Rita Lobo: a rainha da panelinha

0
31362

Com receitas simples e práticas, a ex-modelo faz sucesso em diferentes mídias

Por Walterson Sardenberg – Fotos António Rodrigues

Comece com dois olhos azuis do tamanho de um pires. Adicione um sorriso de anúncio de creme dental. Reserve. Em um estúdio de TV montado na cozinha da própria casa, acrescente espontaneidade, bom-humor e uma didática envolvente.

+ Bela Gil, uma fera na cozinha

+ Bolo de chocolate cremoso da Rita Lobo

A receita do sucesso de Rita Lobo poderia começar assim. São tantos os ingredientes, porém, e tão longo e pessoal o preparo, que só mesmo a própria daria conta da explicação completa. Logo ela, que, desde a estréia em uma coluna de culinária no jornal Folha de S. Paulo, há dezenove anos, vem primando justamente pelo contrário: receitas caseiras, simples e, sobretudo, muito práticas.

Chamada de “Dona Benta da nova geração”, esta paulistana de 39 anos, mãe de duas crianças (Gabriel, de 12 anos, e Dora, de nove), saboreia o epíteto. E confirma o intento de ensinar culinária desde o bê-a-bá. Diz ela: “Meu público é constituído por gente que quer aprender a cozinhar, mas não tem muita base, nem muito tempo para preparar o jantar”.

E que público! O site comandado por Rita, o Panelinha — slogan: “Receitas que funcionam” —, recebe, segundo a contabilidade da própria, 500 mil visitantes por mês. Seu programa de TV no canal GNT, Cozinha Prática, esteve no ar por duas temporadas. Seus quatro livros já ultrapassaram a marca dos 100 mil compradores, algo surpreendente para o mercado editorial brasileiro. O quinto, recém-lançado, Pitadas da Rita, segue a trilha aberta pelos anteriores.

+ Cake Boss: “para ser um bom confeiteiro, é preciso perseverança”

+ Erick Jacquin: durão, mas de coração mole

Enfim, ninguém vende tantos livros sobre culinária no país. Nem Dona Benta. Não por acaso, sua editora, a Companhia das Letras, convidou-a a selecionar e publicar obras de outros autores do gênero no selo Panelinha — o que ela vem fazendo com entusiasmo.

“Não considero que tenha algum dom para a cozinha”, diz a bela ex-modelo. Acredite: não está fazendo gênero. Embora dona de sólidos conhecimentos na área e formada pelo ICE (Institute of Culinary Education), de Nova York, Rita, não só esnobou a alta gastronomia, como se recusa a publicar receitas que recorram a ingredientes caros. Não, ninguém está falando de trufas brancas ou foie gras. Mas de lagostas. Seu maior talento — e ela é obrigada a reconhecer — está no inigualável poder de comunicação, que também a levou a ter programas nas rádios Estadão e Eldorado, em São Paulo. Ah, incluam-se na receita muito trabalho e dedicação, como fica claro nesta entrevista.

+ Crítica: Rita Lobo volta com lema “desgourmetize!”

Que memórias mais remotas tem de pratos provados na infância?

Não diria que a minha mãe, a quem dedico o livro Pitadas da Rita, jamais entrou numa cozinha. Até porque não existe alguém que nunca tenha entrado numa cozinha, ainda mais sendo mãe de três filhos. Mas minha mãe não é de cozinhar, não gosta. Sempre teve boas cozinheiras. O repertório de receitas vinha delas. Uma dessas cozinheiras havia trabalhado anos na casa de libaneses. Então, comíamos muito quibe, arroz com lentilha. Eu adorava charutinho de repolho! Embora tenha, por parte de mãe, origem húngara e italiana e, por parte de pai, portuguesa, a cozinha árabe marcou minha infância. E tinha também o rocambole, que eu adorava fazer.

Ainda garotinha já gostava de cozinhar?

A partir dos sete anos, comecei a me interessar pelo que acontecia na cozinha. Foi quando aprendi a fazer esse rocambole. Minha vovó Rita, mãe do meu pai, me ensinou a fazer o pão de ló. É uma receita fácil de criança guardar. Basta juntar cinco ovos, cinco colheres de açúcar, cinco colheres de farinha e levar ao forno. Curti muito fazer para os meus pais nos fins de semana. Uma vez recheava com doce de leite, outra com geleia de laranja ou morango. Mas não considero que tenha algum dom para a cozinha.

Como assim?
Não me acho dotada de um talento especial para cozinhar. O que pode ter começado a me levar para a culinária é o fato de que a família viajava bastante e, nessas andanças, eu ficava encantada com as diferenças das culturas gastronômicas.

