Magia no copo

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Uma porção de taças, as mais à frente com um pouco de vinho

Provamos 13 tintos de uma região francesa que alia o caráter da uva Gamay com a técnica da maceração carbônica, elaborando vinhos perfumados, alegres, joviais, muito versáteis à mesa

Por Guilherme Rodrigues
Fotos: Luiz Henrique Mendes

Poucos vinhos no mundo combinam tão bem com as comidas como o Beaujolais tinto. Os franceses que o digam, pois esses vinhos estão sempre presentes nas mesas dos restaurantes, brasseries e bistrots daquele país. O sucesso se explica em função da alegre jovialidade e sapidez da bebida. Em especial, pelo caráter da uva Gamay no seu esplendor, resultado da técnica da maceração carbônica, em que os grãos são colocados inteiros nos tanques de fermentação. Dá um vinho perfumado, mas sem exageros, mágico, que estimula os sentidos já ao primeiro cheiro. Segue-se um corpo deliciosamente frutado, sápido, com bela vivacidade e acidez, mas sem peso bruto. Como que compõe e eleva a comida, ao invés de afrontála. Muitas vezes, com toques sofisticados, casa bem com os mais suntuosos repastos de aves e caças, passando pelos assados, massas, saladas e até simples sanduíches. Inclusive, muitos frutos do mar. Outra vantagem, seu menor custo em geral.

Há um tipo mais simples e festivo de Beaujolais, o Nouveau, engarrafado muito cedo, do princípio a meados de novembro do ano da safra. É mais leve, esfuziante, apelativo e de vida curta, com aromas e sabores joviais e bem primários. Uma delícia, quando bem feito. Tal o sucesso mundial, que no frenesi, infelizmente, muitos não se contiveram e passaram a abusar e lançar no mercado rótulos de qualidade aquém do que se esperava, criando uma certa resistência do público. Essa época está passando, e o preconceito sendo deixado de lado. Os conhecedores nunca se deixaram levar por essa onda e tiveram nos melhores rótulos de Beaujolais sempre fiéis companheiros.

A região é de solos graníticos, que se espraiam em colinas mais ou menos íngremes, pela margem oeste do Rio Saone. Começa logo ao sul de Macon, e vai até junto da cidade de Lyon. Os grandes Beaujolais são provenientes de vinhedos especiais, mais no norte da apelação. Cada qual dá vinhos superiores e com caráter próprio. Em ordem alfabética, os famosos 10 crus do Beaujolais são os seguintes: Brouilly, Chénas, Chiroubles, Côte de Brouilly, Fleurie, Juliénas, Morgon, Moulinà-Vent, Régnie e Saint Armour. A seguir, vêm os Beaujolais-Villages e os Beaujolais (sem designativo). Há também uma menor quantidade de Beaujolais branco (Chardonnay e Alligoté) e, menor ainda, de rosé.

O Beaujolais tinto não é feito para envelhecer. Os bons vinhos, normalmente da categoria Villages para cima, suportam bem dois a cinco anos de vida, dependendo da safra, produtor e armazenamento. Mas não ganham muito com a idade. Os melhores crus, das melhores colheitas, podem ganhar com a idade e viver bem até cerca de oito anos. De qualquer modo, são sempre vinhos para dar um grande prazer quando jovens. A melhor temperatura de serviço é em torno dos 14 aos 15 graus centígrados. Pede copos com bom diâmetro para mostrar seus aromas mais amplamente. Não precisa decantar, alguns minutos no copo fazem a aeração necessária.

A equipe da revista GOSTO provando vinhos às cegasProvamos 13 dos mais apetitosos exemplares no mercado, de Villages para acima. A degustação transcorreu às cegas, no restaurante North Grill do Shopping Frei Caneca, em São Paulo [R. Frei Caneca, 569, 3º piso, tel. (11) 3472-2038]. Participaram da avaliação, além deste redator, os experientes degustadores de GOSTO: Alexandre Bronzatto, Alexandre Rodrigues, José Luiz Pagliari, José Maria Santana e José Ruy Sampaio. Estiveram presentes o diretor de redação de GOSTO, J.A. Dias Lopes, e Raphael Allemand, representante da Inter Beaujolais no Brasil. O competente serviço esteve ao cargo do sommelier Genivaldo Brito de Lima. Após a degustação, o talentoso assador William Porto Rocha brindou a todos com os suculentos assados da grelha do North Grill.

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