), a história de um alcoólatra, interpretado por Ray Milland, felizmente com happy end.

Não que Billy tivesse problemas com a bebida — bem, talvez com o preço, quando ainda era um jornalista pobretão em Viena. O cineasta aparece bebericando quase o tempo todo no documentário a seu respeito, Retrato de um Homem 60% Perfeito, de Annie Tresgot e Michel Ciment — tem no YouTube. Todos os dias, ao término do trabalho, tomava e seu Dry Martini. Isso não o impediu de viver — e muito bem — até os 96 anos.

Em Farrapo Humano, Ray Milland bebe de tudo. Muitas vezes no P.J. Clarkes Bar de Nova York — o original, na rua 55, esquina com Terceira Avenida. Um dos drinques favoritos do personagem é o Rusty Nail, ou Prego Enferrujado, uma mescla de scotch whisky com o licor Drambuie. Não se sabe muito bem a razão do nome. A tese mais verossímil dá conta da cor do coquetel, semelhante a de um prego em princípio de oxidação. Sabe-se, isso sim, que se trata de um drinque nova-iorquino e aveludado, tornado conhecido no bar 21 Club a partir de 1933, quando a Prohibition — leia-se Lei Seca — foi extinta. Antes disso, era consumida aos borbotões nos speak easies, os botequins clandestinos.

No caso do Rusty Nail, o fato de ter surgido em Nova York chega a ser irônico. Afinal, tanto o whisky quanto o Drambuie são escoceses. Legítimos. O Drambuie, por sinal, é feito a partir do whisky. A origem do licor remonta ao século 18. Em 1745, o príncipe inglês Charles Edward Stewart tentou recuperar o trono liderando uma revolta, a Jacobite. Frustrado na tentativa, isolou-se na ilha de Skye, na companhia de um fiel seguidor, o capitão John McKibbon, a quem, por gratidão, passou a receita da bebida. Só em 1909 os herdeiros do militar industrializaram o licor, em Edimburgo. A recepção foi tão calorosa que o Drambuie ingressou, oficialmente, no Palácio de Buckingham dois anos depois e, meia década mais tarde, na Câmara dos Lordes.

O mesmo não se pode dizer da primeira acolhida a Farrapo Humano, que, depois, tornaria-se um filme de sucesso incontestável. Após assistir ao longa metragem na primeira preview, um expectador se disse arrependido. “De beber?”, perguntou-lhe um funcionário da Paramount, a produtora do longa-metragem. “Não. De ter vindo ao cinema”, debochou. Parece uma tirada de Billy Wilder.

Confira aqui a receita completa do Rusty Nail.

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