O craque que virou chocolate – Leônidas da Silva

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Há 100 anos nascia o atacante Leônidas da Silva, que foi homenageado pela Lacta com o Diamante Negro
Por Luiz Maciel 
Há 100 anos nascia Leônidas da Silva. A bola vem alta, mas encontra o atacante um pouco adiantado, sem chance para o cabeceio. Não há muito o que fazer. O zagueiro marcador, posicionado de frente para a jogada, terá toda a vantagem para alcançar a pelota e despachá-la para longe de sua meta. A não ser, claro, que seu adversário seja um craque capaz de realizar o lance mais bonito e difícil do futebol: o chute de bicicleta, que exige do jogador artes de bailarino para jogar as pernas para o alto, de costas para o gol, e interceptar a bola no momento exato para mandá-la para as redes. Basta dizer que Pelé, em sua extraordinária carreira de 1.282 gols, só marcou cinco vezes assim. Nesse particular, o rei de fato foi outro brasileiro, Leônidas da Silva, o Diamante Negro, para quem executar essas pedaladas acrobáticas era tão natural quanto os dribles secos que ele costumava dar no meio da área, seguidos por chutes certeiros, de direita ou de esquerda. “O Leônidas era até mais perigoso de costas do que de frente, porque ninguém sabia o que ele ia inventar”, dizia o goleiro Oberdan Cattani, do Palmeiras, que o enfrentou várias vezes nos anos 1940. Leônidas brilhou numa época em que ainda não havia televisão no Brasil, e o futebol mal começava a se profissionalizar. Quase não existem registros do que ele fez nos gramados — restam algumas cenas precárias, em branco e preto, de suas atuações na Copa do Mundo de 1938, na França, na qual o Brasil terminou em terceiro lugar e despontou como uma potência emergente nesse esporte. Mas material para alimentar a lenda do mulato franzino que atormentava as defesas adversárias e se impunha como astro quando o preconceito racial ainda fechava as portas de muitos clubes para negros — esse, sim, há de sobra.“Pode parecer exagero, mas todos os que o viram Leônidas jogar são unânimes em afirmar que, se ele tivesse jogado no ‘tempo da televisão’, a história do nosso futebol poderia ter sido escrita de maneira diferente”, relata André Ribeiro, na biografia que escreveu sobre o Diamante Negro. José Roberto Torero, no prefácio desse mesmo livro, coloca Leônidas no patamar dos artistas e inventores, e diz que ele foi divino mesmo tendo cometido todos os sete pecados capitais: “Não negava sua soberba, assumiu a cobiça quando defendeu a Seleção por dinheiro, tinha uma justa fama de luxurioso, a ira era sua companheira desde os tempos de menino, confessou ter inveja, possuía uma insaciável ‘gula’ de gols e, por fim, tinha tanta preguiça que em sua principal jogada ele deitava no ar”.Como a maioria dos grandes jogadores brasileiros, Leônidas, nascido em 1913 no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, tinha origem humilde. Seu pai, Manoel Nunes da Silva, era um marinheiro português e sua mãe, Maria, uma empregada doméstica. Aos nove anos perdeu o pai e foi adotado pelos patrões da mãe, Mário e Alexina de Sá. Mostrava tanta habilidade com a bola nos pés que ingressou no juvenil do São Cristóvão com apenas 13 anos. Mas não demorou a trocar de clube, seduzido pelos prêmios oferecidos — ainda “por baixo do pano” — por agremiações como a Havanesa, o Barroso, o Sul-Americano e o Sírio-Libanês. Aos 18 anos, foi para o Bonsucesso ganhando 400 mil réis por mês mais dois ternos e dois pares de sapato, a título de luvas. No ano seguinte, chegou à Seleção Brasileira. À medida que fazia gols e era reconhecido e bajulado pelos torcedores, Leônidas também aprendeu a negociar contratos melhores e a dar valor à elegância e aos prazeres da vida. Usava ternos bem cortados e estava sempre rodeado de amigos e mulheres bonitas. Ao preconceito racial que lhe fechava algumas portas — inclusive a do Fluminense, o seu time do coração na infância — respondia com o atrevimento de quem tinha a exata medida da própria importância. Costumava ser o último a se apresentar nas concentrações e nas viagens, para desespero dos técnicos. E era, sobretudo, um grande apreciador da boa mesa.
Leônidas gostava de pratos tradicionais, mas fazia questão de que fossem muito bem preparados. Nada o deixava mais feliz nos tempos de moleque do que a feijoada ou a moqueca capixaba (o craque não admitia o uso de azeite de Leônidas brilhou numa época em que ainda não havia televisão no Brasil, e o futebol mal começava a se profissionalizar. Quase não existem registros do que ele fez nos gramados — restam algumas cenas precárias, em branco e preto, de suas atuações na Copa do Mundo de 1938, na França, na qual o Brasil terminou em terceiro lugar e despontou como uma potência emergente nesse esporte. Mas material para alimentar a lenda do mulato franzino que atormentava as defesas adversárias e se impunha como astro quando o preconceito racial ainda fechava as portas de muitos clubes para negros — esse, sim, há de sobra.

“Pode parecer exagero, mas todos os que o viram Leônidas jogar são unânimes em afirmar que, se ele tivesse jogado no ‘tempo da televisão’, a história do nosso futebol poderia ter sido escrita de maneira diferente”, relata André Ribeiro, na biografia que escreveu sobre o Diamante Negro. José Roberto Torero, no prefácio desse mesmo livro, coloca Leônidas no patamar dos artistas e inventores, e diz que ele foi divino mesmo tendo cometido todos os sete pecados capitais: “Não negava sua soberba, assumiu a cobiça quando defendeu a Seleção por dinheiro, tinha uma justa fama de luxurioso, a ira era sua companheira desde os tempos de menino, confessou ter inveja, possuía uma insaciável ‘gula’ de gols e, por fim, tinha tanta preguiça que em sua principal jogada ele deitava no ar”.

