O milagre das madeleines

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O escritor francês Marcel Proust teve um clarão mental ao saborear um desses bolinhos doces

Por J. A. Dias Lopes
Foto: Reinaldo Mandacaru

Ao levar à boca uma madeleine — o bolinho de farinha de trigo, manteiga, ovo e açúcar, aromatizado com limão ou laranja, originalmente em forma de concha de vieira —, o escritor francês Marcel Proust (1871-1922) foi acometido de um clarão mental. Tinha sido oferecida pela mãe e molhada no chá que ela também lhe dera. Proust estava com 39 anos de idade. Veio-lhe à mente não apenas a lembrança do passado, mas a sensação de resgatar a própria infância. A madeleine apresentava o mesmo sabor da que sua tia Léonine lhe dava no passado, todo o domingo de manhã.

Proust recompôs as principais lembranças da vida e se pôs a escrever Em Busca do Tempo Perdido. Narrada na primeira pessoa, essa obra-prima da literatura combina suas recordações com imaginação criadora, em uma fusão tão íntima que não se consegue apartar uma da outra. Compõe-se de sete romances passados no interior da França e na Paris refinada do começo do século 20. O genial escritor relata o prodígio da madeleine no primeiro volume. O bolinho já existia há tempos, mas sem o envolvimento com Proust certamente não alcançaria tanta fama.

Já se atribuiu a invenção da madeleine ao confeiteiro do príncipe Talleyrand-Périgord (1754- 1838), Antonin Carême (1784-1833), considerado o maior chef de todos os tempos; e a uma mulher chamada Madeleine, que no século 18 fornecia o bolinho aos peregrinos do Caminho de Santiago, cujo símbolo é justamente uma concha de vieira. Hoje, os pesquisadores tendem a acreditar que surgiu para deliciar Stanislas Leszczynski, rei deposto da Polônia, a quem o genro Luís XV, rei da França, empenhado em fazê-lo esquecer a perda do trono, concedeu-lhe o ducado da Lorena.

Em 1755, uma jovem empregada da marquesa Perrotin de Baumont teria preparado a receita dos bolinhos da avó para um banquete em homenagem a Stanislas, na Lorena. O duque adorou e quis conhecer a autora, perguntando-lhe o nome, onde nascera e como se chamava a novidade. Ela disse ser Madeleine Paulmier e contou ter nascido em Commercy, perto de Meuse, na Lorena, acrescentando que a especialidade ainda não fora batizada. Stanislas agradeceu o bolinho fazendo uma homenagem à jovem: “Vai se chamar madeleine de Commercy”. Até a morte do duque de Lorena, em 1766, a receita teria permanecido secreta.

Segundo o historiador francês Charles Dumont, as madeleines de Commercy só começaram a fazer sucesso na França em meados do século 19, com a inauguração da estrada de ferro que passa na cidade. Cada vez que o trem parava ali, os passageiros eram abordados por vendedoras ambulantes. Todas ofereciam madeleines. Como a escala era breve, gritavam sem parar o nome da especialidade e de seu respectivo produtor, pois havia pouco tempo para fechar negócio. O show da gare durou até a deflagração da Segunda Guerra Mundial, em 1939, quando o horroroso conflito militar fez a Europa perder a graça. Hoje, há madeleines no mundo inteiro, de diferentes tipos.