O sabor da tanajura

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Desenho de uma formiga tanajura com fundo amarelo e laranja

Os índios ensinaram a saborear a mais popular das formigas

Por Lecticia Cavalcanti
Ilustração: Pedro Hamdan

Nossos índios tinham cardápio simples e variado. Saudável também. Alimentavam-se quando sentiam fome. E aproveitavam tudo quanto a terra lhes oferecia. Viviam da caça: cágados, caititus, cobras, gambás, jabutis, jacarés, jaguatiricas, lagartixas, lagartos, mocós, pacas, porcos-do-mato, preguiças, queixadas, tamanduás, tartarugas, tatus, timbus. Apreciavam aves: acauã, araponga, arara, canindé, curió, graúna, jaçanã, jacu, jandaia, macucaguá, maguari, maracanã, mutum, nhandu, patativa, paturi, tabuiaiá, tuiuiu. Galinhas não, que delas tiveram sempre medo, desde quando as conheceram por mãos portuguesas. E peixes muitos, com nomes que ainda hoje permanecem: baiacu, beijupirá, camurim, caramuru, curimã, jaú, lambari, piaba, piranha, parati, saúna, surubim, tambaqui, traíra, tucunaré. Além de camarão, caranguejo, lagosta, mexilhão, molusco, ostra, sernambi e pitu, para eles o melhor de todos os crustáceos.

Mas gostavam sobretudo de insetos: besouros, cupins amarelos, gafanhotos, larvas, sararás, tacuras, tacurandas, tapurus. Apreciavam, em especial, uma formiga saúva-preta, grande, com asas e abdome bem desenvolvido, que preparavam assando no fogo e misturando com farinha de mandioca — a tanajura (tanayu’ra).

Bom lembrar que essa formiga (há dez espécies dela no Brasil) habita o continente americano (do centro da Argentina ao sul dos Estados Unidos) há 50 milhões de anos. Formigueiros adultos abrigam até sete milhões de indivíduos morfologicamente diferentes, em uma estrutura social muito bem definida: fêmeas (içás ou tanajuras, propriamente ditas), maiores e mais pesadas, futuras rainhas que formarão novos ninhos; machos (bitus), a quem cabe só fecundar as fêmeas; e operárias, menores, que constituem a grande maioria do formigueiro. De acordo com seu tamanho, por sua vez, essas operárias se dividem em soldados (com mais corpo), que defendem o formigueiro; cortadeiras (médias), que cortam e transportam as folhas; e operárias, formadas por generalistas e jardineiras (bem pequenas), que cuidam da alimentação das larvas e da retirada de material que não é aproveitado (levado então para uma câmara de lixo). Bom lembrar que, ao contrário do que se pensa, formigas não comem folhas — que servem apenas como substrato para cultivo de um fungo, do qual se alimentam.

Pegar tanajura não é tarefa fácil. Requer muita paciência e aquele saber de que nos falava Camões, “de experiência feito”. Só é possível no início das chuvas de verão — período em que fêmeas e machos abandonam o ninho, em que foram gerados, e voam para o acasalamento. Segundo crença popular, para que baixem voo é necessário “pronunciar em certa toada a parlenda Tanajura cai, cai/ Pela vida de teu pai. Elas se desprendem e caem sobre a urupema, e em quantidade tal que imediatamente se enche do apetecido” — segundo Pereira da Costa, em Folclore Pernambucano (1909). Na verdade, essa tanajura, depois de fecundada no voo nupcial por três a oito machos, desce ao solo e perde suas asas — enquanto o macho morre, já sem função nessa insensata vida, em macabro ritual de amor. É nesse momento que acabam apanhadas. A cena é comum nas rodovias brasileiras (sobretudo no Nordeste), com gente de todo tipo olhando ora para a terra, ora para o céu, com baldes, latas e garrafas pet nas mãos.

Tanajura é servida sobretudo assada. Como tira-gosto. Neste caso, parece amendoim torrado — só que seu gosto picante é único. A parte comestível consiste no abdome, popularmente conhecido como a “bunda da tanajura”. Também é usada como remédio para amidalite, faringite, dor de garganta. Como afrodisíaco, também. E, não fosse pouco, ainda faz bem à vista — “Comer tanajura dispensa os óculos”, diz-se no Sertão. Por fim, resta lembrar que a palavra tanajura está presente em muitas expressões da nossa língua. “Bunda de tanajura” é ter bunda grande. “Cintura de tanajura”, diz-se de quem tem cintura fina. Sem contar que tanajura é também a mulher com quadril largo e nádegas muito desenvolvidas. O que faz prever, em um mundo cada vez mais mediático, que depois da Mulher Melancia, e da Mulher Jaca, logo veremos na televisão a “Mulher Tanajura”. Que Deus nos proteja.

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