+ Marie-France Henry, do La Casserole: tradição e tempos modernos

Aos 15 anos, Rita Lobo foi descoberta como modelo pelo fotógrafo Bob Wolfenson. Como isso se deu?

Alguém, que nem lembro quem era, estava procurando novos rostos para fazer uma campanha publicitária. Fui, achei divertido e descobri que dava para viajar muito trabalhando como modelo. Aquilo me deu o estalo. Como disse, adoro viajar e viajei bastante desde criança. Não que meus pais fossem milionários.

Qual a profissão deles?

Meu pai é engenheiro, mas já foi professor de matemática. Um homem dos números (risos). Minha mãe é professora da PUC. Formou-se historiadora, mas dá aulas na Faculdade de Administração.

Na época em que viajou como modelo, dos 15 aos 18 anos, quais foram os países onde comeu melhor?

Amei o Japão, onde morei seis meses. Fique fascinada com os arrozes, mais do que com os peixes. Costumava ir a um restaurante mínimo, mas mínimo, mesmo. Na bancada, todos os dias havia seis panelas de arroz. Cada dia tinha uma coisa diferente. Nunca vou saber o que comi (risos). Eu não falava japonês e nem eles, inglês. Eu só apontava. Comi coisas incríveis! Outro lugar que amei é o Marrocos. Tem uma comida muito perfumada, muito feminina.

Um dos pratos no Marrocos é cérebro de cabra. Chegou a experimentar?

Não. Não sou de experimentar pratos exóticos. Mas quando tenho de comer, como. Uma vez, estava em um jantar em Montalcino, na Itália, e o prato era carne de cavalo. Provei. Não tem nada de especial (risos). O molho de vinho ajudou. Na África, comi bife de zebra. Não é bom. Aliás, na África, tirando o Marrocos e a África do Sul, nunca comi bem.

Quando era modelo vivia fazendo regime?

Eu era adolescente e meu metabolismo estava OK. Não precisava fazer regime. Sou de uma família de gente magra. Tem quem se espante: “Nossa, você trabalha com comida e é tão magrinha. Como consegue?”. Respondo: “Posso falar a verdade? É genética. Simples assim”.

Mas engordou 10 quilos durante os seis meses do curso de gastronomia nos Estados Unidos, não foi?

Engordei. Nos Estados Unidos até o ar engorda (risos). A água também. Coitados dos americanos. Mas também engordei porque passava o dia inteiro comendo e, a cada noite, queria ir a um restaurante diferente. Era o meu momento de descoberta. E, em Nova York, não faltam restaurantes. De tudo quanto é tipo. Se você quiser, escolhe a comida de cada região da China.

rita-lobo2Dá para comer bem fazendo dieta?

Não é um assunto que me preocupe. No Panelinha, nem publico a tabela nutricional de cada prato, o quanto tem de calorias. No mundo ideal, a escolha não é baseada nisso.

Se o curso de gastronomia não foi uma escolha profissional, o que pensava em fazer da vida, depois de modelo?

No começo da adolescência, pensei em ser veterinária. Gosto muito de cavalo, de bicho. Mas passou rapidinho. Depois, pensei em ser turista (risos). Estou brincando. Achei que fosse fazer alguma coisa que me possibilitasse viajar muito. Mas, aí, me enfastiei, de tanto que viajei como modelo: “Acabou, chega, nem Ponte Aérea eu quero mais”. Mas não sabia muito bem que caminho seguir. Nem lembro no que pensava. Há mais de 20 anos que faço o que faço!

Por que um curso de gastronomia nos Estados Unidos e não em outro lugar?

Houve um Carnaval em que fui para Nova York com quatro amigas. Tivemos uma semana incrível. Ficamos com a sensação de “poxa, seria tão bom passar um tempo maior em Nova York, não?”. A Mariana, uma das amigas, respondeu: “E por que a gente não fica?”. Perguntei a ela: “E o que você faria?”. A Mariana: “Um curso de cinema. E você?”. Respondi: “Um curso de gastronomia”. Eu nem sabia quais eram os cursos de gastronomia em Nova York. Fomos procurar. Voltamos ao Brasil, já organizando a próxima viagem. Vendi o carro para fazer dinheiro, voltei a Nova York e fiz um curso bem intensivo. Mas, como falei, não tinha o plano de “ah, quero ser chef!”. Depois tive restaurante em São Paulo, mas um pouco por falta de opção. Era uma época em que fazer conteúdo para internet sobre culinária não dava para pagar as contas.

+ Raí com um pé na França

E como criou o Panelinha?

