O cozinheiro do trivial

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O escritor Rubem Braga

O cronista capixaba Rubem Braga fazia do dia a dia a fonte de suas crônicas e, guloso assumido, também de descobertas gastronômicas

Por Cláudio Fragata

Cronistas estão sempre de olho no que acontece ao seu redor. Os fatos do dia a dia são a matéria-prima do que escrevem. O capixaba Rubem Braga foi um mestre dessa arte. Além de comentários e reflexões, em sua receita de crônica cabiam também altas doses de humor e poesia. Foi assim que deu ao gênero o status de alta literatura e se transformou em escritor consagrado sem jamais ter publicado contos, novelas ou romances. Para ele, escrever crônicas era “dar um sentido solene às palavras de todo dia”. Em um poema escrito à guisa de brincadeira, ele mesmo cunhou uma expressão que serve à perfeição para definir seu trabalho: “Quando era rapazinho / Queria ser intelectual / Mas hoje sou jornalista / Que faço eu no jornal? / Sou cozinheiro do trivial!”. O mesmo olhar atento que tinha para o cotidiano quando escrevia, reservava também para as coisas do estômago. Mais do que atento: um olhar de eterno guloso.

Rubem foi a personificação do epíteto “tem o olho maior do que a barriga”. Tinha mesmo. Seja como menino de Cachoeiro de Itapemirim, onde nasceu a 12 de janeiro de 1913, seja como embaixador do Brasil no Marrocos, na década de 1960, jamais se recusou a experimentar tudo o que via pela frente. Adorava carnes, massas, panquecas, pão de queijo e pães em geral. Não conseguia passar pela feira hippie da Praça General Osório, em Ipanema, perto de sua casa, no Rio de Janeiro, sem provar os pastéis vendidos ali. Pouco se animava com saladas. Tomate só na forma de molho. Em compensação, gostava muito de frutas, em especial, de jabuticaba.

Formigão assumido, regalava-se com pudim de leite, marrom glacê, arroz doce, bolos, sorvetes e chocolates. Não gostava de abóbora e achava um desperdício caso a cozinheira juntasse este ingrediente ao coco ralado para fazer doce — de cocada sim, ele gostava. Quando garoto, a sobremesa preferida era melado com aipim e, por toda a vida, esse foi o sabor da infância. Mas guardou também a lembrança do jenipapo assado com açúcar preto, da sopa de fruta-pão e da pamonha enrolada em folha de bananeira, delícias do tempo vivido em Cachoeiro. Já adulto, jamais trocou o bolo de fubá feito pela irmã caçula, Gracinha, por nenhum outro.

“Rubem era um grande apreciador da boa mesa”, lembra a nora Maria do Carmo, casada com Roberto Braga, único filho do escritor. “Tinha verdadeiro prazer em comer, do menu mais simples ao mais sofisticado, desde que muitíssimo bem preparado”. Ela sabe do que está falando porque, uma vez por semana, religiosamente, recebia o sogro para jantar em sua casa. Rubem sempre telefonava antes para lembrá-la de não colocar alho e cebola na comida. Ele tinha uma estranha relação com esses dois ingredientes: se soubesse que estavam presentes, não comia; e, caso não fossem usados, não comia do mesmo modo, achava a comida sem sabor. “Foi a irmã dele, Yedda, quem me ensinou a bater o alho e a cebola no liquidificador”, conta Maria do Carmo. “Ele só não podia saber disso”.

Apesar do paladar eclético à mesa, Rubem gostava especialmente dos peixes e frutos do mar, preparados das mais variadas formas. Mas no topo da preferência, como não podia deixar de ser, estava a moqueca capixaba, feita na panela de barro, como de rigueur. Não que desgostasse do prato segundo a receita baiana ou de qualquer outra parte do país. Tanto que sua vida nunca mais foi a mesma depois de provar a Moqueca carioca preparada por José Hugo Celidônio, chef e proprietário do restaurante Gourmet, em Ipanema. Voltou lá muitas vezes para degustá-la, fosse sozinho, em companhia de amigos ou de alguma namorada — depois de se desquitar da mulher, Zora Seljan, ele nunca mais se casou. Até o final da vida, foi um fã tão notório do prato que, no seu próximo livro, Celidônio irá rebatizar a receita da moqueca com o nome do escritor.

A casa em que Rubem Braga cresceu, em Cachoeiro de Itapemirim, foi tombada como patrimônio histórico e hoje abriga o espaço cultural A Casa dos Braga. É um sobrado que resistiu ao tempo e no qual a copa e a cozinha sempre tiveram lugar de destaque. O biógrafo Marco Antonio de Carvalho, autor do excelente Rubem Braga, um cigano fazendeiro do ar (Editora Globo, São Paulo, 2007) descreve com detalhes esses dois ambientes. Na copa ficava o guarda-comida, com xícaras penduradas em ganchos e portas de tela para proteger os alimentos dispostos nas prateleiras, que iam de bolos a roscas doces. Na cozinha, o fogão a lenha, de onde saíam as refeições diárias: “arroz, feijão, verduras, legumes, frango, macarrão com molho de tomate e queijo ralado”, escreveu Carvalho. “Carne de porco ou de vaca, torresmo, bife com batata frita, o prato dominical. As batatas eram cozidas em água e sal e então passadas por um fi o de azeite, como era o gosto do pai de origem portuguesa”. Certamente, essa foi a matriz do interesse do cronista pela boa mesa.

Enquanto exerceu o cargo de embaixador no Marrocos, de 1961 a 1963, Rubem engordou bastante. Sempre às voltas com jantares protocolares na embaixada e com um cozinheiro particular em casa, levou a vida que todo guloso pediria a Deus. Apreciador incondicional da feijoada — era assíduo frequentador da tradicional feijoada domingueira na casa do escritor Aníbal Machado —, chegou a plantar feijão preto em terras marroquinas, mas a colheita não foi das melhores. “Por questão de diferenças de solo, o feijão saiu branco, para sua decepção”, conta Maria do Carmo. Alfabetizado em casa, Rubem Braga começou a escrever muito cedo. Sua primeira “crônica” foi publicada no jornalzinho do Colégio Pedro Palácios, em Cachoeiro, onde fez o primário. Era escrita com um vocabulário tão incomum para um garoto de 13 anos que o editor, por via das dúvidas, preferiu colocar aspas no texto para se garantir de possíveis acusações de cópia ou de plágio.

A partir de 1928, Rubem colaborou regularmente com o Correio do Sul, jornal fundado por seus irmãos em sua cidade natal. Daí em diante, escrever crônicas passou a ser seu ofício e são publicadas em importantes jornais do país, como o Correio da Manhã, Diário de São Paulo, Jornal do Brasil e O Estado de São Paulo, e nas revistas Senhor, Cruzeiro e Manchete, entre outras, e até no semanário de humor O Pasquim. Escritas para ter a duração efêmera da leitura de jornal, ganharam eternidade depois de reunidas em livros que se tornaram clássicos da literatura brasileira, como A Borboleta Amarela, Ai de ti, Copacabana, A Traição das Elegantes e 200 Crônicas Escolhidas, todos publicados atualmente pelo Grupo Record.

Rubem morreu em 19 de dezembro de 1990, vitimado por um câncer de laringe. Suas cinzas foram lançadas na correnteza do rio Itapemirim por seu filho Roberto e a nora Maria do Carmo.

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