Enganar ou não, eis a questão

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Adoçantes dietéticos tapeiam o cérebro, mas tudo leva a crer que instiguem o consumo de carboidratos

Por Antonio Carlos Nascimento
Ilustração: Jaca

Criados com a intenção de fornecer sabor semelhante ao açúcar, sem ser metabolizado como tal, os adoçantes dietéticos tiveram como propósito primordial auxiliar pessoas que tenham algum comprometimento na produção ou ação da insulina, principal hormônio a dar destino ao açúcar ingerido. Para os portadores de diabetes tipo 1, os quais não apresentam qualquer produção residual de insulina, a falsa informação que o cérebro recebe da ingestão de açúcar é aceita por pesquisadores como menos provável a transtornos.

Mas no caso daqueles pacientes diabéticos tipo 2, que têm pouca ou muita capacidade pancreática à fabricação de insulina, muito já se questiona o uso destas substâncias. Assim como o consumo destes produtos por pessoas que intencionam a diminuição do total calórico ingerido, buscando emagrecimento.

A sacarina foi o primeiro adoçante dietético a entrar no mercado. Isso ocorreu em 1900, tendo sido obtido a partir de um subproduto do petróleo. Já o aspartame liderou a preferência dos usuários durante a década de 1990 e sofre com indagações de possível relação de seu consumo com uma síndrome neurológica semelhante à esclerose múltipla. Além de que é obtido da fenilalanina e ácido aspártico, devendo pois não ser utilizado por portadores de fenilcetonúria, uma enfermidade genética.

Quanto ao ciclamato, é contra-indicado em pacientes renais e hipertensos, já que em sua fórmula os níveis de sódios são elevados. A estévia tem a virtude de ser o único adoçante natural, agregando ainda as qualidades de não ser metabolizado e resistir a altas temperaturas, mas apresenta um ligeiro amargor que não a coloca entre os preferidos do grande público.

A sucralose, obtido a partir da modificação do açúcar, de sabor extremamente agradável, vem se estabelecendo como o favorito nesse nicho de consumidores. A questão é que, se nossas papilas percebem o gosto doce na ingestão do alimento ou bebida, o cérebro é informado da entrada de açúcar no sistema e daí decorre uma série de situações que podem culminar com um direcionamento inconsciente ao consumo de carboidratos.

O processamento ocorre em nível hipotalâmico, região cerebral responsável por nuances que nos instigam a fome, saciedade, sinalização para o preparo do uso e estocagem de alimentos. Por intermédio de um nervo chamado vago, o hipotálamo informa ao pâncreas a chegada de açúcar em futuro próximo. Assim, este órgão se prepara para isso, ativando sua maquinaria a uma produção inicial. O açúcar não chega. Na verdade, não chegará, pois a ingestão foi de adoçante. Sugere-se que isso dê início a uma força tarefa dentro do cérebro que obrigue a alguma ingestão posterior de carboidrato que compense a “mentira” gerada por tal conduta.

Talvez isso justifique alguns fatos. Sabe-se que um terço da ingestão calórica nos Estados Unidos é proveniente do consumo de refrigerantes adoçados com açúcar, porém, em 2012, a Coca Cola anunciou que 42 % de seus refrigerantes já eram produtos dietéticos. Causa estranheza que não tenha havido qualquer mudança na curva ascendente da obesidade nos EUA.