Fidalgo revolucionário – José Avillez

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Com recato e elegância, o jovem chef está virando a culinária portuguesa de pernas para o ar

Por Walterson Sardenberg
Foto Nuno Correia

Um vidro chega à mesa, com o cuidado de uma relíquia. Debaixo dele, há algas e gelo seco. Sobre a superfície, frutos do mar cozidos separadamente por poucos segundos, para não abdicar do frescor. A salicórnia está ali para dar um toque crunch, cabendo à emulsão de maçã verde o papel de acrescentar acidez. Há, ainda, água de coco texturizada, tal como na culinária molecular. Com esta entrada, o chef português José Avillez abriu o menu-degustação de seu principal restaurante em Lisboa, o Belcanto, no bairro do Chiado. Para que não restasse dúvida quanto à ousadia da proposta, deu à refeição o nome de “menu desassossego”.

Sossego, de fato, não é palavra que caiba na biografia de Avillez. Embora tenha apenas 33 anos, vem comandando uma bem-sucedida revolução na culinária lusitana. Sua cozinha, como faz crer o primeiro parágrafo, pode ser decididamente contemporânea, embora nem por isso reservada a alguns eleitos. Além do Belcanto, o jovem chef está à frente de outro restaurante lisboeta — aliás, bem próximo do outro endereço —, o Cantinho do Avillez, mais simples e acessível a orçamentos mais modestos, ainda que também criativo. Seus domínios não se encerram nessas iniciativas. Popularizado por programas de TV, o rapaz magro e sempre com a barba por fazer lançou uma empresa de consultoria, dois livros de sucesso, dois vinhos com sua assinatura e, ainda, a marca JA, com produtos frescos ou congelados, à venda nos supermercados lusitanos e com uma aceitação digna de ser comemorada com algum lendário Porto Vintage.

“Estou sempre com mil ideias e mil projetos”, diz, irrequieto. Claro que já lhe passou pela cabeça abrir um restaurante no Brasil. “É algo que me agrada bastante”, admite. “Vamos ver”, reticencia. Avillez é um chef que não visualiza qualquer contradição em dar a mesma consideração às panelas e aos negócios. Difícil é encontrar tempo para tanto. “Não é mesmo nada fácil”, reconhece. “São muitas as exigências, as preocupações, o trabalho. Mas é a minha paixão. Acho que não saberia viver de outra forma. Às vezes, penso que tenho de desacelerar, mas não consigo.”

A dupla vocação de Avillez, para a cozinha e os negócios, vem de infância. Aos 5 anos, curioso, o miúdo já gostava de espreitar as panelas. Aos 10, o empreendedor precoce montou uma miniempresa com a irmã, para vender bolos aos vizinhos. “Foi o negócio mais rentável que já tive, pois era a minha mãe que pagava os ingredientes”, brinca. Na adolescência, chegou a pensar em cursar arquitetura, embora o pai quisesse vê-lo advogado. Acabou optando por formar-se em Comunicação Empresarial. No trabalho de conclusão de curso, uniu seus dois maiores interesses, ao preparar um texto com uma análise histórica da gastronomia portuguesa.

Uma vez formado, decidiu-se pela cozinha e estagiou no restaurante Fortaleza do Guincho, de Cascais, sob os auspícios do chef francês Antoine Westermann. A partir daí estudou na escola de Alain Ducasse, esteve na cozinha de Eric Frechon e de Claude Troisgois, todos na França, e foi trabalhar no El Bulli, de Ferran Adriá, na Espanha, onde fez de tudo. Embora não fosse um novato, começou lavando louças. Deu duro, até ser convidado por Oriol Castro — o braço direito de Adrià — a participar da equipe de criação. Um momento para guardar na memória. Esta vivência na moderna culinária catalã foi decisiva na sua formação como chef, abrindo-lhe o caminho para a utilização de técnicas de vanguarda.

“Fiquei melhor cozinheiro e menos preconceituoso, culinariamente falando”, costuma enaltecer. Quando, em 2004, abriu seu primeiro restaurante, o 100 Maneiras, foi observado com reservas em Portugal, país ainda conservador quando o assunto é culinária. Houve clara resistência. Polido, Avillez contemporiza essa reação. Ele mede bem as palavras: “O que aconteceu no início da minha carreira é que as pessoas ficavam um pouco desconfiadas por eu ser muito novo. Não sabiam que eu iria estar à altura das expectativas. No entanto, a maioria, a partir do momento em que experimentou, ficou conquistada”.

Palavras de um homem bem educado, na singular sintaxe lisboeta, sempre diferente da nossa, malgrado os tratados de reforma ortográfica. A bem da verdade, ouviram-se críticas renitentes à sua ênfase na adoção da culinária molecular. Sobretudo quando, em 2008, Avillez foi convidado a comandar a cozinha do mais tradicional restaurante português ainda em atividade, o Tavares Rico, em Lisboa. Inaugurada em 1725, a casa é uma glória, com seus grandiosos espelhos e imensos lustres de cristal, que refletiram o genial escritor Eça de Queirós e seus personagens. Nas mesas de outros restaurantes tradicionais, como o Solmar e o Martinho das Arcadas, comentou-se com repúdio — e, cá entre nós, alguma inveja — o fato de irromper a tradição com a modernidade.

Esses detratores, no entanto, tiveram de engolir a seco: sob a égide de Avillez, o Tavares recebeu sua primeira estrela Michelin. Avillez poderia muito bem utilizar este trunfo contra as vozes dissonantes. Não seria de seu feitio elegante. Ele prefere ser chamado de um inovador da cozinha lusitana, jamais de um revolucionário. “A inovação, quando bem aplicada, permite-nos aperfeiçoar a cozinha portuguesa e obter resultados extraordinários”, comenta. “Quando digo bem aplicada, é no sentido de melhorar e não de transformar.”

Como se percebe, é impossível tirar do sempre cortês Avillez alguma declaração que resvale na polêmica. Embora sua cozinha, atenta aos pormenores e revolucionária na utilização de ingredientes, aponte para o futuro — como o caro leitor poderá notar nas duas receitas aqui publicadas, especialmente preparadas para GOSTO —, o próprio chef mantém a fidalguia e discrição dos tempos d’antanho. Mas não nega, em absoluto, a ambição de conquistar outra estrela Michelin, desta vez em seu próprio restaurante, o Belcanto. “Seria uma enorme emoção”, reconhece. “No entanto, nosso objetivo principal é trabalhar 16 horas por dia, seis dias por semana, para oferecer o melhor a quem entra na casa.”

O crítico Frank Bruni, do jornal New York Times, esteve há alguns meses no Belcanto. Maravilhou-se. Avillez recorda: “Foi muito gratificante ler no texto dele que a refeição no Belcanto foi, até aquela data, a melhor do ano.” Resta esperar que os franceses do Michelin façam coro.

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