Exclusividade tupiniquim

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1855

Nascido no Brasil, provavelmente no Rio de Janeiro, o pãozinho francês é uma unanimidade nacional

Por J.A.Dias Lopes
Foto Mauro Holanda

Apesar de ser chamado de francês, o pãozinho francês, com aproximadamente 50 gramas de peso, que o Brasil inteiro consome no café e no lanche, é uma exclusividade tupiniquim. Por isso, deveria ser chamado de brasileiro ou carioca, até porque teria nascido no Rio de Janeiro entre os séculos 19 e 20 e nenhum outro país dispõe de algum igual a ele. Há duas versões para sua origem.

Alguns sustentam que surgiu por encomenda de brasileiros que viajavam a Paris e voltavam querendo um pão com as características do saboreado nas boulangeries daquela capital europeia. Outros acreditam que o nome veio do tipo de farinha. Em Portugal, na Espanha e na América de colonização ibérica, bem como na Inglaterra, havia um pão chamado francês. “Designava um produto elaborado com farinha branca de trigo, dotado de casca crocante e miolo flexível, alvo ou creme”, informa o historiador Carlos Ditadi, do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro.

A explicação é clara. Foram os franceses, no século 18, que começaram a produzir farinha branca e fina. Para obtê-la, trituravam apenas o trigo descascado e limpo. Até então, a matéria-prima do pão era escura e rústica, pois resultava da mistura de diferentes cereais, plantados e colhidos juntos. Era uma prática para controlar as pragas que habitualmente não assolam os mesmos grãos. Cultivados homogeneamente, facilitavam o ataque generalizado. Separadamente, ele era parcial, portanto menos devastador.

O rei da época, Luís XIV (1638-1715), foi o principal incentivador da farinha branca. E, como tudo o que vinha da França era bom e requintado, as cortes europeias, inclusive a de Portugal, incorporaram a novidade. O Brasil já importava farinha branca, produto raro e caro, porém em pequenas quantidades, no início do século 19. Entretanto, só quando d. João VI e sua corte desembarcaram no Rio de Janeiro, em 1808, fugindo das tropas napoleônicas, o produto se difundiu no país.

Afinal, o inimigo da corte portuguesa era Napoleão Bonaparte, não a cultura francesa. Sua influência se estendia a tudo. “Da França vinha o modelo, perfumes, roupas, porcelanas, cabeleiras, mulheres, saudações, tapetes, panos d’Arras, sofás, cadeirões, armários cinzelados e um mundo de coisas graciosas e dispensáveis”, diz Luís da Câmara Cascudo, em História da Alimentação no Brasil (Editora Itatiaia de Belo Horizonte/Universidade de São Paulo, SP, 1983). “Essa influência na etiqueta, indumentária, alcançou a mesa, arranjos, decoração.”

Viajantes estrangeiros que apareceram aqui no século 19 se queixaram da qualidade do pão no Brasil, que só melhorou depois da vinda de d. João VI e sua corte. Isso aconteceu justamente no Rio de Janeiro com a chegada de padeiros europeus. Von Leithold e L. von Rango, no livro O Rio de Janeiro Visto por dois Prussianos em 1819 (Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1966), documentaram a existência de boulangers franceses na então capital do Brasil, ressaltando que a farinha vinha dos Estados Unidos. Já o historiador Ditadi conta que, em 1816, a cidade tinha meia dúzia de padarias; em 1844, o número saltou para 33.

Mas, se algum brasileiro for à França e pedir um pãozinho francês, vai quebrar a cara. O único produto assemelhado será o pistolet (pistola, em francês). Tem origem belga, é pequeno, redondo e leve, apresentando um sulco no alto. Em São Paulo, algumas padarias às vezes fazem o pãozinho francês nesse formato. Uma das hipóteses para o nome é que derivaria do fato de receber uma tributação abusiva no século 17, alcançando em Bruxelas quase o preço de uma pistola. Estima-se que hoje, nas grandes cidades brasileiras, o consumo per capita do pãozinho francês seja em torno de 53 gramas por dia, o que não é pouco.

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