No alto dos cerros

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O grupo chileno Santa Carolina constrói um novo projeto para seus vinhos top e aposta em vinhedos situados em morros junto à Cordilheira dos Andes
Por José Maria Santana

Os vinhedos descem em filas verticais morro abaixo e os cachos já quase maduros, suculentos, pendem dos ramos. Para fazer os serviços na vinha, os trabalhadores se esforçam. Nos pontos mais íngremes, há aquelas argolas usadas pelos alpinistas para fixar as cordas nas escaladas. A ocupação dos cerros nas encostas mais baixas da Cordilheira dos Andes é a nova aposta da Viña Santa Carolina, um dos maiores grupos vinícolas do Chile, para conseguir tintos de grande qualidade, especialmente com as castas Pinot Noir e Syrah. As amostras de barril provadas em fevereiro passado confirmam. São vinhos mais concentrados, macios, com fina mineralidade.

A empresa, que pertence ao conglomerado agroindustrial Watt’s, da família Larrain, administra quatro vinícolas. A mais importante é a tradicional Vinha Santa Carolina, fundada em 1875, uma das mais antigas em atividade no país. Outra, menor, e também com bastante prestígio, é a Viña Casablanca. No total, o grupo tem 1.000 hectares de vinhedos próprios nos principais vales chilenos e controla outro tanto em contratos fixos. Produz 27 milhões de garrafas de vinho por ano, dos mais populares, como os conhecidos Santa Carolina Reservado, aos excelentes Reserva de Familia, Specialties, Nimbus e os tintos top VSP, Herencia Carménère e Neblus. Mesmo escoltada em quase 140 anos de história, a empresa se aperfeiçoa, com muitas novidades. A ocupação dos cerros é uma delas.

A Argentina tem vinhedos plantados em altitudes até mais elevadas, mas lá as subidas até a cordilheira são suaves e as vinhas se estendem por platôs elevados. No Chile, chegam a 350 ou 400 metros acima do nível do mar, com inclinações de até 45 graus. Implantar um vinhedo nesses locais escarpados custa cerca de US$ 50 mil, mais que o dobro do que se gasta nos terrenos planos. A região onde se situa a Viña Casablanca, no vale de mesmo nome, a 20 quilômetros da costa, recebe a influência das brisas frias do Pacífico. “Nosso objetivo é produzir os melhores vinhos de clima frio possíveis”, diz o enólogo Gonzalo Bertelsen, ao apresentar os primeiros Pinot Noir feitos com as uvas do vinhedo Nimbus Estate dos cerros. Mais algum tempo e o resultado chegará ao mercado. Expectativa semelhante cerca o no­vo projeto da Vi­ña Santa Carolina na zo­na de Totehue, no Vale de Cachapoal, área central do país. Os vinhedos, com 25 anos de idade, pertenciam à antiga Viña Gracia e foram comprados há dois anos. A bodega foi modernizada e a empresa pretende concentrar neste ponto a produção de seus vinhos premium, com as melhores uvas originárias dos principais vales — ali perto, por exemplo, na comuna de Pichidegua, ficam as vinhas de onde saem os ícones Herencia e VSC. Em Totehue, praticamente continuação do Maipo, os solos contém areia, argila, pedras roladas e rochas em decomposição. Atenção especial é dada aos cerros do local, a 400 metros de altitude, ocupados por Cabernet Sauvignon e outras variedades. Nos trechos mais inclinados, on­de as vides foram plantadas no sistema de vaso (ou cabeça), os trabalhadores se amarram em cordas para fazer podas e a colheita.

Na parte plana de Totehue, a Santa Carolina está implantando uma preciosidade, o Jardim de Variedades, com 2 hectares, uma espécie de Arca de Noé para preservar cepas antigas, reproduzidas por seleção massal. “O Chile tem uma riqueza vegetativa única no mundo”, afirma o enólogo Alejandro Wedeles. “Quando a filoxera devastou várias regiões da Europa, no século 19, os vinhedos da França e outros países foram replantados com material enviado pelos chilenos.” Há 53 clones preservados no Jardim de Variedades, desde as conhecidas Cabernet Sauvignon, Syrah, Malbec e Carignan, até castas quase extintas, como a Romano, antes adotada na Borgonha. Os clones, selecionados, poderão ser replicados para melhorar os vinhedos atuais.

Perfeita harmonia

O Chile, banhado pelas águas frias do Pacífico, é um grande produtor de peixes e frutos do mar, uma das bases de sua rica alimentação. Os vinhos provados na viagem foram companhia à altura dos pratos. Por exemplo, o Santa Carolina Chardonnay Reserva 2012 escoltou bem entradas como empanadas e carpaccio de loco, um popular crustáceo chileno. Já o Specialties Sauvignon Blanc 2012, sutil e elegante, acompanhou com sucesso um cuscuz de mariscos e frutos do mar, com legumes frescos e limão. Para um assado de tira confitado, com mousseline de batata e legumes, o tinto VSC 2010 foi o par perfeito.