O belo e a fera

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A chef Janaína Rueda, a Dona Onça, e o artista plástico Flávio Rossi posando ao lado de um quadro dele

Apaixonada pelas artes plásticas, a chef paulistana Janaína Rueda, a Dona Onça, transformou obras do artista plástico Flávio Rossi em pratos de alta culinária

Por Cláudio Fragata
Foto: Antônio Rodrigues

Quem entra no Bar da Dona Onça, instalado na galeria do célebre Edifício Copan, no centro de São Paulo, vê logo de cara um grande painel colorido. Nele está representado o casal de chefs Janaína e Jefferson Rueda. Ele aparece sorridente e bem humorado, como de fato é. Ela, que é a dona do bar, foi retratada como uma simpática onça, com direito a presas pontudas, garras afiadas e muitas pintinhas, numa referência ao temperamento explosivo que deu origem ao seu apelido. “Eu e Jefferson não achamos nada mais parecido com a gente do que esse quadro”, garante ela. O autor da tela, de 2,15 metros de comprimento por 1,80 metro de altura, é o artista plástico Flávio Rossi, que, além de dar identidade visual a outros restaurantes pelos quais o casal passou — como foi o caso do La Tomate Bistronomique —, já se tornou “de casa” e conhece os dois muito bem.

Quanto a ser retratada como onça, Janaína acha que é a coisa mais natural do mundo. O apelido se tornou uma instituição, principalmente depois de virar o nome de seu bar. “Sou brava mesmo quando mexem comigo”, assume. “E naqueles dias, pelo amor de Deus, a braveza se agrava”. O codinome, ora vejam só, ela ganhou do próprio marido que, no começo do relacionamento, costumava desaparecer sem dizer onde ia e muito menos quando voltava. “Isso é uma coisa que me deixa muito brava”, acentua Janaína. Jefferson desconhecia então o perigo que corria. Um dia chegou em casa e encontrou as malas no corredor. “Desde então virei Dona Onça”, esclarece a chef.

Paulistana do bairro do Brás, Janaína é de uma alegria contagiante, apesar do apelido um tanto intimidador para os que não a conhecem de perto. Ela acredita que o DNA dos avós italianos e espanhóis tenha contribuído para o seu talento na cozinha. Embora seja um bar, o forte do Dona Onça não está nas bebidas, mas na culinária inspirada em pratos populares, o que já lhe valeu diversos prêmios na categoria “melhor cozinha de bar”. Um dos tops do cardápio é o mexidinho de arroz com carne moída, feijão, couve e farinha de mandioca, que vem coroado por um ovo frito. O prato nasceu da observação de como um cliente comia: “Ele vinha aqui todos os dias, pedia um PF e depois misturava todos os ingredientes com farinha”, conta Janaína. “Tive muita vontade de comer a mesma coisa. Comecei a preparar o mexido numa frigideira na hora do meu almoço, mas o resultado foi tão bom que ele passou para o menu.” Hoje, só perde para o picadinho de filé. Entusiasmado, um cliente italiano chegou a dizer que o prato era o risotto dos brasileiros.

Paulista de Campinas, Flávio Rossi se formou em artes plásticas pela PUC e logo começou a colaborar como ilustrador em publicações da Editora Abril e semanários como O Pasquim e Bundas. No começo de 2005, resolveu se profissionalizar como artista plástico e trocou os papéis pelas telas, mas sem perder o olhar para o cotidiano: “Um vendedor de cocadas que vejo na praia pode se tornar objeto de um quadro”, diz. “A solidão do ateliê já me levou até ao grafite porque tenho essa necessidade de estar presente na vida.” Ele vê nessa característica um elo de ligação entre o trabalho que faz e a culinária de Janaína: “Nossa fonte de criação está no dia a dia, no popular”. E dá como exemplo a maneira como a chef chegou ao seu famoso mexidinho, observando e respeitando o gosto do cliente.

Flávio também vê identidade entre os dois na brasilidade. Janaína dá ênfase à cozinha de boteco e usa ingredientes bem brasileiros. Ele diz que faz uma pintura marcadamente brasileira, bastante influenciada pelo tropicalismo de Caetano Veloso e Gilberto Gil: “Tanto ela quanto eu fazemos uma recodificação da linguagem popular”. Janaína concorda, mas ressalva que não se limita aos pratos nacionais. Trouxe de suas viagens pela Europa o arroz de sardinhas, de Portugal, e o arroz caldoso com mexilhões, lulas e camarões, da Espanha: “Meu povo também é italiano, japonês, boliviano, de todo lugar, porque São Paulo é uma cidade cosmopolita”, explica. “Por isso instalei uma sala de massas artesanais no bar e, ao lado de um dal plin de carne servido no próprio molho, tenho no cardápio o stinco de leitoa ou o frango com quiabo dos caipiras”. Acostumado a desafios, Flávio aceitou na hora o convite da GOSTO para participar desta seção. Era a primeira vez que suas obras teriam uma releitura gastronômica e isso o deixou curioso. Janaína, por seu lado, quando soube quem seria seu parceiro, respondeu com um e-mail tão direto quanto entusiasmado, escrito assim mesmo: “Tô muito felizzz! Amo o trabalho de Flávio Rossi, amigo querido! Bjosss!”.

O encontro da dupla aconteceu no Bar da Dona Onça. Flávio veio acompanhado da mulher, a cantora Ana Cañas. Ela pediu camarão com chuchu, ele um croc milanesa, filé empanado com farinha de rosca grossa e crocante, que no menu vem acompanhado da observação entre parêntesis: “Você só come aqui!”. Enquanto almoçava, Flávio mostrava para Janaína imagens de suas obras num tablet. Depois de trocarem informações e estudarem várias possibilidades, ela escolheu o acrílico sobre tela Champagne como inspiração para a entrada Foie gras com algodão doce e pétalas de rosas. O beijo grandiloquente do quadro Paixão, também em acrílico, fez com que ela pensasse de imediato na Língua de boi ao molho de framboesas como prato principal. Já O Cocadeiro foi o ponto de partida para a sobremesa Cocada azul.

Claro que a identificação com o trabalho de Flávio Rossi contribuiu para que a Janaína chegasse a pratos que traduzem tão bem o universo do artista. Ela conta que, desde a inauguração do Bar da Dona Onça, em 2008, queria uma obra de Flávio dominando o ambiente: “Eu me identifico de verdade com a pintura que ele faz”, afirma. “Não sou aquele tipo de pessoa que diz que adora determinado pintor, mas não tem quadros dele em casa”. Janaína, inclusive, já deixou bem avisado que no apartamento que ela e o marido acabam de adquirir e para onde pretendem se mudar em breve há uma parede enorme esperando por uma intervenção do artista.

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