Simples e divertido

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Uma das mesas no restaurante ¡Venga!, em São Paulo

O ¡Venga! mostra em São Paulo que mistura de bar e restaurante pode ajudar a afastar o excesso de ostentação

Por Nero D’Ávila
Foto: Divulgação

Um espectro ronda São Paulo, o dos restaurantes que são quase bares, bares que são quase restaurantes. Mas não se assuste, leitor: esse espectro é bom, muito bom. Traz, entre outras vantagens, menos formalidade e preços ligeiramente mais baixos. O ¡Venga! é ótimo exemplo. Nasceu no Rio de Janeiro, em 2009, associando a sociabilidade do bar de tapas espanhol à efusividade dos botecos brasileiros, especialmente cariocas. Num local reduzido, de trinta e poucos lugares, um balcão, raras mesas, porções pequenas, cervejas e vinhos ibéricos. Ao redor, a agitação elegante do Leblon. Cara e ritmo de bar, sucesso rápido.

Ao chegar a São Paulo, dois anos depois, o ¡Venga! mudou ligeiramente seu estilo: instalouse numa casa ampla, com o triplo da capacidade da matriz carioca. Balcão no centro, deque lateral, varanda de janelas largas que dão para uma pracinha simpática da Vila Madalena. Ganhou maior feição de restaurante sem perder o jeito de bar e tornou-se um dos endereços mais interessantes e agradáveis da cidade.

O cardápio privilegia, naturalmente, as tapas, como o gaspacho, o pan con tomate ou as porções de presunto cru pata negra ou queijo manchego. Em algumas visitas, houve deslizes da cozinha. Faltou crocância às lulas. As batatas bravas, um clássico, chegaram à mesa domesticadas, nada picantes. De fritura precisa, os croquetes de presunto cru e de paella, embora agradáveis, careciam de sabor mais definido, mesmo problema da bochecha de boi ao vinho tinto, da brandade de bacalhau e da chistorra, ligeiramente ressecada.

O polvo à galega, por sua vez, estava excelente. Pontos altos, ainda, foram o espetinho de aspargos envolvidos em presunto cru ao vinagre de Jerez e a anchova enrolada em pão de miga, queijo emmenthal e cebola roxa. Entre os doces, destaque para os deliciosos churros, servidos com ótima calda de chocolate.

A carta de bebidas inclui vários rótulos de Jerez, uma raridade em São Paulo, que poderia e deveria ser imitada. As sangrias não empolgam, mas caem bem no verão. O serviço é gentil e sintetiza, nos gestos, o caráter híbrido da casa: simpatia no atendimento sem tentar forjar falsa intimidade com os clientes.

Um olhar pelas mesas alegres do ¡Venga! mostra muito bem que o tal espectro da mistura de bar e restaurante pode ajudar os paulistanos a afastar o excesso de ostentação que em geral caracteriza a frequentação de restaurantes em São Paulo e tornar o ato de comer fora mais simples e divertido. Um caminho a ser explorado.

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