On the (crushed) rocks

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Whisky, gelo picado e casquinha de limão. Fácil de preparar. Melhor ainda, de bebericar

Por Walterson Sardenberg Sº

Segundo muita gente boa, um dono de bar de respeito não instala aparelho de TV no ambiente. Além disso, nunca mistura whisky com energético. Jamais. Se algum insensato freguês — sim, bar tem freguês; quem tem cliente é dentista — quiser fazê-lo, que o faça por própria conta. Veja bem, ninguém está afirmando que não se deva misturar o whisky a outros líquidos. Em casos extremos, isso pode ser até recomendável.

Quando o ator Humphrey Bogart e o cineasta John Huston rodaram Uma Aventura na África, a mistura os salvou. Naquele ano de 1950, todo o elenco e equipe de produção do filme, instalado nos confins da atual República do Congo, penou com problemas digestivos por conta da água contaminada. Menos Bogart e Huston. “Nunca tivemos nada, provavelmente porque sempre misturávamos a água com uísque”, avaliou o diretor em sua autobiografia Um Livro Aberto (Editora LPM, Porto Alegre, 1980).

Bogart gostava de uns tragos e tinha uma frase antológica sobre o assunto — “A humanidade está três whiskies atrasada” —, embora bebesse mal. Entornado, empurrava os convivas na piscina em meio às festas de Hollywood. Apesar dessa chatice, os cineastas achavam que o ator ficava bem com um copo na mão — e uma pistola na gabardine. Assim ocorre no ótimo policial À Beira do Abismo (The Big Sleep), dirigido pelo eclético Howard Hawks em 1946. Um dos drinques do filme é o Scotch Mist, preparado com whisky, gelo picado e uma casca de limão-siciliano. Ninguém sabe patavina sobre a origem deste coquetel, mas o nome tem relação com um fenômeno climático da Grã-Bretanha. Scotch mist é expressão usada pelos britânicos para designar a junção do fog com a garoa, que sempre ousam prever. Ingleses se dedicam com afinco à previsão do tempo, aos papéis de parede e à jardinagem. Só no último caso a umidade ajuda.

Bogart e Lauren Bacall se conheceram em 1945, no set do filme anterior de Hawks, Uma Aventura da Martinica (To Have and Not). Foi a estreia da atriz no cinema. O diretor resolveu chamá-la tão logo sua própria mulher, Slim Keith, mostrou-lhe a belíssima loura em uma capa da revista Harper’s Bazaar. Mas Hawks quase desistiu de Bacall por causa da voz esganiçada. Quase. Aconselhou-a a ler em voz alta em ambiente aberto, num tom baixo e rouco. Bacall comprou um best seller da época sobre Jesus Cristo: The Robe (O Manto Sagrado), escrito por Lloyd Douglas. Todos os dias parava o seu carcomido Plymouth em um ponto ermo da estrada Mulholland Drive, nos arredores de Los Angeles, e treinava. “Se alguém passasse por ali, ia me achar candidata a um hospício”, diria mais tarde a atriz, morta em agosto de 2014, aos 89 anos de idade.

Em À Beira do Abismo, a voz de Bacall já estava afiada. Àquela altura, a artista tinha o melhor professor particular: Bogart, com quem a garota de 20 anos engatara um romance, que lhe daria dois filhos e duraria até a morte do ator. Antes de unir-se a ela, o quarentão teve de livrar-se da terceira mulher. Chamava-se Mayo Methot e estava sempre com uma garrafa na mão. A não ser quando o marido aparecia. Ao vê-lo, atirava a garrafa com todo o ímpeto na direção do coitado. Essa, sim, bebia pessimamente. Por sorte, tinha má pontaria.