Sabores do verão

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Ilustração de um caranguejo

Reflexões em torno da estação mais quente do ano e dos inúmeros presentes que ela nos dá

Por Lecticia Cavalcanti
Ilustração: Pedro Hamdan

“Acabou nosso carnaval/ Ninguém passa mais brincando feliz”, segundo a “Marcha da Quarta-feira de Cinzas”, de Vinicius de Moraes e Carlos Lyra. Mas sobrevivemos. Não só ao Carnaval. Também às muitas confraternizações de fim de ano. Sem contar as férias de Janeiro. Só para lembrar, Janeiro vem de Janus, um dos antigos deuses de Roma, representado por dois rostos opostos: um olhando para traz, o passado; outro para frente, o futuro. O mês não fazia parte do primeiro calendário romano, criado por Rômulo (753 –717 a.C.) — dividido em dez meses que variavam de 16 a 36 dias, num total de 304 dias.

Primeiro mês, naqueles idos era Martius — início da primavera e tempo de plantar. Depois o imperador Numa Pompílio (717–673 a.C.) acrescentou dois novos meses — Januarius (com 29 dias) e Februarius (com 28). Mas a marcação do tempo, como a conhecemos hoje, vem de 1582, com o Papa Gregório XIII (1502–1585). Daí deriva a expressão calendário gregoriano. Mas essas são outras histórias.

Certo é que, para quem mora no Brasil, é tempo de céu azul, sol forte e mar quente. Deve ter sido numa época dessas que Olavo Bilac escreveu “Nunca morrer num dia assim! De um sol assim!”, em In Extremis. Próprio para férias à beira mar. E de sabores muito especiais também. Com destaque para o camarão — de mar ou, muito mais saboroso, de água doce. Pero Vaz de Caminha até deu testemunho: “Alguns índios foram buscar mariscos e apenas acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande camarão e muito grosso, que em nenhum tempo o vi tamanho”.

Falava do mais famoso dos camarões de rio, o pitu. A seu lado, peixes muitos — beijupirá, camurim, carapeba, cavala (especialmente a perna de moça), cioba, garoupa, pescada amarela, sirigado, tainha, quase todos mantendo os mesmos nomes que lhes foram dados por nossos índios. Sem contar aratu, lagosta, polvo, siri. E sobretudo caranguejo. Começo de ano tem a andada, em direção ao mar, quando eles saem dos seus buracos para se reproduzir. Em períodos intercalados, que dependem da lua, da maré e da salinidade da água. Cada fêmea carrega de nove a 12 mil ovas, das quais poucas conseguem chegar à idade de comercialização (entre sete a oito anos).

É por essa época que trocam de carapaça, para poder crescer, e isso fazem aos poucos, durante alguns dias, reduzindo a produção do cálcio que os mantém duros. Isso sem haver maiores prejuízos nessa perda, por haver uma nova em formação, para a qual o animal redireciona o cálcio acumulado. O que dá origem a uma famosa iguaria regional — o siri mole. Durante todo esse período, é proibida sua captura, segundo portaria do IBAMA — embora, no mundo real, nem sempre seja assim. Melhor maneira de servir é inteiro, na caranguejada, acompanhado de pirão — feito com o próprio caldo do cozimento. As patas (patolas), depois de quebradas, são servidas ao natural ou à milanesa, com molho golf ou vinagrete. A carne pode ser ainda usada na preparação de casquinho, crepe, fritada, moqueca, salada ou suflê.

Verão é também tempo de frutas — abacaxi, araçá, caju, goiaba, manga, mangaba, pitanga. Sem esquecer outras sem muito prestígio, com sabor de infância, esse território mágico que acompanha o homem pela vida como uma sombra. Mistura rica de sabores e lembranças — brincadeiras, férias, os amigos da escola, a casa dos nossos avós. Colhidas nos quintais, num tempo em que ainda se vivia em casas com quintais. Ou compradas em balaios de vime que vendedores levavam na cabeça. Ou em varas penduradas nas costas.

Anunciadas em pregões que nossos ouvidos de antes não conseguem esquecer — como “Chora menino/ prá comprar pitomba!” ou “Já caiu cajá”. Faltando só lembrar das frutas roubadas nas árvores dos vizinhos — que, não se sabe por que, eram sempre mais saborosas. Talvez por lembrar do pecado, imagem que remonta à fruta proibida dos jardins do Éden – segundo se acredita, situados nas ilhas de São Brandão, num mar com monstros, demônios, arcanjos e pássaros que cantavam em latim. Mas essas também são outras histórias.

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