Para moças de fino trato

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Robert Taylor, Greer Garson e Lew Ayres em cena do filme de 1939

O fortíssimo gim é abrandado neste coquetel conhecido há mais de um século

Por Walterson Sardenberg Sº

No final dos anos 1930, Louis B. Mayer, o mandachuva da Metro Goldwyn Mayer, andava à cata de outra atriz europeia tão classuda quanto Greta Garbo. Descobriu na Inglaterra a britânica Greer Garson, formada em Francês e Literatura na Universidade de Londres. As maneiras refinadas, a beleza reservada e a sexualidade dissimulada de Greer, se não fizeram dela uma nova Garbo, abriram-lhe sólido caminho no cinema. Um Oscar, em 1942, ajudou a pavimentar essa vereda. Garson aproximou-se tanto de Garbo que acabou comprando, da própria Garbo, o apartamento de Hampshire House, Nova York, em que a diva sueca residiu.

Nosso Vinicius de Moraes, notório expert em mulheres, não era chegado nas atuações da atriz inglesa. Ainda jovem, escreveu reclamando que Greer Garson teimava na imagem de “boa moça”, o que julgava “uma forma um tanto alvar de ser”. O Poetinha podia saber muito sobre o sexo oposto — se é que algum homem sabe —, mas nem tanto sobre a tal da sétima arte. Por exemplo: foi um ardoroso defensor do cinema mudo contra o falado, quando essa batalha já estava perdida.

Mas de gim, a bebida de origem holandesa à base do arbusto zimbro, Vinicius sabia tudo. Tanto que, já na maturidade, recomendou a uma das inúmeras mulheres amadas, na letra da canção “Mais um Adeus”: “Olha, benzinho, cuidado com o seu resfriado / Não pegue sereno, não tome gelado / O gim é um veneno, cuidado benzinho, não beba demais”. Pudera. O gim pode chegar a 47,3% de graduação alcoólica. Um baque e tanto. Eis porque muitos bebedores experientes o diluem em coquetéis, amaciando os efeitos, embora o mais famoso desses drinques — o Dry Martini — seja preparado, a rigor, com 98% de gim. O vermute seco entra quase como uma abstração.

Fãs do Dry Martini costumam destilar sentimentos iracundos contra o coquetel Imperial. Compreende-se. No preparo de um Imperial clássico, a dosagem de gim não é tão superior a do vermute. Não bastasse, a receita ainda acrescenta o licor Marasquino, feito a partir da marasca, uma cereja amarga, encontrada com mais facilidade na Croácia.

Os adeptos do Dry Martini podem espernear, mas o Imperial permanece com muitos apreciadores. E não é de hoje. O coquetel já aparecia na Bartender’s Encyclopedia, livro escrito pelo americano Tim Daly e publicado ainda no ano de 1903 em Worcester, no estado de Massachussets. O autor não explica a origem do drinque — de resto, ninguém a explicou até hoje —, mas lembrava que o Imperial era “muito popular entre os europeus de classe alta, particularmente os franceses”.

Assim como Greta Garbo, Greer Garson e o “descobridor” das duas, Louis B. Mayer, o Imperial saiu da Europa para conquistar os americanos. Nada mais natural, portanto, que Greer tome o seu no segundo filme que rodou na Metro, a comédia Remember? (no Brasil, O Noivo de Minha Noiva), lançado em 1939. Quando diluído em bebidas mais leves, o gim desce muito bem até para as “boas moças”. Ou melhor, até para as moças de constituição mais frágil.

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