Franceses para refeições

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Os vinhos Côtes du Rhône, mais genéricos, são acessíveis, de gosto confiável e vão bem com os mais variados pratos. Testamos 18 rótulos dos mais expressivos no nosso mercado
Por Guilherme Rodrigues
Fotos António Rodrigues

Poucos vinhos são tão emblemáticos da noção de “vinho francês”, pelo grande público, quanto os Côtes du Rhône. Através dos tempos, sempre foram vistos — e ainda são — como tintos para acompanhar a refeição, sempre muito versáteis, acessíveis ao bolso e de gosto previsível, confiável. Outros dois ícones desse padrão de vinho francês são o Beaujolais e o Bordeaux (comum, ou até Bordeaux Superior). Os Côtes du Rhône unem uma certa maciez e voluptuosidade do Beaujolais, com a acidez dos Bordeaux, além de terem profundidade. Trazem ainda um matiz de calor, com a distinta maturidade da fruta.

O vale do Rhône é das mais extensas (em comprimento) regiões francesas. Começa logo ao sul da grande cidade de Lyon, na fronteira com o fim do Beaujolais. Segue em torno do vale do Rio Rhône (em português, Ródano) e alguns de seus afluentes até quase o Mediterrâneo. Ao norte ficam as nobilíssimas sub-regiões do Hermitage e da Côte Rôtie. No extremo sul, junto a Avignon, o célebre Châteauneuf-du-Pape.
Há muitas outras apelações dentro do Rhône. Mas aqui estamos falando da mais genérica e popular. As uvas provêm de vinhedos ao Norte e ao Sul, indistintamente. A grande maioria dos Côtes du Rhône é elaborada com uvas do Rhône meridional, das paragens circunvizinhas ao Châteauneuf-du-Pape. Daí que a Grenache é a uva dominante na maior parte das vezes, seguida pela Syrah e temperada com a multiplicidade de castas regionais, até mesmo com alguma fração de castas brancas misturada aos tintos.

No passado, antes dos métodos modernos de controle de temperatura e higiene das adegas terem evoluído e se difundido, o calor da região, se por um lado dava frutado copioso e maduro, com bom grau alcoólico, por outro cobrava o preço nas adegas menos ciosas com a brettanomyces e outros defeitos. Isso tornava muitos dos vinhos acéticos, desequilibrados, com acidez destemperada e os tradicionais aromas de suor de cavalo, couro e estrebaria bem acentuados. Felizmente, é passado. Os vinhos tornaram-se limpos e livraram-se desses excessos rústicos, como bem demonstrou a prova de GOSTO — nenhuma das amostras tinha tais defeitos.

Os bons Côtes du Rhône mostram o frutado bem maduro, em geral a ameixas e cerejas, cheio, com temperos apimentados (pimenta-branca) e um suave balsâmico e especiarias. Transmitem uma sensação quente, de calor, envolvente, quase espirituosa. Contudo, a boa acidez lhes dá profundidade, nervos, frescor e movimento, salvando-os de serem gordurosos ou chatos. Poucos tintos em todo mundo são tão versáteis com relação à comida. Caem perfeitamente bem com saladas, legumes, todo tipo de carnes e preparados, queijos, pães, massas, arroz e risotos, e mesmo alguns frutos do mar.
Testamos 18 rótulos dos mais expressivos da AOC Côtes du Rhône presentes no mercado brasileiro, todos acima dos R$ 35. Saíram-se muito bem, sobretudo tendo em causa serem a entrada de gama, os vinhos mais acessíveis da grande região do Rhône. Mostraram, com as nuances de cada produtor, corte, safra e terroir, as belas características desse tipo de vinho de pasto por excelência. Apenas um deles estava fora de padrão e, portanto, deixamos de comentá-lo.

A prova transcorreu às cegas, no restaurante North Grill do Shopping Frei Caneca, em São Paulo (R. Frei Caneca, 569, 3º piso, tel.: (11) 3472-2038), em copos de degustação. Além deste redator, dela participaram os competentes provadores de GOSTO: José Luiz Pagliari, José Maria Santana e José Ruy Sampaio. Esteve presente o diretor de redação de GOSTO, jornalista J.A. Dias Lopes. O serviço perfeito foi realizado pelo competente sommelier Rochael da Silva Passos. Após a prova, o assador Uíliam Porto Rocha brindou a todos com suculentos e perfumados assados da grelha do North Grill.