Gênio Popular – Pinxinguinha

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Há 40 anos morria Pixinguinha, um dos maiores músicos da nossa história. Levou suas últimas duas décadas na flauta, no restaurante Gouveia
Por Luiz Maciel 

Ele chegava como se fosse um cliente comum, às vezes ainda pela manhã, noutras já no meio da tarde, e se acomodava na mesa preferida, ao lado de uma parede com blocos de vidro, num cantinho mais reservado do restaurante Gouveia, no centro do Rio de Janeio, que até hoje é um endereço popular, sem qualquer sofisticação. Quase sempre comparecia de terno e gravata, apesar do forte calor carioca. Podia chegar sozinho, mas não demoraria a ficar rodeado de amigos, entre os muitos que arrebanhou em uma carreira sem paralelo na música brasileira — os companheiros mais frequentes eram os músicos Donga e João da Baiana.

Nem precisava fazer o primeiro pedido. Os garçons logo traziam seu uísque, que nos bons tempos ele gostava de tomar puro, mas passou a misturar com água mineral à medida que a saúde foi dando sinais de fragilidade. Puxava conversa com quem estivesse por perto, ouvia e contava histórias ponteadas por boas risadas, e de vez em quando pedia um papel em branco para anotar uma ideia de melodia.

Algumas dessas partituras ainda decoram as paredes do singelo restaurante instalado em uma sobreloja da Avenida Rio Branco, que hoje resiste servindo bandejão no almoço, mas conserva o subtítulo “Escritório do Pixinguinha”. Era assim que o autor de “Carinhoso”, “Lamento”, “Rosa”, “Um a Zero” e tantos outros choros, maxixes, sambas e valsas geniais costumava passar as tardes nas duas décadas anteriores à sua morte, em 17 de fevereiro de 1973, a dois meses de completar 76 anos.

“Além de compositor brilhante, um dos maiores que o Brasil já produziu, Pixinguinha era uma figura humana extraordinária, que nunca fez um inimigo na vida. Tive o privilégio de me reunir com ele várias vezes no Gouveia e até de visitá-lo em sua casa no bairro de Olaria”, conta o pesquisador musical Ricardo Cravo Albin sobre o compositor que há exatos 40 anos saiu de cena para virar uma das mais cultuadas lendas da MPB. “Seu petisco predileto para acompanhar o uísque eram cubinhos de queijo”, lembra Albin, “mas também mandava vir um filé no palito ou uma calabresa acebolada para enganar a fome. Não pedia nada mais substancial, porque sabia que a Beti, mulher dele, fazia questão de esperá-lo para jantar. Pixinguinha era um bom garfo, comia de tudo, mas adorava sobretudo carne assada com molho ferrugem. Teve até o apelido de Carne Assada na juventude”.

O codinome, conforme o próprio Pixinguinha revelou em depoimento ao Museu da Imagem e do Som (MIS) em 1966, foi a ele atribuído em um dia de festa na casa de seus pais. “Todos se reuniam na mesa de baixo, larga e grande, abarrotada daquelas comidas, frios, carne assada etc. (…) Fui devagarinho e tirei aqueles panos de cima da comida e apanhei um pedaço de carne assada para provar. Meu irmão chegou naquele instante e me surpreendeu: ‘Sai, Carne Assada! Sai, Carne Assada!’ Fiquei com esse apelido durante muito tempo, mas depois sumiu”, relatou Pixinguinha, que também era fã da mãe-benta, do bolo de milho e de outros quitutes preparados com desvelo por Dona Raimunda, sua mãe, e depois reproduzidos minuciosamente por Beti, sua companheira por mais de 50 anos. Já o apelido que o deixaria famoso teve origem mais complexa e nebulosa — da qual uma das versões também tem a ver com seu notável apreço pela comida.

Na mesma entrevista ao MIS, o compositor contou que sua avó africana o chamava de Pizinguim, nome que depois se misturou com Bexiguinha (por ele ter contraído varíola) e acabou evoluindo para o definitivo Pixinguinha. O cantor e radialista Almirante descobriu que Pizinguim significa “menino bom” num dialeto africano, e sugeriu que esta deveria ser a origem do nome. Já o compositor Nei Lopes encontrou a palavra “psi-di” numa língua de Moçambique, com o significado de “comilão”, e defende essa versão. Como a avó africana de Pixinguinha, falecida há muito tempo, nunca foi consultada sobre a razão de chamar o neto de Pizinguim, as duas interpretações permanecem válidas — até porque se encaixam perfeitamente no perfil desse mestre da MPB, tão conhecido pela bondade quanto pelo apetite.