Como a maioria dos grandes jogadores brasileiros, Leônidas, nascido em 1913 no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, tinha origem humilde. Seu pai, Manoel Nunes da Silva, era um marinheiro português e sua mãe, Maria, uma empregada doméstica. Aos nove anos perdeu o pai e foi adotado pelos patrões da mãe, Mário e Alexina de Sá. Mostrava tanta habilidade com a bola nos pés que ingressou no juvenil do São Cristóvão com apenas 13 anos. Mas não demorou a trocar de clube, seduzido pelos prêmios oferecidos — ainda “por baixo do pano” — por agremiações como a Havanesa, o Barroso, o Sul-Americano e o Sírio-Libanês. Aos 18 anos, foi para o Bonsucesso ganhando 400 mil réis por mês mais dois ternos e dois pares de sapato, a título de luvas. No ano seguinte, chegou à Seleção Brasileira. À medida que fazia gols e era reconhecido e bajulado pelos torcedores, Leônidas também aprendeu a negociar contratos melhores e a dar valor à elegância e aos prazeres da vida. Usava ternos bem cortados e estava sempre rodeado de amigos e mulheres bonitas. Ao preconceito racial que lhe fechava algumas portas — inclusive a do Fluminense, o seu time do coração na infância — respondia com o atrevimento de quem tinha a exata medida da própria importância. Costumava ser o último a se apresentar nas concentrações e nas viagens, para desespero dos técnicos. E era, sobretudo, um grande apreciador da boa mesa.
Leônidas gostava de pratos tradicionais, mas fazia questão de que fossem muito bem preparados. Nada o deixava mais feliz nos tempos de moleque do que a feijoada ou a moqueca capixaba (o craque não admitia o uso de azeite de dendê e leite de coco no guisado de peixe) que sua mãe fazia, principalmente se fossem arrematadas por algum doce à base de leite ou de ovos, como o pudim de leite condensado, os ovos nevados e o espera-marido. Quando se mudou para São Paulo, em 1942, comprado pelo São Paulo F. C. ao Flamengo por 200 contos de réis, na maior transação do futebol sul-americano até então, a boa oferta de restaurantes paulistanos foi fundamental para a rápida adaptação de Leônidas à cidade.

Ele não tinha um prato predileto, mas vários. Adorava comer massas no Carlino, churrasco no Dinho’s Place, receitas árabes no antigo Bambi, pizza na Castelões, bacalhau no Rei do Bacalhau, frutos do mar no Mexilhão e pratos alemães no Windhuk. “Era uma pessoa maravilhosa, que tratava a todos muito bem. Estava sempre com a mulher, D. Albertina, e pedia um contrafilé na brasa para ele e um filé para ela”, conta Fuad Zegaib, proprietário do Dinho’s. “Ele vinha especialmente para comer o nosso camarão na moranga, que adorava. Dividia o prato com D. Albertina e acompanhava com suco ou refrigerante”, lembra o mâitre José Arlino Coelho, do Mexilhão.

Embora tenha sido o craque número 1 do país por duas décadas, Leônidas teve a primeira metade de sua carreira, vivida nos anos 1930 no Rio de Janeiro, marcada por altos e baixos. Brigou com técnicos que queriam colocá-lo para jogar sem condições, jogou duro com cartolas nas negociações de contrato e chegou até a passar dez meses na prisão por conta de um certificado militar falso, providenciado por um sargento amigo. Mesmo assim, foi campeão carioca por três clubes diferentes (Vasco da Gama, em 1934, Botafogo, em 1935, e Flamengo, em 1939) e eleito o melhor jogador da Copa do Mundo de 1938, da qual foi artilheiro com sete gols — um deles marcado descalço, contra a Polônia, antes que lhe providenciassem uma nova chuteira para substituir a que tivera o solado descolado. Para nossa sorte, o juiz validou o gol — quem sabe para compensar um gol legítimo anotado por Leônidas de bicicleta, que o árbitro, por desconhecer a jogada, decidiu anular.

Leônidas voltou da Copa consagrado como o melhor jogador do mundo e com o apelido de Diamante Negro, dado pelo jornalista Raymond Thourmagem, da revista francesa Paris Match. Na década seguinte, prejudicado pelo cancelamento das Copas de 1942 e de 1946, por causa da Segunda Guerra Mundial, o craque ficou restrito aos gramados nacionais. Mesmo assim, fez história com os cinco títulos paulistas conquistados pelo São Paulo nesse período. A fábrica de chocolates Lacta transformou seu novo apelido — o outro era Homem-Borracha — em marca de um de seus produtos mais famosos, à venda até hoje, feito com massa de cacau, leite em pó, mel, castanha de caju e outros ingredientes. Leônidas, um declarado fã de doces, ficou confortável no papel de sinônimo de chocolate, assim como se deu muito bem na função de comentarista de futebol, assumida ao pendurar as chuteiras. Pena que a diabetes tenha lhe roubado o prazer das sobremesas preferidas e, mais tarde, o Mal de Alzheimer apagasse progressivamente de sua mente as glórias alcançadas dentro de campo. Morto em janeiro de 2004, desmemoriado e irreconhecível, completaria 100 anos em 6 de setembro deste ano. Sua arte de jogador-bailarino, porém, faz parte da história e jamais será esquecida.