Longa vida ao Don Curro

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Vista do interior do restaurante Don Curro.

Mais de 55 anos de uma casa tipicamente espanhola em São Paulo

Por Walterson Sardenberg Sº
Fotos: Antônio Rodrigues

Francisco Ríoz Domínguez era um toureiro promissor de Sevilha. Mas a vida andava difícil na Espanha quando sua carreira ameaçava deslanchar. Primeiro, veio a Guerra Civil. Mal terminou, começou a Segunda Guerra Mundial. O jeito foi mudar de profissão. Francisco montou uma banca de peixes em Barcelona, no histórico mercado La Boquería. Dos tempos de arena, guardou as roupas e o apelido, Curro — dado aos toureiros e artistas que, na pia batismal, receberam o nome Francisco.

No pós-guerra, a situação da Espanha continuava mais bravia que um miúra. Não teve jeito: o ex-toureiro convenceu a mulher, Carmen, a vir para o Brasil, onde morava um tio dela. O casal desembarcou com os quatro filhos — dois meninos e duas meninas.

O mais velho, José Maria, tinha nove anos. O mais novo, Rafael, apenas três. Na casa do tio, no bairro industrial da Mooca, nove pessoas passaram a dividir os dois quartos. Apesar do aperto, um ano mais tarde, em 1958, recorrendo às frágeis economias — e a dinheiro emprestado a longo prazo —, a família iria inaugurar aquele que é, hoje, um dos mais tradicionais restaurantes de São Paulo: o Don Curro.

Sim, lá se vão mais de 55 anos. Quantas casas paulistanas chegam a tal, com tamanho prestígio? Mas é bom ressaltar: a trajetória não foi nada fácil. Embora o restaurante contasse com dois trunfos: além do misto de otimismo e ousadia de Francisco nos negócios, havia o talento de Dona Carmen nas panelas. Quem conta é José Maria, que com o irmão, Rafael, comanda o Don Curro: “Uma das nossas tias trabalhou no fogão do palácio de férias dos reis da Espanha, em Granada, e ensinou a minha mãe os segredos da cozinha. Até hoje, na prática, servimos os pratos que ela preparava, embora Dona Carmen tenha morrido em 1994”.

O endereço do Don Curro quando foi inaugurado era muito menos nobre do que o atual (na Rua Alves Guimarães, em Pinheiros). Tudo o que o mirrado orçamento de Francisco permitiu foi comprar um bar diminuto, na distante Água Rasa, bairro da Zona Leste, vizinho da Mooca e do Brás, então redutos de espanhóis e italianos. “Era só um botequim pobre e mal frequentado, que meus pais transformaram em um restaurante simples, mas de boa comida, para 30 pessoas”, lembra Rafael. “Passamos a morar nos fundos.” Nos dias de mais movimento, cantavam-se canções da Andaluzia. E dançava-se o flamenco.

A casa ainda não se chamava Don Curro. Era a Marisquería Playa Grande. Pelo nome, percebe-se que, já então, o forte eram os frutos do mar. A colônia espanhola, em especial, frequentava o restaurante para saborear manjubas e lulas fritas, salada de atum fresco e sardinha em escabeche, entre outros pratos. “Pegávamos o trem no Largo da Concórdia para buscar caranguejos no Casqueiro, na Baixada Santista”, conta Rafael. Os brasileiros, contudo, ainda não tinham o costume de comer mariscos e outros frutos do mar. “A simpatia do meu pai, que adorava ir de mesa em mesa e o talento da minha mãe na cozinha acabaram convencendo os novos clientes”, diz José Maria, admitindo que vários pratos tiveram de ser adaptados ao gosto dos paulistanos. Por exemplo: a paella tinha, de início, pato, coelho e vagem.

Embora a prosperidade já fosse mais que uma quimera, tudo ainda era muito modesto. Quando chovia, havia o risco de inundação. Funcionários? Nada disso. A própria família se encarregava do serviço e da faxina. Telefone? Esqueça. “Pegávamos recados com o português João Fraga, muito boa praça, que tinha um depósito de material de construção em frente”, diz José Maria, ressaltando a solidariedade dos imigrantes à época.

