Mistura internacional

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O nome menciona a Rússia, mas este coquetel foi criado no Hotel Metropole em Bruxelas, na Bélgica, em homenagem a uma magnata e festeira americana

Por Walterson Sardenberg Sº

É mais fácil decifrar a idade de algumas veteranas atrizes da TV — mesmo sem recorrer ao carbono 14 — do que desvendar a origem de alguns drinques. No caso do white russian sabe-se ao menos o essencial. Segundo tudo leva a crer, o coquetel foi criado em Bruxelas, na Bélgica, por Tops Gustave, barman do Hotel Metropole. Ele misturou vodca com licor de café — o mexicano Kahlúa, dizem —, duas cerejas ao marrasquino e um bocado de gelo. Pretendia homenagear não um russo, como o nome do drinque faz supor, mas a magnata americana Perle Mesta. Esta felizarda enviuvou aos 29 anos, em 1925, herdando a mixaria de US$ 78 milhões. Além de caixa-alta, foi embaixadora dos Estados Unidos em Luxemburgo e uma festeira de dar inveja a Ricardo Amaral. Resta saber quando o white russian foi criado. A crônica mundana dos coquetéis aponta o ano de 1949. Não confere. Uma década antes, o drinque aparecia no filme Ninotchka, do grande Ernest Lubitsch, considerado a matriz das melhores comédias-sofisticadas.

Lubitsch, judeu berlinense, utilizava as elipses e os diálogos com o máximo de leveza e refinamento. Por isso, se permitia — e a ele permitiam, claro — abordar temas delicados. Em 1933, rodara Design for Living (no Brasil, Sócios no Amor), sobre uma garota que vive com dois rapazes. O assunto só voltaria às telas quase três décadas depois, em Jules et Jim (Uma Mulher Para Dois), de François Truffaut. Ninotchka também tratava de matéria embaraçosa: uma comissária da União Soviética vai a Paris em missão de Estado e termina seduzida pelo capitalismo e por um playboy. Para complicar, Greta Garbo, no papel-título, jamais rodara uma comédia — nem mesmo havia dado uma reles risada diante de uma câmera de cinema.

Nas mãos de outro cineasta, o filme poderia descambar para um panfleto anti-URSS. A direção elegante e o humor afiado do roteiro — escrito por Billy Wilder, Charles Brackett e Walter Reisch, com pitacos do próprio Lubitsch — evitaram esse risco, embora o filme jamais tenha passado, digamos, nas reuniões da Internacional Socialista. Em uma das cenas mais famosas, alguém pergunta a Greta Garbo como andam as coisas na URSS. A resposta: “Os recentes processos em massa foram um sucesso. No futuro haverá menos, mas melhores, russos”. Outro momento memorável ocorre quando a protagonista vai a um bistrô parisiense e pede beterrabas e cenouras. Inconformado, o chef de cozinha troveja: “Madame, isto é um restaurante, não um pasto!”.

Lubitsch morreu aos 45 anos, de um ataque cardíaco. Tinha acabado de manter intimidades com uma amiguinha. Em honra à fidalguia do patrão, o motorista do diretor, Otto, levou a senhorita em casa, mantendo-lhe o anonimato. Só depois telefonou para a polícia. Na saída do enterro do cineasta, seu colega Billy Wilder comentou, inconformado, com outro diretor, William Wyler: “Não teremos mais Lubitsch”. Wyler emendou: “Pior do que isto. Não teremos mais filmes de Lubitsch”.

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