Eu estava fascinada com o processo de aprender a cozinhar. Adquirir conhecimento é algo muito rico. Você se sente poderoso. Lembro que, no decorrer do curso, eu não tinha outro assunto, senão ficar reportando a maravilha que foi ter aprendido isso ou aquilo. Por uma dessas coisas da vida, logo que voltei para o Brasil, fizeram uma reportagem comigo para a Folha de S. Paulo, sobre a história da moça que trocou as passarelas pelas caçarolas. Me pediram para escrever um texto em primeira pessoa revelando como foi essa experiência. O Matinas Suzuki Júnior, que estava na Folha, leu, gostou e perguntou se eu queria fazer uma coluna sobre comida para a revista que sai aos domingos. Assim começou tudo.

Já gostava de escrever?

Sim. Mas, na verdade, gosto de escrever sobre comida. E só. Se você me pedir, sei lá, uma crônica sobre qualquer outro assunto, não sai mesmo (risos).

O seu restaurante, o Oriental, de cozinha tailandesa, foi aberto na mesma época. Por que durou pouco?

Não durou tão pouco assim. Foram três anos. Estava muito claro para mim que o restaurante seria algo para um período e não para toda a vida. No último ano, em 2000, comecei a fazer o site Panelinha. E foi bem, logo de cara. Comercialmente, inclusive. Ser chef ou dona de restaurante não era mesmo a minha história. Então, deixei a casa com a minha sócia, a Patrícia. Com o tempo, ela fechou o restaurante e montou um catering de sucesso, que faz todos os eventos do Panelinha.

O desembaraço e a confiança diante das câmeras despontaram logo no começo?

Olha, eu gravo os programas na minha própria casa. Fico à vontade com a equipe. Além disso, nada é ao vivo. O programa é muito editado e isso ajuda. Mesmo nos programas de rádio dos domingos, em que, com a equipe, recebo um convidado e, juntos, preparamos o almoço, não rola estresse. E ficamos uma hora no ar! Não é programa de auditório. Se fosse, acho que não conseguiria (risos). Tem outra coisa. Se fico nervosa, penso que estou fazendo o programa para a minha mãe. Ela é a minha fonte inspiradora. Olho para a câmera e explico a receita como se fosse para ela, que não sabe cozinhar e nem tem interesse. Então, é um desafio. Se um dia conseguir ensiná-la a cozinhar, paro de trabalhar (risos).

Mesmo sendo formada em gastronomia, seu objetivo sempre foi se dedicar à receitas da cozinha caseira. Por que?

Logo que me formei, buscava apenas o prazer de preparar o prato mais saboroso. Se ficasse melhor com bacon e creme de leite fresco, vamos lá. Foi quando me deu um clique: “Isso não é pé no chão, não, é o dia a dia. Se eu comer pratos assim todos os dias, vou parar no hospital. Preciso achar o meu jeito de me alimentar e que possa sugerir para as pessoas”. Quando os meus filhos nasceram, tive uma mudança radical. Antes deles, a comida era apenas fonte de prazer. Passou a ser, também, fonte de saúde. E não estou falando de comida diet, light, nada disso. Comida é, também, ferramenta de comunicação, pois com um prato gostoso, você consegue atrair a atenção dos familiares. Descobri, ainda, que as pessoas morrem de medo de cozinhar. Elas temem muito errar. É preciso ensinar com calma e muita didática.

De onde vem esse medo?

Um dos motivos é que, ao longo da história do país, as pessoas, digamos, bem-sucedidas não cozinhavam. Sempre tiveram alguém para cozinhar por elas. Ir para o fogão era coisa de empregados.

Depois, para complicar, o feminismo — procurando, não reforçar, mas desafiar a ordem social — também ajudou a afastar as mulheres da cozinha.

Sim. Para as novas gerações de mulheres, cozinhar passou a ser visto como coisa de mulherzinha. Elas precisavam sair de casa para ocupar o mercado de trabalho. E, de fato, foi necessário que isso acontecesse. Mas o resultado é que, hoje, as pessoas não sabem mais cozinhar. Podem até gostar de fazer um risottinho, uma massa, mas cozinhar, no duro, não sabem. O modismo da gastronomia fez com que não se pensasse em fazer um bom arroz com feijão, mas o melhor risotto. E não é assim.

Rita Lobo já se auto-proclamou “a Dona Benta das novas gerações”. É isso?

Nunca me intitulei assim. Mas já falaram isso de mim (risos). Acho ótimo. Não sei quanto os livros de receita de Dona Benta já foram vendidos. Como são muitas décadas, deve ser um número grande. Se eu chegar lá, que bom!

