Mar de rosas

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A vida pode ser isso, a bordo do navio gastronômico Silver Spirit
Por Bráulio Pasmanik

O Silver Spirit é para poucos. Não se trata de um clichê – ou de esnobismo. O navio oferece apenas 270 cabines, para acolher um máximo de 540 passageiros. Navega, portanto, na contramão dos colossais transatlânticos turísticos, capazes de acomodar uma cidade inteira. Os salões, o spa, o teatro e os restaurantes são dimensionados para que nunca haja filas, confusão ou stress. Foi o que pude apreciar no cruzeiro de Nova York a Southampton, o porto mais próximo de Londres. De início, o padrão já fica claro. Toalhas grandes e felpudas. Cremes e xampus da Bulgari. Chocolates gianduia da Caffarel, de Turim. Mais um pouco e apura-se a qualidade do serviço – 24 horas, claro. Cada cabine tem sempre o mesmo mordomo. Ele não apenas descobre suas preferências, mas também as suas manias. Esse cuidado se estende ao barman, ao sommelier e ao garçom, que o tratam pelo nome. Tudo vem exatamente como se pede da primeira vez: o dry martini, a água San Pellegrino gelada (mas sem cubos de gelo, como foi requisitado) e a seleção de queijos no final. Como eles não se esquecem do seu nome? Atrás da porta da cozinha, um painel com as fotos e identificação dos passageiros facilita o trabalho. Jerome Foussier, o chef executivo do Silver Spirit, nasceu numa vilazinha nas cercanias de Bordeaux. Versátil, trabalhou no Hotel Ritz, de Paris, e foi private chef do emir do Catar. Uma de suas preocupações é adequar as iguarias ao roteiro da viagem de modo que possa comprar produtos frescos regionais em cada porto. E assim ocorreu. Da ancoragem em Boston vieram as lagostas do Maine. Já na primeira escala no Canadá, em Halifax (na Nova Escócia), subiram a bordo as ostras Malpeque.

A prática foi se sucedendo nas paradas seguintes: St. John’s (em Newfoundland, também no Canadá), a encantadora cidade de Cork (na Irlanda) e Cardiff (capital do País de Gales, que reúne prédios modernos, arquitetura gótica e 330 parques). Seguiu-se Plymouth, já na Inglaterra. “Quando passamos pelo Brasil, servimos feijoada a bordo”, conta Jeromy. “Se o próximo porto tem frutas vermelhas, voilà!” Parece simples. Mas o dia de Jerome é repleto de planejamento. A auxiliá-lo na tarefa, um português de personalidade cativante, António Mendes, dirige os seis (sim, seis!) restaurantes de bordo.

Já no café da manhã percebe-se: não há limites para os desejos dos passageiros. Comece a inventar. Peça, digamos, omelete de claras de ovos, queijo cottage e espinafre. Não está no cardápio, mas não há problema. Deixe por conta deles. Difícil é resistir às contínuas tentações. O serviço na piscina, do restaurante Pool Grill, começa logo após o breakfast. Há coquetel de camarões, saladas, hambúrgueres no ponto certo…

No almoço, pode-se escolher entre dois restaurantes. Um funciona à la carte. O outro é um buffet. Não pense, porém, que, por se tratar de autosserviço, o nível diminui. Nada disso. Entre outras fidalguias, sempre haverá um garçom disposto a levar seu prato até a mesa. Algumas boas lembranças do almoço: salada de pera e queijo stilton, ceviche de bacalhau, perna de cordeiro e molho de menta.

Em um navio próprio para gourmets, o jantar consiste, claro, no grande horário. E nada é apressado. Tudo se prepara na hora, a despeito do restaurante. Basta escolher. No francês Le Champagne, com serviço em seis etapas e apresentando a cada dia uma cozinha regional, abusa-se do foie gras. Numa mesma refeição, pode-se degustar terrine com chutney de maçãs, seguida por um creme de foie gras e lentilhas de puy e terminar com um filé à Rossini, coberto por lâminas de foie. Já o Seishin, restaurante japonês, é extraordinário até nas louças e decoração. Quanto ao Terrazza, trata-se de um italiano de pratos simples e bem elaborados, enquanto o Stars mescla porções semelhantes a tapas espanholas e boa música ao vivo. Nesse caso, o jantar torna-se menos jantar e mais divertimento.

O grande restaurante do navio, como o nome permite antever, é o The Restaurant. Um acordo firmado com o Relais & Chateaux (a associação de hotéis de luxo) indicou para essa temporada o chef Jacques Thorel, do L’Auberge Bretonne, para criar os jantares. Só para dar um gostinho: enguia defumada com salada de limão, sopa cremosa de açafrão e mariscos e ragu de javali com fungo porcino.

Todas as refeições estão incluídas no preço da passagem. Quando soube que isso também abrangia o consumo de vinhos, fiquei curioso. Como manter o padrão gastronômico do navio sem estourar a conta? Sabemos que é fácil dobrar a despesa do restaurante com uma simples distração na escolha do vinho. Pois o head sommelier Marjan Tasevski, macedônio, faz um trabalho ímpar. Sua carta acolhe bons brancos da Borgonha, o correto Bordeaux Château La Gravière 2007 ou ainda o chileno Anke Blend 2, um interessante Carménère com adição de Petit Verdot e Shiraz, que resulta num nariz repleto de frutas silvestres. Não se paga um tostão a mais. Bem, há uma carta à parte, com oferta de grandes garrafas a preços acessíveis. O champanhe Don Pérignon 2000 custa US$ 180 e uma seleção enorme de supertoscanos chega ao máximo de US$ 200 cada unidade – casos do Ornelaia e do Sassicaia 2005. Mas fiquei tão satisfeito com as sugestões do sommelier que descartei os vinhos pagos. O que os mais sensatos não descartam é a recomendação da placa à porta da academia: “Em um cruzeiro como esse, um passageiro engorda cerca de 2 quilos. Venha perdê-los aqui”. Eu acrescentaria: “Se não conseguir, paciência”. Compre roupas um figurino acima, mas não perca a viagem que, sem querer ser piegas, transcorre em uma espécie de mar de rosas. São essas coisas que transformam a vida em algo especial.