New yorker, new yorker

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Ilustração de um nova-iorquino à mesa

Declaração de amor à Capital do Mundo, feita por um estrangeiro legitimamente apaixonado

Por Antonio Carlos Nascimento
Ilustração: Jaca

Nenhum lugar do mundo é tão ilegitimamente meu quanto Nova York. Neguei a cidade três vezes até me quedar por ela. E, embora ciente de que essa paixão não é correspondida, retornei à Grande Maçã dezenas de vezes, mesmo depois da frustrada tríade.

Circulo à vontade por restaurantes italianos e franceses na lingua mãe da casa em questão. Mas, quando a comunicação que me resta é exclusivamente o inglês, tal como ocorre em restaurantes de culinária americana da cidade — ou grega, chinesa, tailandesa, irlandesa e etc. —, sinto-me um imigrante recém-chegado, tentando acomodar o ouvido com o que me soa sempre um dialeto. Daí considerar-me um new yorker ilegítimo. Mesmo assim, estou por aqui de novo, talvez impulsionado pelo eterno desafio da conquista.

De Manhattan, escrevo neste domingo frio de janeiro, e acho que o melhor a fazer no início do ano é abordar apenas prazerosamente o tema comida, norteado, ao menos desta vez, somente pela alma, sem os necessários conceitos científicos que embasam esta coluna. Que eu não pareça presunçoso, mas vou relatar meu roteiro dos últimos seis jantares. Pode ser útil para quem vier andar por aqui.

Comecei pelo grego Kellari, na rua 44. Bom de cordeiro e melhor ainda nos frutos do mar, assim como no serviço de vinho. Tem preços acessíveis, pelo que oferece. A segunda noite foi no Babbo, na Waverly Place, no Greenwich Village. Para mim, é a melhor casa de Mario Bataglia e o melhor italiano da ilha. Bela carta de italianos brancos e tintos, com bom serviço. Acerto sempre pedindo um papardelle, que, em sua versão mais recente, fez-me lembrar do maravilhoso Papardelle vom Ragú de Ossobuco, do restaurante paulistano Piselli, de Juscelino — para mim, ainda sua melhor casa. Deu empate técnico. Mas o Babbo é caro.

Na noite seguinte, fui de Itália de novo: La Masseria, na rua 48. A cozinha napolitana desta vez não encantou. A casa é barulhenta, sua carta de vinhos poderia ser melhor e o serviço, mais afinado. Ainda assim, tem sua graça. É uma das favoritas de meu amigo Romeu Chapchap.

A quarta noite foi francesa, daquelas que me remetem à Babette, a lendária chef do Café Paris. A meu ver, tal associação só é possível em Manhattan no mais original francês da ilha: La Grenouille. Peça os clássicos, vá de meias-garrafas. Imperdível. E caro.

O Buddakan foi o escolhido da sequência. É a dica para quem pensa em um belíssimo tailandês. Ambiente escuro e com exagero de informalidade no serviço, mas comida aliciante. Bons rótulos e bons preços. Agora, informal mesmo foi a noite de ontem. Era pleno sábado e fui até o histórico P.J. Clarke’s, na rua 55 com a Terceira Avenida. Hambúrguer do melhor, embora pecaminoso e perigoso para as artérias. Fez bem pra alma, que, ao longo do dia, havia se nutrido dos museus Metropolitan e Guggenheim.

Em poucos dias, New York se livrará de mim, e serei de novo o pretendente distante, não correspondido, mas legitimamente apaixonado.

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