Qual foi a receita mais incrível que criou?

Nunca criei nenhuma. O que faço, em conjunto com a equipe do Panelinha, é explicar o preparo de um prato, seja ele qual for, de modo que até quem nunca ferveu água para um café consiga preparar em casa. Essa é a proposta.

Como escolhe as receitas?

Tudo é feito em equipe e com muito método. Todas as segundas-feiras eu e as quatro pessoas da minha equipe nos reunimos e decidimos pesquisar um determinado tema, que irá ao ar três semanas depois. Pode ser, por exemplo, o maxixe. Cada um mergulha no universo do maxixe, traz sugestões, e eu seleciono as receitas que julgo fazerem mais sentido. Começamos, então, a pensar se há alguma técnica culinária que pode deixar cada receita mais prática. Por exemplo, se o original disser “afervente o maxixe, depois corte em fatias, leve ao forno e frite”, logo se percebe que o objetivo é deixá-lo crocante. Então, levantamos a questão: será que, se a gente aferventar e colocar em forno bem alto com uma fatia bem separada da outra, já não resolve? Testamos. O intuito é chegar ao mesmo resultado por um caminho mais prático. Tudo é medido compulsivamente, com xícaras e colheres-padrão. A gente anota cada detalhe. Depois, tudo é reescrito.

É cozinhar com papel e caneta?

Isso. Anotamos absolutamente todos os passos. Se for uma receita muito básica, como o arroz branco, subentende-se que a pessoa não sabe cozinhar nada. Então não começo dizendo “refogue uma cebola”. Ensino a cortar a cebola ao meio, a tirar a casca…

Quantos acessos o site Panelinha tinha no começo e quantos tem hoje?
Nem lembro como eram esses números no começo. Hoje, o site tem uma média de 500 mil usuários por mês. E, a cada mês, essa afluência cresce. No Facebook, são 80 mil fãs. Até esta entrevista ser publicada, deverão ser 100 mil (risos). No YouTube, já foi um milhão de acessos.

O que mais gosta de comer e o que não come nem amarrada?

Coelho, não como de jeito nenhum. Para mim, é bicho de estimação. Quanto ao que mais gosto de comer, fica difícil dizer. Estou o tempo todo mergulhando em universos de alimentos diferentes. E isso influencia o momento. Vou editar, pelo selo Panelinha, o livro da Paloma Jorge Amado, e acabei me entusiasmando pela cozinha baiana. Estou amando leite de coco!

Quais são seus restaurantes prediletos?

Quando saio para jantar fora, acabo indo nos japoneses. Pode ser no Shin, na Liberdade, ou algum restaurante do bairro. Amo cozinha japonesa. Mas não chego nem perto de fazer em casa. Para mim, é comida de comer fora. Não sou das massas. Prefiro os peixes e as carnes. Às vezes, saio já com vontade de ir ao Varanda Grill para saborear um bom corte. Na minha casa, comemos arroz, lentilha, peixinho no forno, peixinho salteado. Muita coisa saudável. Tenho dois filhos pequenos.

Eles não pedem batata frita com catchup?
Não faço nenhuma fritura em casa, porque a cozinha fica na sala. Mas preparo batatas cortadas como fritas e assadas no forno com bastante azeite. Ficam até mais gostosas. Tem lasagna, tem torta. Agora que começa a esfriar, a gente serve sopa todas as noites.

Quais chefs admira?

Gosto muito da Helena [Rizzo]. Acho que ela faz uma coisa fantástica: você come para burro no Maní, e sai leve. Tenho pavor de lugares em que, depois de almoçar, você quer dormir à tarde. Gosto de ir ao Epice, do Alberto Landgraf. Ele faz uma cozinha inspiradora.

+ Alberto Landgraf: sucesso instantâneo

O que tem a dizer sobre a culinária molecular?

Nada. Nem passa por perto dos meus interesses. Não tenho nem curiosidade. É comida. Mas o meu negócio é outro, totalmente diferente.

E a cozinha a vácuo?

Não adoto. Trabalho num universo em que as pessoas mandam e-mail perguntando: “Eu não tenho batedeira. Dá para fazer aquela receita de bolo de limão sem?”. Não é nem porque faltou dinheiro para comprar a batedeira. É gente que se mudou para uma casa nova e nem lembrou desse utensílio. A realidade desse público de 500 mil pessoas não é a de pessoas em busca de novas técnicas, mas de quem se indaga: “O que preparo na cozinha em uma terça-feira à noite, sendo que tenho dois filhos pequenos; a empregada, assim que entro, vai embora, e o meu marido chega um pouco mais tarde?”. Tem mais: os ingredientes precisam ser acessíveis. Já houve quem reclamasse: “Ah, fui procurar uma receita de lagosta no Panelinha e não achei”. E não tem, mesmo! Agora, se você for vasculhar receitas com carne moída, topará com um monte de opções: almôndega, hambúrguer, bolo de carne…

Há ingredientes que podem transformar pratos simples em algo especial, não?

