Pelas águas do Oriente

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Um saborosíssimo cruzeiro gastronômico de Hong Kong a Bangcoc

Por Braulio Pasmanik

Gastronomia é um hobby, um prazer e assunto predileto de quem gosta de comer. Gente assim passa o tempo livre pesquisando a próxima refeição e a próxima viagem. Um plano recorrente de apaixonados pelo tema é conhecer lugares diferentes do Oriente e suas cozinhas riquíssimas em ingredientes, sabores e técnicas. O problema: pela distância e pela diversidade de culturas torna-se dificílimo, na prática, conciliar vários países em um único roteiro. Mas há uma solução inteligente e cômoda: embarcar em um hotel flutuante e se deixar levar para esses lugares longínquos sem ter de perder horas e horas em aeroportos e lobbies de hotéis e, o melhor, sem precisar fazer e desfazer as malas o tempo todo.

O ideal é escolher um navio de menor porte, como os da frota da Silversea, linha italiana de cruzeiros de luxo especializada em viagens exclusivas e roteiros sofisticados. Oferece serviço caprichado e gastronomia de primeira. Que tal sair do porto de Hong Kong, no sul da China, fundear em algumas cidades do Vietnã e terminar em Bangcoc, na Tailândia? Nada mau para quem quer experimentar culturas e sabores.

Foto de barcos no mercado flutuante em Bangkok, tirada de cimaEste é um dos roteiros do Silver Shadow, um navio tão exclusivo que o número de passageiros (382) equivale ao de tripulantes (302). Todas as acomodações são suítes com vista para o mar, a maioria com varandas, e todas com atendimento impecável de mordomos. A navegação entre os portos é feita à noite. Assim, bem cedo, quando o viajante acorda, já se surpreende com uma nova e exuberante paisagem. Descansado, está pronto para uma jornada de excursões a lugares oníricos, mercados flutuantes de frutas exóticas e a restaurantes que serão motivos de diversos sonhos eróticos.

Uma das vantagens de um navio pequeno é o clima intimista até na hora das refeições. Graças a parcerias exclusivas das associações Relais & Châteaux e Slow Food, a embarcação conta com cinco restaurantes, quatro deles funcionando no sistema all-inclusive. Isto é: tudo está incluído no preço da passagem, até mesmo as bebidas alcoólicas, com uma boa seleção de vinhos. Quer um champanhe? Esteja à vontade. Os pessimistas costumam antever que irão beber mal em virtude de as bebidas serem servidas em sistema open bar. Pois estão muito enganados. Na carta de vinhos despontam rótulos de grandes produtores tanto da Borgonha e da Toscana quanto do Napa Valley.

No restaurante principal, o cardápio sempre oferece pratos da culinária da cidade visitada, muito bem preparados, com temperos e produtos da terra. Na piscina, ao entardecer, a equipe monta um buffet excitante. São bifes suculentos, costeletas de porco, vitela e camarões enormes, deitados sobre o gelo e que serão grelhados de início na cozinha e finalizados sobre pedras quentes dispostas à mesa. O serviço ainda inclui saladas, acompanhamentos, molhos e sobremesa. Tudo isso sob uma suave brisa noturna.

O entardecer na baía de Hong KongA Baía de Hong Kong, pode até perder em beleza para as da Guanabara e a de Sydney, mas tem um terceiro lugar garantido. Em especial, se vista do Monte Victoria, à noite. Nos restaurantes da cidade, uma das atrações é o dim sum, precursor do menu-degustação. Trata-se de uma sequência quase interminável de porções diminutas de pratos fritos ou preparados no vapor, com carnes, verduras e o que mais você puder imaginar. Uma delícia tão reveladora quanto aquelas encontradas na primeira escala do navio: Hanói, a capital do Vietnã.

O país foi ocupado pela China durante séculos, mas também passou pelo domínio francês. Esta dupla influência marca sua culinária. A cozinha de Hanói é bem semelhante à chinesa, com o uso frequente de vegetais em conserva em vez de ervas frescas, cogumelos e outros fungos e muita pimenta preta no lugar de pimentão. Quase todas as refeições começam com uma salada de ervas frescas com soja e bambu. Já o almoço típico na cidade é composto por taças de pho — sopa quente, com pão, soja e outros vegetais, além de tiras de carne de porco, vaca ou galinha. Há também uma enorme variedade de pratos vegetarianos por causa da influência dos monges budistas.

Ervas usadas para fazer chá no VietnãNa Cidade de Ho Chi Minh, antiga Saigon, ainda no Vietnã, a França se faz presente tanto na arquitetura quanto na gastronomia. Nos cafés, o sotaque soa mais forte: baguettes, crème caramel, banana flambé, paté e o cheirinho do café moído na hora são heranças do período colonial francês (1859-1950). O chá vietnamita também está no cardápio, aromatizado com lótus ou jasmim. Outra bebida típica é o vinho de arroz feito de modo artesanal na região do delta do Rio Mekong e nas comunidades tribais. Tem lá os seus fãs, embora a cerveja se destaque como a bebida alcoólica mais consumida no país.

De volta ao Silver Shadow, uma homenagem à influência francesa na cultura vietnamita: no restaurante Le Champagne, uma adorável noite de extravagâncias com menu exclusivo de foie gras. Mousse de fwa gla (como se diz em chinês) com trufas negras, foie gras grelhado com compota de gengibre e ruibarbo e sorvete de foie gras foram alguns hits de um menu de sete etapas. Mas o ponto alto da viagem é a Tailândia, um país multifacetado e de cultura efervescente. A própria palavra thai já diz tudo. Significa livre em tailandês, e está na atmosfera de Bangcoc, cidade moderna, ocidentalizada e com uma vida noturna agitadíssima. A capital da Tailândia é uma espécie de Veneza do Oriente, com muitos canais e embarcações rústicas que navegam ao longo do Rio Chao Phraya.

Close num prato de macarrão pad thai, típico da TailândiaExplorar a gastronomia tailandesa é uma diversão. Essa cozinha tornou-se famosa por misturar quatro sabores: doce, apimentado, amargo e salgado. O tempero mais comum chama-se nam pla. Significa “água de peixe”. Resulta de um molho artesanal, feito de peixes inteiros macerados em sal. Outros ingredientes comuns são o cominho, gengibre, coentro, cúrcuma, capim-limão, lima e pimentão. Pescados, arroz e macarrão são a base da cozinha tailandesa. O pad thai, por exemplo, é um macarrão de arroz que traz brotos de feijão, camarão seco, camarão fresco, coentro, cebolinha, ovo, molho de tamarindo, um pouco de açúcar, amendoim, gotas de limão e alguns outros temperos. Prefira experimentar nos restaurantes. As barracas de rua atraem pelos aromas, mas nem sempre seguem as melhores regras de higiene.

Uma refeição tradicional na Tailândia é composta por uma sopa, um cozido ou refogado de curry e outros condimentos, e um molho onde se mergulham peixe frito ou legumes. O arroz branco sempre aparece como acompanhamento. Um aviso: não se usa faca à mesa. Apenas garfo e colher. Mais uma surpresa de um cruzeiro em que elas se sucedem com o poder e a rapidez de um haikai. Nesta viagem, em vez de se arrastar malas pelos intermináveis corredores de aeroportos, saboreiam-se as experiências flutuando.

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