Modernidade e Tradição – Hong Kong

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Entre as muitas atrações turísticas de Hong Kong, na China, a gastronomia é um capítulo à parte e surpreende os visitantes com aromas exóticos em todas as esquinas
Texto e fotos Por Paulo Lima (*)

A tração turística é o que não falta na cosmopolita Hong Kong, uma das mais célebres cidades da China, onde Oriente e Ocidente se misturam. Sua história e tradições mexem com a imaginação e atraem visitantes do mundo todo. Em meio a prédios arrojadíssimos, e acima da linha do metrô, um charmoso bonde de dois andares, herança do domínio britânico, faz um trajeto de superfície, delicioso para se acompanhar e conhecer as lojas e os instigantes mercados de rua.

Vende-se de tudo, de computadores a relógios e máquinas fotográficas. De malas a tênis. Lojas de grife confundem-se àquelas especializadas em imitações, muitas delas de impressionante esmero. No mercado de pássaros, encontram-se aves de todas as cores e espécies e, no de jade, mais de 200 lojas oferecem peças de qualidade dessa pedra.

A gastronomia também é atração — das melhores. Em todos os mercados da metrópole, de 7 milhões de viventes — espremidos em uma ilha e suas imediações —, o aroma da comida, vendida em carrinhos ou pequenas lojas de uma só porta, toma conta do ambiente. O crispy skin duc (pele de pato crocante), servido com panquecas e peito de pato desossado — um contraponto ao Pato de Pequim, do norte do país —, pode ser provado em cada esquina.

A delicadeza da comida da região de Cantão e de sua vizinha, Hong Kong, é renomada dentro e fora da China. Esta área tem clima subtropical e sua culinária se baseia no arroz, vegetais, frutas e peixes e frutos do mar, vindos, em especial, da extensa costa marítima. Por essa razão, o ponto alto desta cozinha fica por conta do frescor. Os pratos são preparados de diversas maneiras: a vapor, fervidos ou fritos, sempre com uma branda fragrância de gengibre, cebolas de primavera e alho.

Quase todos os restaurantes de Hong Kong servem peixes e frutos do mar. O cliente os escolhe em um tanque e especifica a técnica de cozimento. Entretanto, a carne favorita da cozinha da região é o porco, quase sempre assado ou grelhado. Outro prato muito apreciado é o pato, usualmente grelhado e com pele bem crocante. A população, sobretudo os idosos, mantém o costume de consumir pratos exóticos aos olhos ocidentais, elaborados com cobras, macacos, cachorros e a deliciosa — e cara — barbatana de tubarão, mas isso já é uma outra história.

O almoço tipicamente chinês, servido em todo o país, chama-se dim sum. Teve origem nesta região. São pratos diversos, oferecidos em pequenas porções em uma mesa redonda, centrada por um patamar circulante, que pode ser controlado, sem esforço, por cada participantes da refeição.

Assim, uma enormidade de pratos com nomes de pronúncia difícil, como luo mai gai e fung jau, vão passando diante do comensal. Muitos são inusitados, mas sem dúvida marcantes e, em grande parte, deliciosos. O har grau, pastel com recheio de camarão, e o siu mai, diminutos pedaços de porco embrulhados em folhas de couve, estão entre os mais consumidos. O dim sum, enfim, é uma experiência que todos deveriam experimentar. Um espetáculo inesquecível.

Depois de se mergulhar em sua rica culinária e explorar seus restaurantes e mercados, há muito o que fazer em Hong Kong. Ir ao hipódromo, por exemplo. Em poucos lugares no globo as corridas de cavalo despertam tamanho interesse. Os moradores, aliás, têm paixão por jogos e apostas em geral. De quebra, o hipódromo está encravado entre as montanhas e arranha-céus, proporcionando uma visão magnífica.

Há outros tantos panoramas a serem divisados. O skyline da cidade revela-se espetacular se observado da Península de Kowloon ou de um barco na Baía de Hong Kong — melhor se for o Jumbo, um restaurante-embarcação, que faz jus ao nome pelo seu tamanho e pela variedade gastronômica. Tão ou mais esplêndida é a vista geral da metrópole e seus territórios, disponível do Pico Victoria, a 544 metros de altitude. À noite, é simplesmente deslumbrante. Eis o momento de aproveitar e jantar em um dos restaurantes desse mirante natural. Entre eles, o Pearl of the Park, filial do aclamado Pearl Restaurant, de Melbourne, na Austrália.

Hong Kong tem um status particular dentro da China. É considerada uma Região Administrativa Especial, com sistema financeiro e portos livres e até moeda própria. Em tese, reporta-se ao governo de Pequim apenas nas questões de defesa e política externa. Tudo porque foi colônia britânica por 155 anos, conquista firmada pelo Tratado de Nanquim. Desde 1º de julho de 1997, porém, sua soberania foi devolvida pelo Reino Unido aos chineses, em outro acordo bilateral. O idioma inglês continua a ser uma das duas línguas oficiais (a outra é o cantonês) e é utilizado para designar os prédios e ruas, bem como a sinalização. Apesar do domínio britânico, Hong Kong conseguiu, à sua maneira, manter-se fiel à tradição e à cultura chinesa. Afinal de contas, o que é um século e meio se comparado à história da China?

Os arranha-céus em Wan Chai, Central e Kowloon, com seus coloridos neons, são o símbolo de um centro financeiro dinâmico. Em razão da falta de espaço e da alta taxa demográfica, os terrenos custam fortunas e há edifícios com mais de 70 andares. Todos eles, bem como os jardins e os cemitérios, são planejados e executados obedecendo aos princípios de feng shui.

Isso significa erguê-los em harmonia com a terra, o vento, o fogo, as montanhas, o céu e a água. Ninguém se atreve a desafiar tais preceitos. O moderníssimo e eficiente metrô teve de se adaptar a eles e somente foi construído quando um grupo de taoistas pagou tributo ao espírito da terra, cujo domínio ia ser violentado. Usa-se muito vidro nos edifícos para que os maus espíritos, vendo-se refletidos, fujam assustados.

Quem chega a esse antigo enclave inglês na China, a trabalho ou a passeio, precisa reservar um tempo para uma visita a locais próximos. Voando até Lantau, vê-se do alto o seu grande aeroporto e um mar cor de jade. A visita ao Mosteiro de Polin, com suas estátuas e arquitetura colorida, é inesquecível. Numa colina em frente ao monumento, ergue-se a estátua em bronze de 26 metros de Buda, à qual se tem acesso por uma escadaria de 268 degraus. Vale a pena. A vista de lá é maravilhosa.
Atravessando o estuário do Rio das Pedras, em velozes catamarãs, em 60 minutos chega-se a Macau, um território de pouco mais de 19 quilômetros quadrados. Foi um pequeno centro comercial português que perpetuou sua influência na culinária e arquitetura da região. É lá que os chineses praticam o hábito do jogo em cassinos, que se comparam em luxo e tamanho aos de Las Vegas. Também é possível saborear belas postas de bacalhau com a qualidade da “Santa Terrinha”.