Claro. Ervilha congelada é algo fantástico de se ter no freezer. Pode ser um acompanhamento rápido, preparado com um pouco de hortelã e salsinha,. Ou uma sopa gostosa, fria ou quente. No risotto, fica uma delícia. Numa massa bem rápida, vai bem com um pouquinho de bacon. Ervas frescas também dão uma senhora melhorada nos pratos. E acho que é essencial ter queijo parmesão de qualidade. Ponho até na salada. É um gasto que vale cada tostão. E olhe que sou conhecida por ter um escorpião no bolso. Não dá para usar parmesão demi-bouche. Leite de coco também tem de ter em casa. É fundamental. Poxa, adoro mesmo leite de coco!(risos) E não faz sentido comprar leite de coco industrializado. É muito fácil fazer. Procure na feira o saquinho de coco ralado, mas que não é o seco. Bata aquilo no liquidificador com água. Pronto. Bastará passar no pano. Falando dos básicos, não dá para esquecer de sal e pimenta do reino. Noto que as pessoas ainda compram aquela pimenta já moída. Poxa, é como colocar cinza de cigarro (risos). A pimenta moída na hora é outra coisa. Quanto ao sal, comprar flor de sal, com mais textura, não é frescura. Faz a diferença. E, para por na água do macarrão, um salzinho marinho também ajuda muito.

Quantos livros já vendeu? Vê mercado para eles no exterior?

Parei de contar nos 100 mil. Isso me assusta um pouco, na verdade. Agora, não vejo mercado no exterior para os meus livros. A não ser que fizesse algo do tipo “Culinária Brasileira para Estrangeiros”. Meus livros vendem tanto porque são pensados para o mercado brasileiro, feitos para os hábitos alimentares de quem vive nas cidades grandes, não tem tanto tempo para cozinhar e faz compras em supermercados e feiras livres.

Que tal trabalhar como editora de livros de culinária escritos por outros autores, no selo Panelinha?

Uma maravilha. Começamos no fim do ano passado. Por enquanto, temos o do Luiz Américo Camargo, o Pão Nosso, e o Quando Katie cozinha, de Katie Quinn Davies. O próximo será do Yotam Ottolenghi. É um chef que amo. A comida dele é genial. Gosto, talvez até por causa daquela cozinheira que fazia comida árabe. O Ottolenghi é israelense e faz uma interpretação muito própria da culinária do Oriente Médio. Mora em Londres, tem restaurantes incríveis na cidade, escreve para o jornal The Guardian. Tem um programa dele que está sendo veiculado pelo canal GNT. Também vamos lançar um livro de crônicas da Nina Horta, que é a minha musa na profissão; outro de culinária baiana da Paloma Jorge Amado e um de bolos, da Joyce Galvão.

Gosta de ver programas de culinária na TV?

Adoro! Não perco o do Nigel Slater. Passa na BBC HT. Me dá inveja. Mas tem um programa que odeio! É de um australiano chamado Bill Granger. Cara, eu tenho vontade de entrar na televisão e estapear o sujeito (risos)! É a coisa mais fake da face da Terra. Ele é inteiro de mentira. O penteado é de mentira, o sorriso é de mentira, a cozinha é de mentira. Me dá um nervoso! Amo a Nigella [Lawson]. Acho a Nigella o máximo! Morro de rir com o programa dela.

E programas de culinária feitos no Brasil? O do Olivier Anquier e o do Claude Troisgros, por exemplo?

Acho que estão mais focados no entretenimento do que no serviço. E não estou falando nada que não seja uma colocação deles, inclusive. Meu trabalho é baseado no serviço.

O que achava do programa da Palmirinha, que também era centrado no serviço?

A Palmirinha é de uma outra geração. Talvez para um outro público. Gente que, por exemplo, quer aprender a fazer rosquinha para vender.

Como é a história do petit gateau que não deu certo?

Logo no início do Panelinha, tivemos um programa na Band. Era ao vivo. Meu assistente deixou todos os ingredientes separados. Mas se confundiu e pôs sal no potinho do açúcar. Imagine se, na hora do programa, eu iria conferir! Diante das câmeras, fui experimentar depois de pronto. Não consegui segurar as risadas!

SEM COMENTÁRIOS