O bode expiatório

0
964

Entenda como, em que circunstâncias e por que a corda rebenta sempre no lado mais fraco

Por Lecticia Cavalcanti
Ilustração: Pedro Hamdan

Deu nos jornais. Um bode guardava a empresa que recebia verbas de famoso (e agora muito poderoso) deputado federal. Vigia barato e bom, sobretudo por ser incapaz de dar depoimentos comprometedores. Galeguinho, assim era conhecido, por ser um bode branco. Pior para ele — que, depois do escândalo, foi despejado. E passou a viver nas ruas, da caridade alheia. A corda rebenta sempre no lado mais fraco. As manchetes, previsíveis, diziam ser ele um bode expiatório. E os leitores perguntam por quê? Respondo no estilo de uma velha quadrinha nordestina: “O caso eu conto/ Como o caso foi/ Porque homem é homem/ E boi é boi”. Começando por lembrar que os primeiros registros desse animal remontam ao Cáucaso e às montanhas da antiga Pérsia (hoje Irã). Foram ganhando prestígio, com o tempo. Na Grécia, tanto tinham que viviam no Olimpo. Tanngnjóstr e Tanngrisnir foram bodes escolhidos por Thor, deus do trovão e dos raios, para puxar sua carruagem. Sem contar que Zeus, divindade suprema, foi amamentado por uma cabra — Amaltéia.

Como se fosse pouco, em Qumran (Jordânia), outro bode ficou famoso por pastar entre velhos papéis. Com seus pastores encontrando o pobre animal perdido junto a manuscritos (até então desconhecidos) do “Antigo Testamento”. Mas a história do bode expiatório remonta, em verdade, ao Levítico (16, 1-23): “Aarão trará o bode vivo. Imporá as duas mãos sobre a sua cabeça e confessará sobre ele todas as iniquidades dos israelitas, todas as suas desobediências, todos os seus pecados”. Dando-se que os hebreus, em dias específicos, descarregavam suas iras sobre um bode. Para expiar os pecados do povo de Israel. Reproduzindo-se, o ritual, todos os anos.

Mas a fama do bicho não se restringe ao passado. No Nordeste brasileiro, por exemplo, ela é enorme: por seu sabor peculiar; por ser pouco exigente quanto à alimentação; e por se adaptar bem a qualquer clima, resistindo inclusive às grandes secas. “No sertão jumento não morre de fome nem bode de sede”, disse o mestre Câmara Cascudo (em História da Alimentação no Brasil). O gosto por essa carne, entre nós, foi herança do colonizador. “Comem os lusitanos principalmente carne de cabra”, observou o historiador grego Estrabão (63 a.C — 24 d.C.), autor da monumental Geografia. Em Portugal, hoje como antes, é preparado de muitas maneiras — ensopado de cabrito, cabrito estonado, chanfana (cozido no vinho), grelhado na brasa, recheado à moda de Barril de Alva, à moda de Monção, à moda de Oleiros, à Tramontana (coxa assada em vinho branco, hortelã e outros temperos, de pois assada e empanada em farinha de pão, voltando ao forno para dourar).

Por aqui, aos poucos, foram surgindo maneiras novas de preparar. Quase sempre assado, ensopado ou guisado. Além de estar presente na buchada, claro, que tem origem no maranho português. A diferença é que, pelo Velho Mundo, faz-se mais com porco; enquanto, no Brasil, usamos carneiro, ovelha ou cabrito. Esse cabrito, só para lembrar, é filho novo do bode e da cabra. E deve ser abatido antes dos cinco meses, dado o forte cheiro que desenvolve a partir de então. Cabra, também só para lembrar, é o primeiro animal leiteiro conhecido pelo homem. E produz, proporcionalmente a seu tamanho, muito mais leite que qualquer outro.

Um leite especial, usado inclusive na fabricação de queijos finos — entre eles Los Vasques (Espanha), Limburgse (Holanda), Hardaneger (Noruega), Crottin de Chavignol e Camembert (França). Por tudo, então, já se vê que os noticiários não trataram bem nosso bode Galeguinho. E deveriam. Na Roma antiga, Incitatus, o cavalo preferido de Calígula, foi senador. Em outubro de 1959, um rinoceronte do zoológico de São Paulo, Cacareco, teve quase 100 mil votos para o cargo de vereador. No Brasil de Tiririca, se brincar, nosso Galeguinho pode acabar eleito a qualquer coisa. Pobres de nós. Deus nos proteja. E viva a democracia brasileira!