JK como inspiração

0
904

Batizado com o nome do ex-presidente, o dinâmico restaurateur paulistano
Juscelino Pereira tem o mesmo espírito empreendedor do construtor de Brasília

Por Claúdio Fragata

Foto António Rodrigues

Há nomes predestinados. Quando o agricultor Vicente Tavico pediu — quase exigiu! — que o sétimo neto fosse batizado com o nome do ex-presidente Juscelino Kubitschek, não estava apenas prestando homenagem a um político que idolatrava e
do qual foi cabo eleitoral. Achava que assim poderia atrair para o bebê um futuro ousado e pleno de realizações. Afinal, JK foi o presidente que construiu Brasília e tinha como slogan “50 anos em cinco”. As intenções do avô se cumpriram plenamente. Assim batizado, o espírito empreendedor do garoto Juscelino Pereira logo deu sinais. Aos 13 anos, já plantava a própria horta: “Queria ter minhas economias”, lembra. “Vendia a produção e comprava doces na cidade.”

Hoje, aos 38 anos, é um dos mais bem sucedidos restaurateurs de São Paulo. Em 2004, inaugurou a trattoria Piselli, especializada em receitas clássicas do norte da Itália, e não parou mais. Em parceria com diferentes sócios, logo vieram o Zena Caffè, a pizzaria Maremonti, o restaurante Tre Bicchieri e o bistrô La Cocotte, todos localizados no coração do bairro dos Jardins. Mais recentemente, abriu a temporada das filiais — ele calcula que dentro de um ano terá um total de dez casas.

Nascido em 31 de julho de 1969, em Joanópolis, no interior de São Paulo, divisa com Minas Gerais, na fazenda da família, Juscelino poderia nunca ter saído de lá, não fosse o temperamento inquieto e a capacidade de dar a volta por cima nos momentos difíceis. Aos 16 anos, resolveu jogar todas as fichas em sua horta plantando algo que não fosse comum na região porque não queria concorrência. Decidiu que seria ervilha. “A ideia surgiu do nada na minha cabeça”, conta. Comprou as sementes e deu início ao empreendimento. Perto da colheita, tomou outra decisão: para obter maiores lucros, venderia sua produção diretamente ao comprador, sem atravessadores. Foi até o mercado da vizinha Bragança Paulista e fez uma espécie de pré-venda da safra, calculada em 500 quilos de grãos de ervilha. “Voltei para casa pulando de alegria, pelas minhas contas tiraria a barriga da miséria”, recorda. “Pensei que daria até para comprar um cavalo!”

Não foi o que aconteceu. Quando, feliz da vida, chegou com suas vagens diante do primeiro comprador de Bragança Paulista, ouviu a sentença: estão estragadas! Juscelino se enganara. Não havia plantado ervilha que se colhe em grãos, mas ervilha torta, que amadurece mais rápido e deveria ser colhida um mês antes. Resultado: perdeu toda a safra!

Já no caminho de volta para casa tomou a decisão de largar tudo e tentar a sorte em São Paulo.

Lembrou-se do convite de um amigo da família, proprietário do pequeno restaurante Casarão, na zona norte da capital paulista. “Juntei os trapos e vim-me embora, para ganhar menos do que o salário mínimo”, lembra. “Ali fui balconista, caixa, garçom, office boy, um faz-tudo”. Era a sua estreia no mundo da gastronomia. Sem glamour, mas com muita vontade de vencer.

Juscelino aproveitava as folgas para conhecer a metrópole e descobriu que “do lado de lá”, na região dos Jardins, havia restaurantes elegantes e uma vida noturna diferente de tudo o que conhecia. Educado e rei da simpatia, já ouvia dos clientes que ele tinha jeito de garçom de restaurante fino. “Cismei que ainda trabalharia naquele lugar de gente chique”, recorda.

A chance de seus sonhos chegou em 1991, quando um colega avisou de uma vaga para garçom no restaurante do flat Saint Peter’s Pear. Onde? Nos Jardins. “Era um francês de frutos do mar, pequenino, charmoso, com adega climatizada, réchaud, talheres de prata, fiquei encantado”, lembra. Dois meses depois, foi promovido a maître. Em uma época em que os sommeliers ainda eram raros, Juscelino precisou aprender sobre vinhos porque na nova função um dos seus deveres era cuidar da adega. “Comprei um livro do Saul Galvão e comecei a ler”, confessa.

Sempre querendo mais, Juscelino tinha agora um novo objetivo: o Grupo Fasano, que era — e ainda é — o top da região. Durante uma festa, foi apresentado a Manoel Beato, o sommelier da empresa e, após um animado bate-papo sobre vinhos, não hesitou em perguntar se havia uma vaga para ele por lá. Havia. Juscelino preferiu dar um passo atrás na hierarquia e de maître do Saint Peter’s Pear passou a auxiliar de Manoel Beato. Não era a primeira vez que fazia isso.
Como os antigos samurais, sabia que às vezes é mais sábio retroceder para alcançar o objetivo. Em pouco tempo, observando as evidentes qualidades do novo contratado, os patrões o promoveram a garçom. Mas com a inauguração do restaurante Gero, em 1994, recuperou o antigo posto de maître para, pouco depois, tornar-se gerente da casa.

O mergulho na alta gastronomia do Fasano durou 11 anos. Juscelino se sentia realizado. Reconhecido como uns dos mais competentes profissionais da cidade, rodou a Itália visitando vinícolas e aprofundando seus conhecimentos. Na vida pessoal, não era diferente. Casado e pai de três filhos, tinha até casa na praia. Mas eis que as palavras do avô Vicente Tavico, sempre repetidas aos netos, voltaram-lhe à lembrança: “Atirem-se no mundo, mas aos 35 anos estejam aprumados na vida!”. Juscelino estava com 34.

Mais uma vez, jogou tudo para o alto e resolveu abrir seu próprio restaurante. Já com olho clínico para negócios, percebeu que São Paulo tinha muitas cantinas italianas, mas não uma trattoria requintada. Levou o projeto adiante, só o nome não lhe vinha. Em uma roda de amigos, alguém sugeriu Piselli. “Gostei do nome, mas quando me disseram que significava ervilha em italiano, gelei”, conta Juscelino. Aceitou a sugestão na mesma hora. Era uma forma de exorcizar o fracasso do passado. A casa foi inaugurada em 31 de julho de 2004, no mesmo dia em que o proprietário completava 35 anos.

O sucesso do Piselli serviu como incentivo ao empreendedor. Nos anos seguintes, abriu um restaurante seguido de outro. Em março, inaugurou a filial do Zena Caffè no Itaim Bibi e, em junho, a do Tre Bichieri dentro do Shopping JK Iguatemi, que certamente conta com as bênçãos do ex-presidente. Agora, Juscelino estuda a possibilidade de novas filiais da Maremonti em Campo Belo (na capital), Alphaville (Barueri) e até Campinas. E aí já chega? A resposta é imediata: “Impossível parar agora, nasci para isso. Quem para é poste de rua”.

SEM COMENTÁRIOS