Ousadia da maturidade

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Mesmo bem-sucedidos em suas profissões, o jornalista Enio Squeff e o arquiteto Júlio Valverde partiram para outra. Um tornou-se artista plástico. O outro, chef

Por Walterson Sardenberg Sº
Foto: António Rodrigues

Embora tenham nascido a 3.074 quilômetros de distância, Enio Squeff e Júlio Valverde são muito próximos. Dividem uma amizade de décadas. Repartem, também, os ideais, conquistas e frustações de uma geração ao mesmo tempo sofrida e libertária. Ambos têm 69 anos. Enio é de Porto Alegre. Júlio, de Salvador. Os dois se conheceram a meio caminho — em São Paulo. A mesma cidade onde, embora já bem estabelecidos cada um na sua profissão, decidiram, na maturidade, trocá-la por outra. Enio deixou o jornalismo pelas artes plásticas. Júlio, a arquitetura pelo comando da cozinha do próprio restaurante, o Soteropolitano. Quantos encaram esse desafio por vontade própria?

Enio chegou à capital paulista no ano turbulento de 1968. Começou como repórter na equipe inicial da revista Veja. Em paralelo, formou-se músico erudito. É clarinetista. Depois da Veja, trabalhou dez anos em O Estado de São Paulo, chegando a diretor do suplemento literário do jornal. Deixou o cargo pela função de editorialista no concorrente, a Folha de São Paulo. Certo dia, desenhava a esmo na redação quando o falecido Otávio Frias, pai, sócio-proprietário do jornal, esticou os olhos sobre o papel e comentou: “Você tem talento para isso. Por que não desenha para a Folha?”.

Dias depois, Enio já estava fazendo ilustrações a bico de pena para os artigos de Newton Rodrigues, na página 3. “Não parei mais”, conta. “Mudei de emprego, ainda na área de jornalismo, mas, todo dia, ao chegar em casa, continuava desenhando, madrugada adentro. Depois, passei para a aquarela, técnica que aprendi com o artista João Rossi.”

Ao trafegar pelo bairro de Vila Madalena, onde Enio morou por mais de três décadas, vários amigos se surpreendiam ao vê-lo pintando nas calçadas, mesmo a altas horas. “Não tinha nenhum medo, porque os malandros de rua me conheciam”, brinca. Ano a ano, foi dominando outras técnicas, como a gravura. Mas a maior parte de sua produção é formada pelos quadros a óleo, sempre figurativos, em um estilo que já foi chamado de neo-expressionista. Sua arte mereceu exposições em Cuba, na Alemanha e na Polônia, sem contar as inúmeras no Brasil. “Claro que gosto de escrever e de tocar clarinete. Mas o que faço com mais proficiência, e mais me agrada, é a pintura.” Desde o final da década de 1980, salvo um ou outro trabalho como crítico e escritor, Enio se dedica exclusivamente à sua paixão tardia. Diz ele: “Nunca mais passei um dia sequer sem pintar”.

O ano de 1968 também marcou a vida de Júlio Valverde. Foi quando entrou no curso de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia. Dois anos depois, fechou a matrícula e bandeou-se para a Europa. Viveu três verões entre Portugal, França e Alemanha. Chegou a trabalhar descarregando vagões de trem, mas gosta de lembrar de ter passado a maior parte do tempo “vagabundeando”. Acabou apreciando pratos e sabores que, mais tarde, iria aliar à culinária tradicional baiana, aprendida com a mãe, a avó e a empregada da avó, “todas elas grandes cozinheiras”. De volta à faculdade de Arquitetura, em Salvador, descobriu a vocação culinária. Júlio conta, nostálgico: “Todos os sábados cozinhava para os colegas em reuniões muito divertidas. Tomei gosto”.

Em geral, eram pratos da culinária do litoral, próprios do Recôncavo Baiano, sempre à base de peixes e frutos do mar. Já formado arquiteto, Júlio conseguiu emprego no sertão, onde teve contato mais estreito com outra vertente da cozinha da Bahia, aquela que prepara tatu, paca e, em especial, bode. Seu próximo endereço, nos anos 1980, foi São Paulo, onde trabalhou na Emplasa (Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano) e na Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental). Nos fins de semana, mais uma vez, cozinhava para os amigos. Eram tamanhos os elogios que animou-se. Aderiu ao chamado “plano de demissão voluntária” incentivada do governo do estado e, há 17 anos, abriu o Soteropolitano, um dos melhores restaurantes de cozinha regional da cidade.

“Encaro como uma extensão da minha casa”, diz Júlio, que prefere a palavra cozinheiro a chef, para definir o próprio ofício. “Faço comida baiana caseira.” Na realidade, sua culinária é fruto de um rigor extremado, a começar pela escolha dos ingredientes. Os camarões-rosas vêm de Santa Catarina. Os cinza, do Ceará e do Maranhão. O abadejo, importa do Chile. Tudo é servido em um ambiente em que se promovem debates, exposições, lançamentos de livros. “O Soteropolitano se tornou uma casa de cultura”, diz Júlio, que toca violão e compõe música popular com vários parceiros, incluindo os letristas Fabrício Corsaletti e Alexandre Barbosa. Ele emenda, rindo: “Às vezes, também banco o psicólogo para alguns clientes mais estressados”.

A pedido de GOSTO, Júlio escolheu dois quadros de Enio para reinterpretar na cozinha. Optou por Carnaval de Olinda e Receita para 56º Aniversário. No primeiro caso, achou por bem preparar uma galinha d’angola. “É um prato que se come com a alegria do Carnaval”, explica. “Por isso, completei com um pão colorido. Já a coalhada faz o contraste com a cor mais escura do molho pardo.” O outro quadro mostra uma vitrine com víveres e, portanto, a interpretação foi mais literal. “Utilizei peixe, polvo, camarões, cebolinhas, cebolas e arroz”, diz. “Preferi uma louça transparente por se tratar de uma vitrine.”

Claro que a sessão de fotos dos pratos terminou com um almoço animado. Nele, Enio explicou porque costuma pintar também a moldura dos quatros, tornando tudo um único organismo estético. “A obra acaba sugerindo uma saída”, diz. “Não se restringe à limitação da moldura.”

Enquanto se deliciava com a galinha ao molho pardo — prato que, claro, repetiu —, Enio revelou que, pela primeira vez, está trabalhando em parceria com Júlio.

Não, não se trata de uma peça musical, mas de um monumento, a ser instalado no Rio de Janeiro. Se tudo der certo, ainda antes da Copa do Mundo. “É o Monumento à Liberdade Religiosa”, conta o artista plástico. “Este é um dos aspectos do Brasil que precisa ser louvado. Ainda mais numa época de eventos esportivos que farão o planeta inteiro ficar de olhos voltados para nós.” No fim do almoço, um brinde celebrou a parceria. Enio com cerveja. Júlio com água. Foi mais um dia de amor à arte e à boa conversa do Soteropolitano.