Fina iguaria

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Os blinis Demidof, que homenageiam um industrial, mecenas, conde, gastrônomo e boa-vida russo do século 19, são a melhor companhia para o verdadeiro caviar

Por J. A. Dias Lopes
Foto: Luiz Henrique Mendes

Bem que o sambista e pagodeiro carioca Zeca Pagodinho tentou difundir o caviar entre os brasileiros. Logo ele, um apreciador de petiscos como torresmo, pastel de botequim, bolinho de bacalhau e caldinho de feijão! Mas foi uma contribuição divertida, motivada pelo fato de o verdadeiro caviar — as ovas do esturjão do Mar Cáspio — ser importado da Rússia e do Irã. Daí continuarem caríssimas e restritas aos consumidores abonados. Lembra do samba “Caviar”, cantado por Zeca Pagodinho? Começa assim: “Você sabe o que é caviar? / Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar / Mas você sabe o que é caviar? / Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar”. Logo adiante, completa: “Mesmo assim não reclamo da vida / Apesar de sofrida, consigo levar / Um dia eu acerto numa loteria / E dessa iguaria até posso provar”.

Come-se o caviar de diversas formas: puro e às colheradas, à maneira dos pantagruélicos; sobre torradas, com ou sem limão, levando ou não ovo picado ou cebola; completando hors d’oeuvres; e, sobretudo, no alto de blinis, pequenos crepes salgados de massa levedada, que misturam as farinhas de trigo comum e sarraceno, mas às vezes utilizando apenas uma delas. A enciclopédia francesa Larousse Gastronomique aconselha chegarem abertos à mesa, com o formato de discos, tendo em cima uma camada de creme de leite azedo ou manteiga e, a seguir, levando uma porção de caviar, que na falta pode ser ova de salmão ou lâminas de peixe defumado.

Há vários tipos de blinis: os que incorporam à massa clássica ovos duros e picados; os feitos com creme de arroz e farinha de trigo; os de sêmola (em vez de trigo sarraceno) e água; os de cenoura. A melhor receita, porém, é a clássica, enriquecida na hora do consumo pelo creme de leite azedo e legítimo caviar. Foi o primeiro dos pratos preparados pela cozinheira do fi lme dinamarquês A Festa de Babette, de 1987, vivida na tela pela atriz francesa Stéphane Audran. Chamase blinis Demidof.

O nome homenageia o industrial, mecenas, conde, gastrônomo boa-vida russo Anatole Demidof (1813-1870), que o grão-duque da Toscana nomeou príncipe de San Donato, para se casar na Itália, em 1840, com a princesa Mathilde-Letizia Wilhelmine Bonaparte (1820-1904), sobrinha de Napoleão I. A união terminou em divórcio sete anos depois, arruinada por brigas violentas e infidelidades mútuas. Demidof continuou a ter vida licenciosa e a jantar em restaurantes de luxo como La Maison Dorée, de Paris. Mathilde se dedicou ao seu salão intelectual na capital francesa. Acabou amiga e personagem de Marcel Proust no romance Em busca do tempo perdido, publicado entre 1913 e 1927.

O blini se originou na Europa do Leste e foi introduzido na Europa Ocidental pelos cozinheiros que, depois de trabalharem para a nobreza czarista, voltavam a Paris com as novidades assimiladas no exterior; ou então pelos aristocratas russos que, nos pródigos tempos do Império Russo, não saíam da capital francesa, onde gastavam rios de dinheiro comendo, bebendo e se divertindo na noite. As ovas do esturjão do Mar Cáspio se tornaram iguaria obrigatória nos restaurantes de Paris após a revolução bolchevista de 1917, quando legiões de príncipes e condes russos se instalaram ali e passaram a solicitar regularmente a iguaria (como diz Zeca Pagodinho), inclusive para continuar a vida de luxo e ostentação vivida na corte do deposto czar Nicolau II (1868-1918).

Os blinis Demidof estão em boa companhia. Outras preparações da cozinha francesa clássica levam esse sobrenome: um consommé de aves domésticas guarnecido de cenouras; e quenelles de ervilha (bolinhos de massa leve em fornato oval e alongado) feito com recheio de frango e temperado com as finas ervas; cristas de galo branqueadas (mergulhadas primeiro em água quente e depois em fria), acompanhadas de purê de foie gras; e aí por diante. Será que Zeca Pagodinho conhece os blinis Demidof?

Confira a receita de blinis Demidof.