Hotéis para gourmets

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A rede Mandarin capricha como poucas em seus restaurantes, de Londres a Singapura
Por Braulio Pasmanik

Há redes de hotéis famosas não só pela qualidade da hospedagem. A marca Ritz, por exemplo. O primeiro hotel com este nome, o de Paris, deu origem ao adjetivo ritzy — que pode ser traduzido por elegantíssimo. O de Londres, por sua vez, ficou conhecido pelo mais famoso chá das cinco do planeta, enquanto o de Nova York por ter inspirado a canção “Puttin’ on the Ritz”, de Irving Berlin. A rede Mandarin pode não ter a mesma tradição. Mas também está ficando célebre por um motivo que pouco tem a ver com a hospedagem: seus restaurantes.

Pude comprovar este fato em minha viagem mais recente. A começar por Londres, a primeira parada. O Mandarin Oriental Hyde Park não apenas tem uma localização e tanto — em frente ao parque do mesmo nome e a duas quadras da loja de departamentos Harrods. Lá estão dois dos mais disputados restaurantes da cidade.

O Dinner, de Heston Blumenthal, é uma das provas concretas da transformação de Londres em um dos melhores destinos da alta gastronomia. Enquanto a maioria dos restaurantes novos propõe degustações com miniporções de inventos cada vez mais sem nexo, Blumenthal — que já teve sua fase de comida com acompanhamento sonoro de um Ipod — elabora um cardápio conciso, saboroso e unindo ao mesmo tempo criatividade e tradição. Seu menu Meat Fruit, inspirado nas refeições inglesas de séculos passados, é sensacional. Destaques para o patê de fígado com tangerina (um primor de sabor e design), para a sopa de cordeiro com vegetais e timo e para o pombo assado. Em uma vitrine, abacaxis suculentos, girando em volta de uma grelha indicam uma sobremesa imperdível: tipsy cake. Trata-se de um brioche com calda de sauternes cognac, manteiga e açúcar (uma inovação do butter scotch), servido com uma fatia de abacaxi grelhado. Não foi à toa que o Dinner galgou o sétimo posto na lista dos melgores restaurantes do planeta da revista The Restaurant. No mesmo endereço está o Bar Boulud do estrelado chef Daniel Boulud, com opções excelentes de charcuterie, frutos do mar e pratos representativos de qualquer bom bistrô de Paris.

Meu destino a seguir foi Hong Kong. Fica lá o primeiro hotel da cadeia: o Mandarin Oriental da Connaught Road. É um monumento ao estilo de vida da cidade. O hotel apresenta detalhes únicos: uma barbearia como nunca vi igual, uma loja de bolos artísticos, suítes com uma lista interminável de “amenities“ e, é claro, bares e restaurantes de primeiríssima. Em geral, um hotel de classe costuma ter um grande restaurante e outros mais casuais. Pois pasmem: este tem três restaurantes agraciados com estrelas Michelin. São eles o Pierre, do renomado chef francês Pierre Gaignare, o Man Wah, de sofisticada cozinha chinesa e o Mandarin Grill, que aposta na cozinha moderna. Além disso, vale mencionar um clássico inglês, o The Chinnery, com o ambiente de um clube londrino. Se for ao Man Wah, não deixe de provar a seleção de Dim Sum e o delicioso porco assado. No Pierre, experimente o cordeiro e no Mandarin Grill, a maravilhosa lagosta.

Saindo pelo primeiro andar do hotel e acessando as infinitas galerias aéreas de Hong Kong, chega-se ao outro hotel da rede, o Landmark. É voltado para a clientela de executivos, mas tem o restaurante Amber que, sob a batuta de um chef artista, o holandês Richard Ekkebus, foi eleito o melhor restaurante de Hong Kong e o 36º do mundo, segundo a lista deste ano da revista inglesa The Restaurant.

O Amber além da cozinha excepcional, surpreende pelos detalhes na apresentação da comida. Só para contar uma: o carpaccio de lagosta que fica embaixo de um prato furado. Por cima, um tomate recheado que, ao ser cortado, explode em um molho agridoce que escorre para o prato inferior. Prometi citar só um prato, mas não dá para deixar de mencionar o ouriço com caviar Beluga e a salada de beterrabas.

Em Bangkok, na Tailândia, minha terceira parada no roteiro, o Mandarin é considerado o melhor hotel da cidade. Fica à beira do Rio Chao Phraya, responsável pela dinâmica da metrópole, com seus taxis boats caóticos tentando fugir dos engarrafamentos nas ruas que são ainda mais caóticas. Entre os agrados que o hotel se esmera em fazer, um me chamou muita atenção: todos os dias chega ao quarto um prato com uma fruta exótica e um folheto explicando sua origem.

No Normandie, o restaurante gourmet do Mandarin de Bangkok, experimente a refrescante gelatina feita de bisque de lagosta com camarão e espuma de couve-flor. Na sala Rim Naam, o restaurante Thai, pode-se saborear um duplo banquete: comidas típicas e dançarinas. O show é surpreendente.
Minha última etapa da viagem foi Singapura. Fiquei tão impressionado ao chegar que virei para minha mulher e falei: “Esta cidade é o que todas as outras gostariam de ser!”. Para quem vive em uma metrópole como São Paulo, não existe maior contraste. Não há congestionamentos, não há mendigos, não há um papel ou ponta de cigarro na calçada. As pessoas são educadas e simpáticas. E, melhor: come-se tão bem quanto em São Paulo.

O Mandarin fica na parte nova de Singapura, em frente à Marina Bay, com uma resplandecente vista do hotel Sands e sua piscina em forma de navio, unindo o topo de três prédios. Além da celebrada cadeia americana Morton’s Steakhouse e de um maravilhoso restaurante japonês, o Wasabi Bistrô, o hotel oferece um dos melhores restaurantes italianos de Singapura. Foi no mínimo inesquecível fechar minha viagem ao Oriente jantando no Dolce Vita, à beira da piscina e saboreando um carpaccio de vieiras enormes, “adornado ”por uma generosa porção de tartufo bianco di Alba.