Um momento decisivo para o restaurante aconteceu em 1962, quando a Sociedade Hispano-Brasileira escolheu a casa para sediar um banquete. Toalhas e cadeiras foram emprestadas da vizinhança. Foi uma correria. Não à toa: compareceram ao banquete renomados políticos e personalidades da época, lista que agrega João Batista Ramos, Ciccillo Matarazzo, Carlos Carvalho Pinto, Roberto de Abreu Sodré e Francisco Prestes Maia, então prefeito da cidade. A partir daí, a fama do restaurante cresceu mês a mês. Era a deixa para procurar uma localização de acesso menos complicado.

A mudança para o endereço atual ocorreu em 1966. No começo, a família foi morar no andar de cima do sobrado. Na entrada do térreo, Francisco mandou instalar o letreiro, em latão, com o mesmo grafismo de hoje: Don Curro. Explica-se: era assim que muitos dos clientes o chamavam, ao ver as velhas fotos do veterano toureiro com a identificação de “Curro Domínguez” em letras graúdas, expostas na antiga casa. E assim Francisco tornou-se para sempre o Don Curro. Faleceu em 2002, aos 90 anos. Era a maior alegria da casa — e também um homem visionário. “Em 1972, cismou que a cozinha tinha de ser toda envidraçada para os clientes verem o profissionalismo do preparo dos pratos”, lembra José Maria. Outra atitude pioneira, segundo Rafael, foi a instalação da adega dentro do salão. Hoje, são 4.500 garrafas, de 300 rótulos — 95% de vinhos espanhóis. O velho Francisco sempre se manteve antenado com as melhorias de infraestrutura.

Os irmãos José Maria (à esquerda) e Rafael Domínguez, donos do restaurante Don Curro.Nesse sentido, o Don Curro é um restaurante modelo. Os peixes e frutos do mar comprados diretamente de barcos pesqueiros são embalados a vácuo um a um antes de serem acomodados a 20 graus negativos em uma câmara frigorífica com capacidade para dez mil quilos. Enquanto isso, as lagostas ingressam em um viveiro capaz de acolher 500 exemplares, com 24 mil litros de água em circulação. Essa água era retirada do mar em Itanhaém, no litoral paulista, o que acabou ocasionando uma situação surrealista. Um ecologista de pouco siso denunciou a operação à polícia, como sendo expropriação de bem público. Exatamente: como se a água do mar fosse um recurso esgotável. Houve, de fato, voz de prisão, enfim relaxada tendo em vista o absurdo do contexto. Pelo sim, pelo não, a água do viveiro é agora salinizada de maneira artificial. Ficou mais cômodo e passível de melhor inspeção.

Nos últimos tempos, o cardápio do Don Curro foi incrementado com planchas — ou seja, os frutos do mar grelhados de maneira rápida, em alta temperatura — e com os peixes preparados dentro de blocos de sal (destaque para o robalinho). Ao contrário de diversos restaurantes espanhóis espalhados mundo afora, o Don Curro descarta pratos que fujam à tradicional culinária ibérica. “Não somos modernos, mas também não somos antiquados”, explica José Maria, antes de emendar, reforçando sílaba por sílaba: “Somos tra-di-ci-o-na-is”.

A ideia, como já dito, é manter incólume a culinária de Dona Carmen. Na razão direta desta proposta, o Don Curro não tem chef, mas apenas cozinheiros profissionais. Alguns com décadas de casa, por sinal. “Um chef teria sempre o impulso de transformar os pratos”, diz Rafael. Em vez disso, o Don Curro quer mantê-los com um controle de qualidade que beira a obsessão. Entre outros ingredientes, uma paella para dois tem sempre, sem exceção, 300 gramas de arroz, 350 gramas de lulas, 14 camarões graúdos, uma lagosta de 600 a 700 gramas, 14 mexilhões robustos, 50 ml de azeite e 30 gramas de sal. José Maria desafia: “Pode conferir”. Afinal, o que é preciso para chegar à essa excelência? A resposta vem pronta: “É simples. Basta trabalhar com dedicação durante 55 anos”.

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