Relativa exceção

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Alojado há 20 anos nas imediações da Avenida Paulista, o Tandoor busca representar a culinária específica do norte e noroeste da Índia

Por Nero D’Ávila
Foto: Reinaldo Mandacaru

No final do século 18, um indiano chamado Mirza Abü Täleb Khan visitou Londres e, na volta, escreveu um longo relato, em que listava o que o surpreendera na viagem. Tratou dos avanços científicos, da arte da conversação e da beleza das inglesas. O que provocou seu maior espanto, porém, foi notar o anseio britânico pelo futuro e certo desprezo frente à tradição e o passado. Observador inteligente, Abü Täleb constatou que o maior sonho dos ocidentais era atingir logo o futuro para… Superá-lo!

Mais de dois séculos e incontáveis progressos técnicos depois, o abismo entre Oriente e Ocidente parece não ter sido ultrapassado, pelo menos em alguns domínios. A Índia continua a ser muito longe daqui. Longe na geografia e, sobretudo, nos hábitos, costumes, estilos. País imenso, complexo e multifacetado, dificilmente se deixa conhecer à primeira vista pelos apressados olhos ocidentais. O que dizer, então, da gastronomia indiana? Sua presença, no Brasil, é restrita e quase sempre estereotipada. A maioria dos nossos (poucos) restaurantes indianos investe no exotismo, estampa a diferença extrema como sinal de identidade, produz uma cozinha sintética, que não distingue as peculiaridades internas que o subcontinente reúne e potencializa.

Relativa exceção é o Tandoor. Alojado há 20 anos nas imediações da Avenida Paulista, em São Paulo, busca representar a culinária específica do norte e noroeste da Índia, com ênfase no uso do forno cilíndrico de barro, a carvão, que nomeia a casa.

Os pratos preparados nesse forno são os maiores acertos do cardápio, como os cubos de frango marinados em ervas e especiarias (Murg Tikka). Já o Gosht do Pyaaza (carneiro com cebolas, cravo-da-índia e cardamomo) e o Chana Masala (grão-de-bico no molho de tomate, cebola e especiarias), especialidades vindas do fogão, desafinaram, apresentando sabores pouco definidos.

Antes, durante ou depois dos pratos principais, é inevitável provar o Lassi, bebida típica à base de iogurte, ou o chá condimentado e acompanhado de leite. Os pães, principalmente o Naan, preparado no Tandoor, são essenciais.

As opções vegetarianas — por exemplo, os bons rolinhos fritos de verduras (Vegetable Kathy Roll) — relembram o inevitável diálogo entre comida e religiosidade, marca de tantas manifestações culturais pelo mundo afora.

A combinação de cores em cada prato também ajuda o comensal a perceber que há um esforço ritual por trás da refeição e que a alimentação pleiteia algo além do mero, embora necessário, gesto de saciar a fome: é uma espécie de evocação do passado e da lonjura, de um mundo e de formas de comer que expõem os limites da iconoclastia ocidental, em sua repetida e vã tentativa de erradicar o passado e privilegiar a novidade.

No umbral do século 21, a Índia continua a ser mais estranha aos brasileiros que, digamos, a Atlântida. Mas a visita a um bom restaurante indiano, como o Tandoor, contribui para aplacar a distância e para refletir, pelo menos durante a hora e meia que dura uma refeição, sobre nossos limites e — por que não? — sobre nossa arrogância.