Il mangiatore di fagioli – Marcello Mastroianni

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Por J.A. Dias Lopes

O ator italiano Marcello Mastroianni (1924-1996), que em 2014 completaria 90 anos de idade, ficou mais conhecido como mulherengo incorrigível. Mas também era bom de garfo, tanto no cinema como na vida real. A comida foi tema central de um de seus filmes inesquecíveis: La Grande Bouffe, comédia de humor negro ítalo-francesa, de 1973, dirigida por Marco Ferreri. No Brasil, a fita recebeu o título de “A Comilança”.

Bouffer é gíria francesa, designa comer em excesso. Quatro amigos se reúnem em uma velha casa do interior com o propósito de comer até morrer. Os personagens conservam o nome da vida real. O piloto Marcello (ele próprio), da companhia aérea Alitalia, o juiz de direito Philippe (Phillipe Noiret), o diretor de TV Michel (Michel Piccoli) e o cozinheiro e dono de restaurante Ugo (Ugo Tognazzi) acabam com suas vidas durante uma orgia gastronômica-sexual. Para isso, armazenam uma grande quantidade de ingredientes e contratam três prostitutas. Em uma cena, Marcello e Hugo apostam para ver quem come ostras mais rápido. A imprensa especializada viu nessa trama uma crítica às futilidades da sociedade de consumo.

Sophia Loren, parceira de Mastroianni em vários filmes, e todos os que o conheceram pessoalmente, lembram do prazer que lhe dava a boa comida. Preferia as receitas genuínas italianas, é claro. Seus pratos favoritos levavam feijão ou massa. “Se vocês têm dificuldades de chegar perto do ator, porque foge ou está excessivamente ocupado, convidem-no para uma refeição que tenha fagioli con le cotiche”, escreveu Sophia Loren no livro In Cucina con Amore, publicado em 1971, em conselho às fãs de Mastroianni. “É um prato que age sobre ele como flauta sobre a serpente.”

Na edição brasileira, lançada em 1971 pela Edições Bloch, do Rio de Janeiro, o nome do prato foi traduzido errado. Fagioli se tornou corretamente feijões. Mas cotiche, ou seja, a pele do presunto cru, virou rabo de porco. Um equívoco. Cotiche é igrediente valorizado no Lácio, a região na qual se encontra Roma — Mastroianni nasceu em Fontana Liri, a menos de 100 quilômetros da capital italiana. Comilão assumido, ele dizia que aprendeu a gostar de feijão na infância, com a família. Não por acaso, tinha admiração especial pelo quadro renascentista Il Mangiatore di fagioli (O Comedor de feijões) (1584), de Annibale Carracci, do qual possuía uma cópia em casa.

Quando ia ao restaurante Da Mario, em Roma, um dos seus favoritos, situado na Via Della Vite, 55, especializado em cozinha da Toscana, comia fagioli al fiasco. São feijões colocados dentro de uma garrafa, com água e temperos, cozidos lentamente em banho-maria. Em Arpino, também no Lácio, os folhetos turísticos garantem que fagioli con i ruschi (aspargos selvagens) era seu prato favorito, juntamente com segne (tipo de lasanha). Já em Nápoles, na região da Campanha, saboreava pasta e fagioli, receita típica que mistura massa e feijão.

O maior ator da Itália e um dos melhores de todos os tempos, que atuou em 160 filmes ao longo de 72 anos de vida, também gostava muito de pão. Além disso, apreciava o vinho tinto, especialmente o Chianti, e bebia vodka pura e gelada. Tabagista compulsivo, chegou a fumar 70 cigarros por dia. O jornalista Arturo Guatelli, por longo tempo correspondente em Paris do Corriere della Sera, de Milão, registrou a fidelidade de Mastroianni à culinária italiana. Contou que na capital francesa, onde por sinal o ator faleceu, não se deixava seduzir pela cozinha local, nem pelo cardápio sofisticado dos grandes restaurantes. Preferia ir a locais como o pequeno La Table d’Italia, na Rue de Seine.

Guatelli jantou ali com o grande ator, entre 1989 e 90, e assistiu a uma cena divertida. Mastroianni comeu fatias de mortadela com pão e um prato de massa. Então, a dona do La Table d’Italia colocou na vitrola um CD de lambada — o gênero musical brasileiro que fazia sucesso na Europa — e o tirou para dançar. Como não havia espaço no restaurante, os dois rebolaram na Rue de Seine, indiferentes à chuva fina que caía. Uma pequena multidão se formou na calçada e aplaudiu o casal de bailarinos. Marcello admirava o Brasil. Adorou Paraty quando esteve nesta cidade fluminense, em 1982, atuando ao lado de Sonia Braga no filme Gabriela cravo e canela, de Bruno Barreto. Um dia acordou cedo para observar os pescadores puxando a rede. Ao ver a moradora Clelia D’Almeida, hoje gerente do restaurante da Pousada Magia Verde, comprando uma tainha gorda, intercedeu: “As melhores são as magras”.

Em 1986, Mastroianni aderiu às passeatas contra a abertura do primeiro McDonald’s de Roma, na Piazza di Spagna. Os italianos achavam que o modo de comer à americana, com as pessoas pegando um hambúrguer no balcão, colocando maionese, ketchup e engolindo tudo rapidamente, ameaçava o tradicional convívio à mesa dos italianos. Em uma das manifestações, Mastroianni foi visto diante da loja pioneira do gigante do fast-food saboreando um “desafiante” spaghetti.