Point casamenteiro

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São incontáveis os casais que se conheceram no Bar do Alemão, de Curitiba, pertencente ao empresário Andersen Prado e à sua mulher Selma, responsável pelo dia a dia da casa

Por Luiz Carlos Zanoni
Foto Fernando Martinho

Andersen e Selma do Prado fazem um convite aos solitários. A outra metade que a estes falta pode estar no Bar do Alemão, um lugar onde pessoas reais se encontram, livres das ciladas a que os sites de relacionamento muitas vezes induzem. E se nada acontecer, ninguém sai infeliz — a comida é boa, o chope estupendo. Localizado no centro histórico de Curitiba e especializado nos sabores da culinária germânica, o Bar do Alemão é de fato um point casamenteiro. Amplo (420 lugares), caloroso e festivo, o ambiente aproxima os frequentadores.

São incontáveis os casais que lá se conheceram, namoraram e casaram. Alguns elegeram garçons como padrinhos, comemoram ali os aniversários de casamento, e, como a casa existe há mais de três décadas, até bodas de prata já foram celebradas. O lugar expressa bem a natureza de Andersen e Selma, seus proprietários. Repleto de fotos e peças trazidas das viagens do casal, ele acolhe, deixa à vontade, atende com presteza e generosidade.

Anderson é conhecido pelo fervor com que se lança às novas oportunidades, característica que lhe rendeu gordo currículo como empresário. Começou muito jovem, ainda adolescente, siderado por coleções de selos que comprava e vendia em uma feira de antiguidades no centro de Curitiba. O passatempo virou negócio. Logo se tornou dono do maior estoque de selos comemorativos do país.

Chegou a ter 16 milhões deles, todos usados, carimbados, adquiridos em leilões ou de outros comerciantes. Lotavam um quarto inteiro da casa. “Na época, os anos 1970, havia muitos colecionadores, mas, com a internet, a atividade enfraqueceu, deixou-se de mandar cartas pelo correio”, ele lembra.

Passada a febre filatélica, outra surgiu. Apreciador da boa mesa, assíduo na noite, Andersen juntou o útil ao agradável quando lhe foi oferecida, em 1984, a associação com Renê Strobel no Schwarzwald, o Bar do Alemão. Assumiu o comando alguns anos depois, quando, cansado do batente, Renê lhe vendeu sua parte. Mas ainda continuam sócios, só que, agora, e um hotel comprado na Ilha do Mel, valorizado ponto turístico do litoral paranaense. A afluência na ilha tem sido cada vez maior, estimulando o projeto, prestes a decolar, de reforma e ampliação do estabelecimento.

Numa cidade onde os restaurantes saem de cena tão depressa como entram, o Bar do Alemão é uma exceção. Chega aos 33 anos bombando forte. A receita, sem dúvida, está na mescla bem dosada do apego às tradições de Selma com o caráter visionário de Andersen. Cabe a ela controlar o dia a dia da casa. Às 8 da manhã, já a postos, inicia o preparo dos pratos que gosta de cuidar pessoalmente, casos da torta alemã, feita com nata e chocolate, e da carne de onça, servida em geral como entrada.
Esta, ao contrário do que o nome sugere, nada tem a ver com o selvagem felino. Trata-se de carne bovina (patinho), moída e temperada com sal, pimenta e cebolinha verde. O segredo, ela conta, é “amassar, amassar e amassar”. Vai bem com o chope da casa, o submarino, velha fórmula alemã que inclui, no fundo do canecão, um pequeno copo com steinhäger, destilado feito de zimbro.

Descendente de alemães, Selma aprendeu a cozinhar com a mãe e a avó, ambas grandes quituteiras. Muito focada, estagiou com os chefs Celso Freire e Sérgio Arno, frequentou cursos voltados às especialidades do restaurante na Alemanha e na Áustria. Dela é a inspiração de um trunfo do cardápio, a salsicha tipo bockwurst. Por um ano trabalhou na receita, cuja execução foi repassada a um frigorífico local, o Santo Antonio.

Selma preserva com rigor a culinária típica do Bar do Alemão, patos e marrecos recheados, os pratos à base de hering e salsichas. Conta bastante o chef de cozinha, Moacir Muller, estar na casa desde a fundação. Selma nunca sai antes das nove da noite. E com as ampliações em curso, terá uma cozinha só dela, o que põe Andersen em alerta. “Vou instalar uma cama junto ao fogão, acho que ela não vai mais querer sair de lá.”

Nos próximos meses o Bar do Alemão deve quase triplicar o tamanho. Totalizará 1.180 lugares com a incorporação do imóvel contiguo, a Casa Vermelha, antiga loja de ferragens tombada pelo Patrimônio Histórico. As obras de restauro e adaptação estão no fim. Quanto à arquitetura e o mobiliário foram inspirarados nas cervejarias de Munique. Andersen foi por cinco vezes à Alemanha para visitá-las. Também vários funcionários lá estagiaram.

Já o primeiro em vendas de chope no Paraná, o Bar do Alemão passará a disputar a liderança também na região Sul. “Vou ganhar um camarote permanente da Brahma no sambódromo”, ri o empresário, para quem bares não podem faltar, são uma instituição cultural. “Antigamente”, ele relata, “todos os bares da cidade fechavam cedo, só o Alemão ia madrugada adentro, refúgio de artistas e intelectuais. Continuamos atendendo até às duas da manhã. Quem vai ao teatro ou ao cinema quer, depois, comentar o que viu, e não há melhor lugar para fazê-lo do que a mesa do bar”.

O volume de trabalho com certeza aumentará. Andersen, que já teve fábrica de sorvete, indústria de salga de sardinhas e restaurantes diversos, é também o atual presidente da seção paranaense da Associação Brasileira de Sommeliers, professor no Curso de Gastronomia da Universidade Católica do Paraná e dono da Trattoria Boulevard, especializada em culinária italiana. Segundo ele, a diversificação está no sangue, “sempre que surgem as oportunidades não me seguro, vou atrás”.

Saiu ao avô, Benjamin Silva, um negociante compulsivo, que tinha sorveteria, hotel, loja de tecidos, relojoaria, “era um autêntico minishopping”. O filho, também Andersen, está na trilha do pai. Na infância, queria ser jogador de futebol. Disputou, em sua categoria, torneios na Finlândia e Suécia. Agora, aos 19 anos, apenas torce pelo Coritiba, faz o curso de Gastronomia e dá expediente no Bar do Alemão, o lugar onde, há 25 anos, Selma foi tomar um chope, conheceu o dono e com ele se casou.

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