Nascido em 23 de abril de 1897 numa família de músicos, Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha, aprendeu a tocar flauta com o pai e já se apresentava nos cabarés da Lapa aos 14 anos, levado pelo irmão mais velho, Otávio Vianna, o China. Naquela mesma época, ainda usando calças curtas, substituiu numa emergência o flautista da orquestra que se apresentava no Cine Rio Branco — vivíamos o tempo do cinema mudo — e acabou tomando o lugar do titular quando este tentou voltar, por pressão dos demais músicos, embasbacados com os improvisos daquele garoto atrevido. “Eu não obedecia à partitura porque era do choro e tinha um bom ouvido. Então, fazia umas bocaduras, quer dizer, executava o que vinha na minha inspiração. E o maestro Sacramento gostou”, revelou Pixinguinha, na gravação histórica ao MIS.

Sua evolução musical foi impressionante. Em 1913, aos 16 anos, formou o trio Caxangá, ao lado dos violonistas Donga e João Pernambuco. No ano seguinte, editou pela primeira vez uma composição de sua autoria, “Dominante” — o crédito foi dado pela Casa Editora Carlos Wehrs a “Pizindim”. Em 1917, aos 20 anos, compôs o imortal “Carinhoso”, que só dez anos depois receberia a letra de João de Barro.

Nesse mesmo ano, gravou um disco com o choro “Sofres Porque Queres” e a valsa “Rosa”, que também virariam clássicos. Em 1918, a convite do dono do elegante Cine Palais, articulou a criação do conjunto Oito Batutas, que depois ganharia os palcos de teatros e cabarés do Brasil inteiro, arrebanhando uma legião de admiradores. Um deles, o milionário Arnaldo Guinle, financiou uma temporada de seis meses do conjunto na boate Sherazade, em Paris, da qual Pixinguinha voltou um músico ainda mais completo e inspirado, bebendo das melhores fontes do jazz. Os arranjos que fazia para o seu conjunto e outras orquestras eram revolucionários, comparados ao quadradismo do que vigorava então. “Pixinguinha foi o grande criador do arranjo musical brasileiro”, assevera o crítico Sérgio Cabral, autor do livro Pixinguinha, Vida e Obra, lançado em 1977.

Por volta de 1942, quando percebeu que seus movimentos na flauta estavam deixando de ser impecáveis, Pixinguinha adotou o saxofone — e o fez com a mesma naturalidade com que certa vez, ao voltar para casa, converteu em novos amigos os três assaltantes que o abordaram. Depois de receber de volta a carteira e um envergonhado pedido de desculpas dos meliantes, tão logo o reconheceram, Pixinguinha retribuiu a “gentileza” com um convite para que todos fosse tomar uma saideira em sua casa. Dona Beti acordou para esquentar comida e a conversa avançou pela madrugada. De manhãzinha, quando iam partindo, Pixinguinha se lembrou que a noitada não havia rendido dinheiro algum aos assaltantes e ofereceu: “Não querem uns trocados para o ônibus?”. Parece lorota, mas isso é puro Pixinguinha. Aquele que era chamado por Vinicius de Moraes de “ser humano perfeito” e a quem Paulinho da Viola atribui o poder da cura pela música.

Em 1972, poucos depois de Beti ter sido hospitalizada por problemas circulatórios, Pixinguinha sofreu um infarto e foi internado no mesmo hospital, alguns andares abaixo. Elegante e generoso até o último dos seus dias, escondeu da mulher o seu estado de saúde igualmente preocupante, e continuou a visitá-la na companhia do filho Alfredinho da mesma forma como fazia antes. Tirava o pijama, colocava um terno e subia com um buquê de flores para ver Beti. Depois, descia para o seu quarto e continuava o próprio tratamento. Beti morreu em junho daquele ano, sem saber do infarto do marido. Pixinguinha se foi sete meses depois, abatido por novo infarto, quando se preparava para batizar mais um filho de amigo na igreja Nossa Senhora da Paz, em Ipanema. Faltavam duas semanas para o Carnaval, que naquele ano não foi tão alegre quanto os outros.