O apetite de Mário de Andrade

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Por J. A. Dias Lopes
Fotos António Rodrigues
Poeta, romancista, contista, ensaísta, folclorista, crítico de arte, musicólogo e agitador cultural, Mário de Andrade (1893-1945) é hoje considerado a figura mais representativa da Semana de Arte Moderna — evento que renovou a literatura e as artes plásticas brasileiras — realizada em São Paulo no ano de 1922. Contribuíram para isso a permanente atualidade de sua obra e a profunda identificação do autor de Macunaíma, “o herói sem nenhum caráter”, com a alma nacional. O país inteiro admira o seu prodígio intelectual. Entretanto, poucos lembram que Mário de Andrade, nascido há 120 anos, revelava à mesa o mesmo interesse demonstrado pelas fontes autênticas da cultura e realidade brasileiras.As viagens que empreendeu a Minas Gerais, Amazonas e ao Nordeste do Brasil, entre 1924 e 1929, resultaram no livro O Turista Aprendiz, publicado após sua morte. Seu conteúdo mostra o extremo apreço do autor pelos ingredientes e receitas nacionais. Em Salvador, foi à Petisqueira Baiana, encantou-se com o vatapá e a moqueca de peixe. Provou até efó — prato à base de camarão seco, pimenta-malagueta, alho, cebola, azeite de dendê, língua-de-vaca ou taioba. Achou-o “gostosíssimo”, mas pesado. Brincou com suas consequências digestivas: “O efó, assim preparado, é o único prato masoquista que conheço. Você come e tem a sensação convulsionante de estar sendo comido por dentro”. Em Belém, apreciou o pato ao tucupi e o leitão com farinha d’água. Apaixonou-se pelas  frutas e sobremesas da região. Saboreou compota de bacuri e sorvete de murici, no qual identificou “gosto de queijo parmesão ralado com açúcar”.Mário de Andrade declarou sem rodeios a Joel Silveira, na reportagem que o grande jornalista brasileiro publicou na Revista Acadêmica (Rio de Janeiro, 1939): “Gosto de comer e beber bem”. Apreciava sequilhos. “Na sua cabeceira havia sempre uma latinha cheia deles”, contou o bibliógrafo Rubens Borba de Moraes, no livro Lembrança de Mário de Andrade – 7 Cartas (Editora Digita, São Paulo, 1979). Amava sobremesas. Nunca faltou doce de batata-doce, nem de abóbora, na casa da Rua Lopes Chaves nº 546, bairro da Barra Funda, onde morava com a mãe Maria Luísa, dona Mariquinha, a tia Ana Francisca, dona Nhanhã. Ali, viveu a maior parte da vida. Ali, morreu.

Thereza e o irmão Carlos Augusto Andrade Camargo, sobrinhos e herdeiros de Mário de Andrade, guardam uma relíquia: o caderninho de receitas com 34 páginas e 131 sobremesas da família. Foram escritas por duas letras femininas, provavelmente de dona Mariquinha e dona Nhanhã. Reuniam os doces favoritos da família. A mãe e a tia do escritor eram exímias doceiras. Preparavam empadinhas de palmito, camarão e frango, sonhos de massa cozida, sequilhos, amanteigados, biscoitinhos de polvilho, bons-bocados, broas de coco, pastéis de nata e outras delícias brasileiras. Os doces de Dona Mariquinha e Dona Nhanhã contavam com inúmeros admiradores, até porque eram vendidos para batizados, aniversários, noivados e casamentos.

Mário de Andrade recebia grupos de amigos em casa. Eram escritores, pintores, escultores etc. Discutiam literatura e arte, recitavam poesia ou participavam de saraus animados pelo piano do anfitrião. Além de comerem doces brasileiros, bebiam licores caseiros e aguardentes de cana. Mário de Andrade apreciava cachaça pernambucana Monjopina, destilada em alambique de barro.

Quando convidava os amigos para  almoçar ou jantar, eles iam à cozinha para cumprimentar Tana — ou Bastiana ou Sebastiana Campos. Era quase obrigatório. A cozinheira trabalhou quase meio século com a família do escritor, até morrer na década de 1970. A lembrança de seus pratos até hoje provoca suspiros. Mário de Andrade adorava os pastéis de Tana. O mesmo acontecia com suas empadinhas de palmito, camarão e frango, à base de manteiga, banha de porco e um pouco de água salgada. Um dia a cozinheira experimentou uma nova receita da massa. Mário de Andrade provou e achou dura. Foi à cozinha furioso. “Se eu jogar esta empadinha na parede ela não arrebenta”, disse. Ninguém preparava um bife na manteiga igual ao da Tana. Eram igualmente ótimas as suas tortas de palmito e frango. Ela fazia uma paçoca de carne imperdível. Desfiava um pedaço de lagarto, fritava e batia no pilão.
Mário de Andrade não cozinhava, mas sabia dar instruções à cozinheira sobre certos pratos.

No conto O Peru de Natal, do livro Contos Novos, relata o preparo dessa ave com detalhes de cozinheiro. Descreve com gula as duas farofas, “a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga”. A seguir, relata no mesmo tom a comilança: “A carne mansa, de um tecido muito tênue, boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquieta e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa-preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz”. O Peru de Natal é considerado pelos críticos um conto parcialmente autobiográfico. O personagem vive com a mãe viúva, uma tia e a irmã, em condições semelhantes à do escritor. Brasileiríssimos, como os que lhe deram inspiração.

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