Sempre com paixão

0
428

O poeta e compositor Vinicius de Moraes dedicava à poesia e aos amigos a mesma devoção que consagrava à comida

Por Luiz Maciel

Vinicius de Moraes saboreava a vida com colher grande. Com a mesma e conhecida paixão que dedicou às suas mulheres, tinha adoração pelos amigos, pela bebida e pela comida. Nasceu em 1913, mas dificilmente chegaria aos 100 anos — exatamente por viver sem nenhum comedimento. Tudo em Vinicius, que os amigos carinhosamente chamavam de Poetinha, era plural: poeta, compositor, autor, diplomata e jornalista, nove vezes marido, dezenas de vezes apaixonado. À mesa, ele também se multiplicava: gostava de cozinhar e servir aos amigos, mas também apreciava ser bem servido. Tinha apreço pelas receitas tradicionais brasileiras — feijoada, frango assado, carne de panela, pastéis —, mas também degustava com prazer os mais diversos pratos da cozinha internacional, desde que tivesse à mesa um bom papo, o seu tempero predileto para qualquer refeição. De preferência, entabulado com alguém que demonstrasse a mesma fome pela vida que ele, como o poeta chileno Pablo Neruda, com quem costumava saborear frutos do mar acompanhados de vinho branco.

Segundo de quatro filhos de uma família enraizada no bairro carioca da Gávea, o pequeno Marcus Vinitius da Cruz de Mello Moraes aprendeu a ser guloso com o pai, Clodoaldo, funcionário público das 9 às 5 e poeta e músico no resto do dia. Da mãe, Lídia, pianista amadora, desenvolveu um gosto intenso por doces, que ela, por sua vez, herdara de seu pai, um doceiro por profissão. É de Lídia a receita de papos-de-anjo que povoava os sonhos do poeta quando estava no exterior. Na Carta ao Tom, escrita em 1964 na França, conta ao amigo que deseja se fartar do doce ao pisar de volta no Rio. “(…) para o jantar uma galinha ao molho pardo com um arroz bem soltinho e papos-de-anjo, mas daqueles como só a mãe da gente sabe fazer. Daqueles que se a pessoa fosse honrada mesmo só devia comer metido num banho morno, em trevas totais, pensando, no máximo, na mulher amada.”

“Vinicius adorava doce. Ele tinha até o costume de lambuzar em açúcar os pastéis de carne e as empadinhas de queijo que adorava”, conta a chef e professora de gastronomia do Senac de São Paulo Daniela Narciso. Também pesquisadora, Daniela compilou cerca de 90 receitas da vida de Vinicius — de sua infância à carreira diplomática no exterior — que sairão em livro pela Companhia das Letras ainda neste ano, em que se comemora o centenário de nascimento do poeta. Uma das receitas é a famosa “Feijoada à Minha Moda”, que Vinicius transcreveu em forma de soneto para uma amiga, publicado na coletânea Para Viver um Grande Amor, de 1962. Na versão de Vinicius, a feijoada perde as orelhas de porco (“que a tornam em excesso opulenta!”) e ganha uma linguiça fresca, cozida com as outras carnes e o feijão. A couve, ressalta o poeta, também deve ser frita na gordura deixada pelos toucinhos. O poema termina com puro deleite: “Que prazer mais um corpo pede / Após comido um tal feijão? / — Evidentemente uma rede / E um gato para passar a mão…”

Vinicius ia ao fogão de verdade. “Ele adorava cozinhar, e cozinhava muito bem, a gente ia pra casa dele e comia aquelas coisas gostosas”, relembrou Carlos Lyra no livro Garoto de Ipanema – Venturas e Desventuras de Vinicius de Moraes (Editora Códex, São Paulo), de Alex Solnik. Outra receita que ganhou a pena do poeta foi o frango à Vinicius de Moraes, cuja receita entrou no cardápio do Antonio’s. O famoso bar do Leblon foi a segunda casa de Vinicius (e de Tom Jobim, Antonio Maria, Baden Powell e incontáveis boêmios que gravitavam em torno do poeta) a partir de meados dos anos 1960. Vinicius sempre pagava a conta da mesa — um hábito do qual amigo nenhum conseguia demovê-lo. “Ele dividia a comida, a bebida e a conversa com as pessoas. Mas a conta era dele,” contou Gilda Mattoso, sua última esposa, ao jornalista Alex Solnik.

“Na época em que Vinicius viveu, pouco se falava de nutrição e da relação da má alimentação com as doenças”, lembra a pesquisadora Daniela Narciso. O poeta continuou comendo e bebendo sem restrições mesmo depois do diagnóstico de diabetes, no início dos anos 1970. Nos bares, acompanhava o inseparável uísque com bolinhos de bacalhau, salame, queijo, azeitona. “No fundo, ele brincava um pouco com o risco. Achava melhor se consumir assim, vivendo a vida com prazer até o fim, sem se poupar”, diz o amigo Ferreira Gullar no livro de Solnik.

Somente no final dos anos 1970, quando sua saúde se deteriorou muito, Vinicius começou a fazer uma dieta. Numa ocasião, já perto do fim, recebeu Sérgio Buarque de Hollanda em casa e lhe ofereceu uísque. O amigo estranhou, pois sabia que o poeta estava proibido de beber o destilado que tanto apreciava. Mas um sorridente Vinicius logo informou que estava liberado para beber vinho — e então sorveu nada menos que cinco garrafas, nas contas do sociólogo. Como achava que havia “parado” de beber, Vinicius aproveitou os últimos meses de vida para comer mangas, fruta que sempre apreciou, mas que não tinha coragem de misturar com álcool, por causa de uma superstição ouvida na infância.

No soneto “Não comerei da alface a verde pétala”, que abre esta reportagem, Vinicius trata do seu amor às mangas e cajus e destila seu ódio à insossa alface. Tinha pavor de fazer dieta — como tinha pavor de qualquer coisa que restringisse suas vontades, como um amor acabado ou um emprego chato. “Esse negócio de fazer dieta, de não pode isso ou aquilo, é muito chato”, dizia. Semanas antes de morrer, já bem doente, foi ao bairro carioca de Barra de Guaratiba com amigos e apreciou o vento frio de julho com pastéis de camarão, bobó de camarão, peixe cozido e lula. No seu último domingo, abriu a sua casa para um almoço feito por Dona Rosinha, a empregada, e oferecido ao aniversariante Toquinho, aos seus familiares e aos médicos, que haviam, é claro, virado amigos de Vinicius.

Em sua derradeira refeição, na madrugada da quarta-feira seguinte, 9 de julho de 1980, Vinicius dividiu com o parceiro Toquinho os restos de um frango assado ao molho de cerveja que ambos haviam comido no jantar, em companhia de Gilda Mattoso, a última mulher do poeta. Gilda, que estava dormindo, chegou a se levantar para repreender o marido por causa desse excesso gastronômico. O poeta, ao seu estilo inconfundível, apenas pediu carinhosamente para ela deixá-lo fazer o que quisesse, que era tão pouco. “Voltamos para a sala e ficamos até às quatro da manhã conversando, tocando violão e palpitando sobre o disco Arca de Noé n° 2, que estava para ser gravado”, contou Toquinho. Depois, o poeta foi para a banheira, onde costumava passar horas lendo, compondo ou esperando o sono chegar. De manhãzinha, não resistiu a um edema pulmonar e morreu, apesar dos esforços de Toquinho em reanimá-lo, assim que alertado pela empregada que o encontrou desfalecido. Prestes a completar 67 anos, o Poetinha viveu apenas dois terços de um centenário — mas com a intensidade e o prazer que encheriam alguns séculos.