Irmãs no vinho

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Representantes da quarta geração da família, Luciana e Stella Salton dão continuidade à história de sucesso iniciada há mais de um século pela Vinícola Salton

Por Cláudia Fragata
Foto António Rodrigues

As irmãs Luciana, de 29 anos, e Stella Salton, de 27, não são apenas herdeiras de um grande negócio, mas de uma longa história. Ambas representam a quarta geração de uma família de imigrantes italianos que, há 101 anos, fundou em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, a Vinícola Salton, hoje uma das mais importantes do país, não só pela sua produção de vinhos brancos, tintos e frisantes e do clássico conhaque Presidente, mas também de suco de uva.

A alta qualidade de seus espumantes é reconhecida internacionalmente – em 2010 a produção de espumantes e frisantes Salton alcançou 997.772 caixas de seis unidades. Filhas de Ângelo Salton Neto, que durante 28 anos presidiu e modernizou a empresa, elas nasceram, assim como o pai, em São Paulo, onde desde 1925 funciona uma unidade da vinícola. “Pensam que somos do Rio Grande do Sul, tal é a força da marca, que está profundamente associada à região de Bento Gonçalves e à Serra Gaúcha”, diz Stella.

Em 2009, com a morte precoce de Ângelo Salton, a vida das duas irmãs deu uma guinada também inesperada. Elas já trabalhavam com o pai, Luciana desde 2006, como coordenadora de marketing; e Stella desde 2008, como gerente de comunicação. Antes disso – como é uma tradição na família – passaram por outras empresas para adquirir experiência “externa”. Formada em administração de empresas pela Fundação Armando Álvares Penteado e graduada em marketing pela Fundação Getúlio Vargas, Luciana trabalhou na Roche, mas “sempre sonhei em trabalhar na Salton”. Stella se formou em publicidade também na FAAP e “trabalhou fora” por sete anos antes de ingressar na empresa da família. Em seu último emprego, no Laboratório Fleury, permaneceu apenas três meses. “Comecei a não me encontrar”, conta. “Foi quando meu pai me disse: ‘Filha, será que não é hora de vir pra Salton?’”

Com a morte de Ângelo, que tinha uma presença vibrante e era conhecidíssimo no mercado, a irmãs passaram por momentos difíceis – ele nunca havia falado em sucessão e muito menos em morte, assuntos tabu para ele. Stella teve uma crise de estresse e pensou em abandonar a empresa. Luciana, que até hoje sente dificuldade para aceitar a falta do pai, foi mais pragmática: “Me dei seis meses para ficar triste, depois reergui a cabeça, lembrando de que ele também enfrentou a morte de meu avô e não perdeu a vontade de trabalhar”.

A presidência da vinícola passou para Daniel Salton, primo de Ângelo, que lá do Rio Grande do Sul – a sede da empresa fica em Tuiuty, distrito de Bento Gonçalves – percebeu o estado de espírito das irmãs enlutadas e propôs um desafio: Stella passaria a gerente administrativa e Luciana a gerente de negócios. Animadas por novas expectativas, ambas arregaçaram as mangas e voltaram ao trabalho com força total.

Elas sabem que têm muito trabalho pela frente e que o caminho aberto pelo pai – “ele não nos abriu uma porta, ele a escancarou” –, que solidificou a marca Salton no mercado, precisa ser semeado para que continue a dar frutos. “O Brasil ainda está engatinhando no mundo dos vinhos e já não temos nosso maior garoto-propaganda, mas o fato de sermos uma família e contarmos com a formação que recebemos de nosso pai ajuda muito”, garante Luciana. Grávida de sete meses, ela aguarda o nascimento de Laura, em dezembro. Quem sabe, mais uma mulher a levar adiante a tradição familiar dos Salton.